Crítica: Cauby! Cauby! – Uma Lembrança – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Cauby! Cauby! – Uma Lembrança

Quando Cauby Peixoto (1931-2016) morreu, já amargava há muito um ostracismo. Cantava há mais de uma década em um local fixo em São Paulo, na esquina da Ipiranga com a São João, e não tinha mais atenção das rádios ou da mídia de um modo geral. Considerado por muitos “o melhor cantor do Brasil”, ele foi deixado de lado quando o romantismo se tornou cafona e a bossa nova se consolidou no mercado. Tentou se reiventar algumas vezes, ganhou até homenagem do Grammy Latino, mas viu sua popularidade minguar e seu público não se renovar ao longo dos anos. Parte dessa história é contada no novo musical “Cauby! Cauby! – Uma Lembrança”, estrelado por Diogo Vilela (de “Gaiola das Loucas”), como uma busca para reconhecer seu legado. O espetáculo retoma a equipe criativa de “Cauby! Cauby!”, musical-tributo realizado há 12 anos: Vilela no papel principal e na direção, Flávio Marinho no texto e na direção, e Liliane Secco na direção musical.

(Foto: Dalton Valério)

Inevitavelmente, o espetáculo atrai o público mais velho, que viveu o auge do sucesso de “Conceição” e se tornou fã de Cauby Peixoto nos anos 1950. Mas o texto de Flavio Marinho também está de olho em quem nunca acompanhou o trabalho do cantor. O musical começa com dois jovens estudantes de jornalismo (Luiz Gofman, de “Como Eliminar Seu Chefe”, e Ryene Chermont, de “Estúpido Cupido”) obrigados a fazer um trabalho sobre Cauby para a faculdade. O problema é que eles não sabem nada sobre o cantor e a professora proibiu o ctrl+c ctrl+v da Internet. A dupla, então, descobre no Google que o artista viveu seus últimos anos acompanhado de uma fã, transformada em cuidadora pessoal, a Nancy Laura (Sylvia Massari, de “Eu Não Posso Lembrar Que Te Amei – Dalva e Herivelto”), a quem decidem buscar para uma entrevista. No palco, a história de Cauby Peixoto é contada a partir das lembranças de Nancy e dos questionamentos dos adolescentes. É uma ideia criativa para abarcar diferentes públicos e contextualiar o retratado no tempo.

Os problemas, contudo, não tardam a aparecer. A dramaturgia não supera a necessidade de apresentar o repertório do cantor. As músicas, no geral, entram forçosamente, como ilustrações na narrativa. Além disso, perde-se o foco algumas vezes, com desvios para retratar as cantoras amigas Ângela Maria (papel de Sabrina Korgut, de “4 Faces do Amor”) e Lana Bittencourt (Aurora Dias, de “Muita Mulher pra Pouco Musical”). Os solos são belamente cantados pelas atrizes, mas representam excessos no espetáculo, que se torna cansativo. Com tanta música, pouco acontece. A trama é dividida em dois atos, ambos com percalços. No primeiro, a encenação realista esbarra no disparate da juventude de Cauby ser interpretada por Diogo Vilela, um ator de 60 anos. O que ele faz é só tirar a peruca. Não convence e não se justifica, havendo atores jovens no elenco. No segundo ato, a construção linear do primeiro é quebrada sem propoósito, e a trama fica desordenada. Conclusão: o primeiro ato ainda é melhor construído.

De um modo geral, é uma produção de médio porte. São nove atores no elenco. Diogo Vilela, como o protagonista, e Paulo Trajano (de “S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal”), como seu empresário, são os únicos que não se alternam entre vários papéis e ensemble. A dupla tem boa química. Trajano é muito natural no palco. Em termos de canto, Vilela deixa a desejar a Cauby Peixoto – um comentário injusto, mas que precisa ser feito. Injusto, porque se o retratado foi “o melhor”, não é fácil alcançá-lo. Mas não é como se chegasse perto disso, tampouco. Sabrina Korgut e Aurora Dias são as melhores vozes, mas isso não deveria ser notado em um musical com “um Cauby” no palco. No mais, outro talento notável no elenco é Luiz Menezes (de “O Mundo Encantado de Clara”) pelo trabalho como bailarino. O trio formado por Sylvia Massari, Luiz Gofman e Ryene Chermont, mais voltado para a atuação, é bom e diverte com os diálogos bem humorados. Os músicos da banda também merecem o devido reconhecimento: fazem um ótimo trabalho com tantas canções, adaptadas para o contexto teatral, mérito de Liliane Secco.

O elenco desfruta de uma grande variedade de troca de figurinos, creditados a Ronald Teixeira. Eles se destacam sobretudo no segundo ato, quando o personagem Cauby assume o visual extravagante. Ronald também assina o cenário, dividido em quatro segmentos fixos no palco, mal explorados pela direção. A cenografia ocupa muito espaço, não é utilizada em metade do tempo, e deixa uma área mais enxuta para o vai e vem dos atores. Quando quase todos estão em cena em números musicais, o espaço disponível interfere na apresentação, com coreografias simplórias e marcações amontoadas. Com isso tudo, “Cauby! Cauby! – Uma Lembrança” não impressiona nem surpreende em nenhum nível. E não vou nem falar na fixação na sexualidade do cantor, algo que o perseguiu a vida toda e se repete in memoriam

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Dalton Valério)

Ficha técnica
Texto: Flavio Marinho
Direção: Diogo Vilela e Flavio Marinho
Elenco: Diogo Vilela, Sylvia Massari, Sabrina Korgut, Paulo Trajano, Aurora Dias, Luiz Gofman, Ryene Chermont, Luiz Menezes e Rafael de Castro
Vozz off de Paulo Gracinco por Gracindo Junior
Direção musical: Liliane Secco
Cenário: Ronald Teixeira e Guilherme Reis
Iluminação: Maneco Quinderé
Coreografia: Tania Nardini
Cenotécnico: Humberto Silva e Equipe
Adereços: George Bravo
Pintura de arte: Raphael Elias e Eric Fuly
Assistente de cenografia: Caroline Amaral
Costuras de cena: Tânia Dutra e Lindiane Giovaneli
Montagem de cenário: Humberto Antero da Silva, Humberto de Oliveira Silva, Thiago de Pádua Almeida, Celso de Paiva, João Carlos Bonifácio, Juliano de O. Lorenzi, Jose Wellington G. de Lima, Filipe da Silva e Silva.
Eletricista cênico: Beto de Almeida
Estagiários: Jovanna Souza e Beatriz Gonçalves
Maquinista: Renato Darin
Diretor de palco: Gerson da Silva dos Santos (Gerson Porto)
Assistente de direção/coreografias: Juliana Medella
Caracterização: Mona Magalhães
Fotos: Dalton Valério
Desenho de som/operador: Murillo Corrêa e Cia.
Técnico de Palco/Microfonista: João Bandeira
Montagem de som: Equipe Murillo Corrêa e Cia.
Assistente de iluminação: Felicio S. Mafra Produções ME
Montagem de luz: Bruno Barreto, Felicio Mafra, Daniel Benevides, Jonas Floriano e Vladimir Freire
Operador de luz: Bruno Barreto
Direção de produção: Marília Milanez
Coordenação Adm. Financeira: Nitiren Produções Artísticas Ltda.
Produção Executiva: Marco Aurélio Monteiro
Assistente de Produção: Letícia Ponzi

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 80. 120 min. Classificação: 12 anos. Até 11 de março. Teatro Carlos Gomes – Praça Tiradentes, s/n – Centro. Tel: 2224-3602.

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