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Crítica: Cinco Júlias – Teatro das Artes

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Depois de atualizar o texto de “Confissões de Adolescente” para o teatro (2009) e cuidar da adaptação da trama para o cinema (2013), o dramaturgo e cineasta Matheus Souza volta a se direcionar aos jovens, com um musical alternativo. “Cinco Júlias”, sua primeira peça teatral em três anos, trata dos conflitos juvenis na contemporaneidade – com envio de nudes, fofocas via Whatsapp e segredos trocados via inbox corriqueiramente. Na história, um grupo de hackers invade o banco de dados dos principais aplicativos e redes sociais e expõe todas as conversas, de todas as pessoas do planeta, em um site chamado uleaked.com. Uma ficção científica, por assim dizer, passada logo ali em 2017: afinal, pode acontecer a qualquer momento, não pode?

(Foto: Kaio Caiazzo)

(Foto: Kaio Caiazzo)

As Cinco Júlias do título são interpretadas por Malu Rodrigues (de “Nine – Um Musical Felliniano”), Gabi Porto (de “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”), Carol Garcia (de “As Bodas de Fígaro”), Bruna Hamú e Isabella Santoni – essas duas últimas saídas da novela teen “Malhação” e estreantes em teatro, funcionando como chamariz de público. Na trama, cada Júlia está fugindo de um drama pessoal após a criação do uleaked. Uma vê sua vida virar de cabeça para baixo com o vazamento de fotos dela nua; outra fica exposta com suas traições divulgadas para quem quiser ler; outra descobre que o pai desaparecido, na verdade, manda e-mails frequentemente para sua mãe pedindo o endereço delas; outra tenta se matar ao ler uma conversa de sua mãe dizendo que sua homossexualidade às vezes é um fardo; e a última, coitada, fica arrasada porque vê todos arrancando cabelos, mas não têm amigos, então não tinha conversa virtual nenhuma para vazar. Vítima de bullying, sente-se a pessoa menos interessante do mundo. Atordoadas, cada uma à sua maneira, encontram-se por obra do destino e se aliam para superar seus conflitos pessoais – agravados pela falta de privacidade global.

Matheus Souza tem como característica o passeio entre as fronteiras da comédia dramática e do drama cômico. Seus filmes, “Apenas o Fim” (2008) e “Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida” (2012), são assim: meio tristes, meio engraçados. “Cinco Júlias”, idem. Uma das cenas mais bonitas de todo o espetáculo é a tentativa de suicídio da Júlia de Isabella, enquanto a Júlia de Malu canta “No Surprises” (Radiohead). A performance de ambas, somada à iluminação de Rodrigo Belay e às projeções nos telões que compõe o cenário de Miguel Pinto Guimarães proporcionam um hibridismo envolvente. É música, é teatro, é audiovisual, tudo ali bem engrenado para um momento ímpar. Por outro lado, Carol Garcia pega o espetáculo e coloca no bolso com sua Júlia cômica. A personagem é assumidamente burra e tem algumas das melhores falas da peça. A plateia morre de rir com ela, e sai do teatro achando Carol incrível. E ela realmente é. Seu tempo de humor, que pode ser visto no canal virtual Parafernalha, casa bem com o texto e a direção do Matheus. Mas a Júlia de Carol também está sofrendo, porque vai perder o namorado, que ama, apesar de trair desenfreadamente. O público ri enquanto ela sofre.

(Foto: Kaio Caiazzo)

(Foto: Kaio Caiazzo)

Montado sem patrocínio, o espetáculo é uma produção bem decente, com recursos próprios. A solução do cenário com os telões – onde aparecem participações de Aderbal Freire-Filho, Ícaro Silva, João Côrtes, Louise D’Tuani e Leo Bahia – é, além de funcional e interessante, esteticamente bela. Os figurinos das meninas é colorido, um contraponto à ausência de mais elementos cenográficos. O ponto alto, porém, é a iluminação, que pode derrubar ou enaltecer qualquer cena ou espetáculo e, aqui, só trabalha positivamente. As luzes coloridas são capazes de criar grandes momentos com muito pouco.

A parte musical, dirigida por Pablo Paleologo (de “As Coisas Que Fizemos e Não Fizemos”), é apoiada em rock alternativo e pop dos anos 90 para cá. Há de Radiohead à Taylor Swift e das Spice Girls à Florence and the Machine. Algumas músicas têm função dramatúrgica maior do que outras, mais decorativas. Mas os números são todos bem construídos, apesar disso, e a banda é tão límpida que parece uma gravação. Malu, Carol e Gabi Porto seguram a condução das músicas, todas com ótimos momentos, e Bruna Hamú dá conta satisfatoriamente quando é colocada para cantar em evidência, uma única vez. Isabella não canta, e a solução dramatúrgica para isso, autossatírica, é espirituosa.

Embalado por atrizes queridas da TV, repertório famoso, boas cantoras e doses exatas de humor, “Cinco Júlias” consegue tratar de bullying, morte, sexualidade, sexo, superexposição, problemas familiares, lealdade e drogas sem tabus. Os temas aparecem sem didatismo e são tratados com leveza, o que sem dúvida mantém o público adolescente interessado, mas também atrai os adultos, que já passaram por aquela fase e são capazes de se identificar. As partes sensíveis impedem a história de ser chamada de boba. O único problema, para os mais velhos, podem ser as referências pop habituais do Matheus Souza, que, para os menos antenados, não fazem o menor sentido. Mas o Google está aí para isso.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: Kaio Caiazzo)

(Foto: Kaio Caiazzo)

Ficha técnica
Texto e Direção Matheus Souza
Elenco Isabella Santoni, Malu Rodrigues, Bruna Hamú, Carol Garcia e Gabi Porto.
Direção Musical Pablo Paleologo
Preparação Vocal Felipe Habib
Direção de Movimento e Coreografias Ana Paula Bouzas
Cenário Miguel Pinto Guimarães
Figurino João Lamego
Desenho de luz Rodrigo Belay
Criação de Vídeos e projeção Dudu Chamon
Design Gráfico Julia Bueno
Assistente de Direção Hamilton Dias
Equipe de produção Leila Meirelles, Marcela Nunes e Elisa D’Abreu
Direção de Produção Tatianna Trinxet
Realização CONSTELAR & ZEUGMA

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SERVIÇO: seg e ter, 20h30. R$ 60. 105 min. Classificação: 12 anos. Até 5 de abril. Teatro das Artes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52, 2º piso – Gávea. Tel: 2540-6004.

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