Crítica

Crítica: Boca de Ouro

“Boca de Ouro”, uma das tragédias cariocas de Nelson Rodrigues (1912-198), pode ser vista novamente nos palcos – sob os cuidados do diretor Gabriel Villela (de “Os Gigantes da Montanha”). A peça, que estreou com um fracasso em 1960 e virou filme com Jece Valadão (1930-2006) no ano de 1963, gira em torno de um sanguinário bicheiro carioca, que trocou sua arcada dentária perfeita por uma dentadura de ouro. A história é contada sob o ponto de vista de Dona Guigui, uma espécie de ex-mulher, que é abordada pelo repórter de um jornal disposto a arrancar um grande furo para a cobertura da morte do contraventor. No elenco da nova montagem, estão Malvino Salvador (de “Chuva Constante”) no papel-título e Lavínia Pannunzio (de “Refluxo”) como a ex, além de Mel Lisboa (de “Roque Santeiro – O Musical”) e Claudio Fontana (de “A Tempestade”) com importantes personagens coadjuvantes.

(Foto: João Caldas)

O texto é dividido em três atos, aqui apresentados sem interrupções. A proposta do dramaturgo é interessante: o protagonista está morto. O público tem acesso a ele através do olhar de Guigui, que conta três versões da mesma história. Seu relato varia de acordo com seu estado emocional. [Alerta de spoiler] Primeiro, sem saber do assassinato de sua antiga paixão, ela revela ao jornalista como o ex matou Leleco (papel de Claudio Fontana) por um motivo bobo. Depois, quando toma ciência do falecimento, fica triste, muda a história, pinta Boca de Ouro como um lorde e afirma que Leleco foi assassinado por sua esposa, Celeste (Mel Lisboa), que já era amante do bicheiro. Por fim, ao se ver em crise conjugal com o atual marido por falar demais, Guigui transforma o bicheiro em feminicida. A plateia não sabe o que é verdade e o que é invenção. Os personagens citados por Guigui estão todos mortos e, portanto, incapazes de contestação.

Como a narrativa é sabidamente impregnada de subjetividade, uma encenação que fuja ao realismo cai bem, e Gabriel Villela parece um nome ideal para isso. O diretor, com uma estética que lhe é peculiar, imprime sua marca com uma montagem carnavalesca. Ele assina o cenário, com mesas e cadeiras adaptáveis tanto para uma gafieira quanto para a casa dos personagens, e os figurinos lindos e fantasiosos, destacados pela iluminação de Wagner Freire. Confetes, serpentinas e inserções de canções – cantadas por Mariana Elisabetsky – dão o caráter lúdico. A lista de músicas inclui “Cidade Maravilhosa”, “Lencinho Branco”, “Na Cadência do Samba”, “Ne Me Quittes Pas”, “Não Deixe o Samba Morrer” e “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, entre outras. A interpretação de Mariana é sempre belíssima, mas tanta cantoria excede e contribui para que o espetáculo se torne arrastado – com quase duas horas sentidas por quem está na plateia. Ao todo, são 14 sucessos nacionais e internacionais inseridos na dramaturgia.

A direção de Villela conduz o elenco para uma atuação afetada, que realça e satiriza os aspectos melodramáticos da trama, provocando risos. O casal formado por Mel Lisboa e Claudio Fontana sintetiza essa característica da montagem, com ótimo desempenho. A imoralidade dos personagens é suavizada com tal comicidade. O ator Chico Carvalho (de “Peer Gynt”), com dois personagens menores, também chama a atenção pela consistente construção de seu trabalho. Malvino Salvador, exposto nas nuances do bicheiro nas três versões da história, exagera com certa histeria incômoda, mas o contexto permite. O elenco é bom. “Boca de Ouro” é uma montagem interessante, no fim das contas.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Alex Silva / Estadão)

Ficha técnica
Texto: Nelson Rodrigues
Direção, Cenografia e Figurinos: Gabriel Villela
Elenco: Malvino Salvador (Boca de Ouro), Mel Lisboa (Celeste), Claudio Fontana (Leleco), Lavínia Pannunzio (Guigui), Leonardo Ventura (Agenor), Chico Carvalho (Caveirinha e Maria Luisa), Cacá Toledo, Guilherme Bueno, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold (ao piano) e Guilherme Bueno
Iluminação: Wagner Freire
Direção Musical e preparação Vocal: Babaya
Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Monica
Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo
Foto: João Caldas
Produção executiva: Luiz Alex Tasso
Direção de produção: Claudio Fontana
Realização: SESC Rio
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h; dom, 18h. R$ 30. 110 min. Classificação: 14 anos. Até 25 de fevereiro. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.

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