Crítica

Crítica: Bibi – Uma Vida em Musical

O melhor que posso dizer sobre “Bibi – Uma Vida em Musical” é: vá assistir!

Que grata surpresa esse espetáculo! Sem qualquer dúvida, é o melhor musical dos últimos tempos no Rio de Janeiro. Tem tudo que se possa esperar de uma biografia sobre a dama do teatro Bibi Ferreira: é informativo, engraçado, divertido, envolvente, inspirador e, para quem não abre mão de uma superprodução, é nesse perfil que ela se encaixa. São 19 atores no elenco, diversas trocas de figurinos, perucas e cenários, e um som de primeira. Por fim, o musical original que o público merece. Ainda bem que a temporada é relativamente longa e dá para todo mundo ir assistir: fica em cartaz pelo menos até 1º de abril no Oi Casa Grande, no Leblon.

(Foto: Guga Melgar)

A atriz Amanda Acosta, cujo melhor papel da carreira até então era Eliza Doolittle de “My Fair Lady”, é a responsável por dar vida à personagem Bibi Ferreira. Encantadora, sua interpretação faz jus aos trejeitos e à prosódia particular da retratada sem precisar ser mimética. Ela foi muito perspicaz ao captar o que era essencial de Bibi e criar a partir dali. Com ajuda dos ótimos figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal e do visagismo, Amanda protagoniza o espetáculo do início ao fim, fazendo a personagem na infância, adolescência, juventude e maturidade – sempre convincente. Ótimo atriz! Amanda prova, de novo, ser merecedora de grande papéis.

O musical perpassa a carreira da artista – a parceria com o pai Procópio Ferreira, a abertura de sua companhia, as viagens internacionais, o trabalho no cinema, no teatro de revista, no teatro engajado e no teatro musical. Contar a história de Bibi no palco é também fazer uma homenagem ao teatro brasileiro do último século. O espetáculo tem momentos memoráveis ao recriar “My Fair Lady”, “Alô Dolly”, “Gota D’Água” e “Piaf, a Vida de uma Estrela da Canção”: difícil assistir sem sorrir. O número de “Alô Dolly” é maravilhoso! Individualmente, é tudo impecável, mas o conjunto colorido formado pelos cenários de Natalia Lana, as coreografias de Sueli Guerra, o desenho de luz de Rogerio Wiltgen e a direção musical de Tony Lucchesi acertam em cheio. É um deleite para o espectador. Tadeu Aguiar (de “Ou Tudo ou Nada – O Musical”), na direção geral orquestrando todos esses elementos, está em seu auge. É um trabalho para não botar defeito.

A dramaturgia – assinada por Artur Xexéo (de “Cartola – O Mundo É um Moinho”) e Luanna Guimarães – também não se furta à vida pessoal da homenageada. Mostra as traições de seu pai, os problemas financeiros, os casamentos e os desapegos rápidos de Bibi, o sofrimento com as idas, vindas e morte de Paulo Pontes, seu desinteresse político, enfim, todo o necessário para apimentar a história e humanizar a personagem para a plateia. Mas o mais interessante é a maneira lúdica escolhida para contar essa biografia: um circo. O público conhece a trajetória de Bibi conduzido por três narradores: o apresentador circense, a avó da atriz e uma vidente ruim de interpretação. O trio cômico, composto por Leo Bahia (de “O Mambembe”), Rosana Penna (de “Nuvem de Lágrimas – O Musical”) e Flavia Santana (de “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”) é um dos pontos altos da encenação.

O elenco é de primeira. Enquanto assistia, tive um devaneio de olhar os rostos dos atores um por um e pensar: quanta gente boa junta! Não há nenhum tipo de concessão ali. Chris Penna (de “Beatles Num Céu de Diamantes”) e Simone Centurione (de “Como Eliminar Seu Chefe”) divertem o público como os pais de Bibi, e Luísa Vianna (de “Gabriela, um Musical”) faz rir sem precisar falar, como a assistente da atriz. Leandro Melo (de “Yank – O Musical”), Carlos Darze (de “Curral Grande”) e Guilherme Logullo (de “Kiss Me, Kate – O Beijo da Megera”) dão vida aos ex-maridos. Os demais dão conta, com alto nível, de papéis menores no ensemble.

“Bibi – Uma Vida em Musical”, mais do que uma excelente obra artística, é também um bom modelo de dinheiro bem empregado. Não é um espetáculo barato, mas os recursos são visivelmente bem gastos. Depois de tantas anunciadas superproduções que resultaram desastrosas, esse musical dá gosto de ver.

(Foto: Guga Melgar)

Ficha técnica
Autores Artur Xexéo e Luanna Guimarães
Direção Tadeu Aguiar
Elenco Amanda Acosta [Bibi Ferreira], Analu Pimenta, André Luiz Odin, Bel Lima, Caio Giovani, Carlos Darzé, Chris Penna [Procópio Ferreira], Fernanda Gabriela, Flavia Santana, Guilherme Logullo, João Telles, Julie Duarte, Leandro Melo, Leo Bahia, Leonam Moraes, Luísa Vianna, Moira Osório, Rosana Penna e Simone Centurione.
Direção musical Tony Lucchesi
Música original Thereza Tinoco

Cenário Natalia Lana
Figurino Ney Madeira e Dani Vidal
Coreografia Sueli Guerra
Desenho de luz Rogerio Wiltgen
Desenho de som Gabriel D’Ângelo

Assistência de direção Flavia Rinaldi
Assistência de coreografia Olivia Vivone
Assistência de direção musical Alexandre Queiroz
Assistência de iluminação Wagner Azevedo

Coordenação de produção Eduardo Bakr
Produção geral Cláudia Negri
Realização Negri e Tinoco Produções Artísticas

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SERVIÇO: qui e sex, 20h30; sáb, 17h e 21h; dom, 19h. R$ 50 até R$ 150. 140 min. Classificação: 10 anos. Até 1º de abril. Teatro Oi Casa Grande – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.

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