CríticaOpinião

Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical diverte e emociona plateia

A vida do Cazuza é o roteiro perfeito. Tem introdução, ponto de virada, um baita desenvolvimento, clímax e, infelizmente, fim. Com todo exagero que o caracterizava, sua vida foi de um extremo ao outro, com pessoas o ovacionando e se compadecendo dele. Com tantos ingredientes, o trabalho do Aloisio de Abreu (de “Subversões 21”) ao escrever “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical” era basicamente organizar e emendar os fatos. Não havia muita chance de erro. Ele optou por dois atos – um para a ascensão da carreira, outro para a degeneração decorrente da AIDS – o que funcionou no palco. Talvez muito tempo tenha sido dedicado à fase do Barão Vermelho, em detrimento de outras, mas escolhas tinham que ser feitas. O espetáculo que é visto com certeza diverte e emociona.

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.

O Cazuza do ator Emílio Dantas impressiona. Mais do que incorporar os trejeitos do cantor, morto aos 32 anos, ele age com naturalidade em cena, como quem faz tudo com as pernas nas costas. Assistir a ele dá a impressão de rever Cazuza vivo, principalmente pela capacidade de imitação do timbre do homenageado. A luz de Daniela Sanches e Paulo Nenem também colabora para a pontuação das sensações e da carga emocional de cada cena. Emílio impressiona principalmente nas mais dramáticas – como o número de “Down em Mim” – mas não lhe falta energia também nas performances mais rock.

O elenco, de uma maneira geral, está de parabéns. É harmônico e coeso, dirigido por João Fonseca (o mesmo de “Vale Tudo, o Musical”, sobre Tim Maia). As interpretações da Susana Ribeiro (no papel de Lucinha Araújo) e do André Dias (como o produtor Ezequiel Neves) chamam a atenção, particularmente, por motivos diferentes. Ela faz a plateia sentir a dor da mãe, e ele leva o público à gargalhada a cada entrada. Já Yasmin Gomlevsky (como Bebel Gilberto) se destaca pela voz, deixando o número de “Eu Preciso Dizer Que Te Amo” especialmente bonito.

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Os figurinos – assinados por Carol Lobato – e o cenário – de Nello Marrese – também contribuem muito para o trabalho dos atores. As roupas pontuam muito o estado de espírito das cenas, com cores mais vibrantes ou mais frias. A maquiagem da fase terminal do protagonista é comovente e convincente (e, talvez, o número de dança no hospital seja um pouco indelicado exatamente por isso). Já o cenário é único, porém produtivo, responsável por dar movimento ao elenco, que sobe e desce as plataformas, aproveitando bem o espaço. As coreografias (de Alex Neoral), especificamente, utilizam muito o que tem a seu dispor. Só o telão na parte superior do palco, tapando a banda (um show a parte), que não interage diretamente com os personagens.

No fim, os espectadores se animam com a possibilidade de se levantar e cantar “Brasil” como se estivesse em um show. Era isso que queriam fazer desde o início, e os assobios e gritinhos efusivos não escondem. “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical” acerta em cheio e cai no gosto do público.

Depois da temporada no Theatro Net Rio, no Rio de Janeiro, o musical vai para São Paulo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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