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Crítica: Cinderella – Teatro Alfa (SP)

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“Cinderella” é a versão brasileira do musical da Broadway escrito por Douglas Carter Beane a partir do conto do francês Charles Perrault (1628-1703). Com músicas de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II, a mesma dupla de autores de “A Noviça Rebelde”, a narrativa dessa produção remete àquela produzida pela emissora americana CBS. Veiculado ao vivo na noite de 31 de março de 1957, o espetáculo protagonizado por Julie Andrews foi assistido por 107 milhões de pessoas ao mesmo tempo. Quase sessenta anos depois, esse recorde de audiência da televisão dos Estados Unidos foi poucas vezes batido. Assinado por Charles Möeller e por Claudio Botelho, a produção da Fabula Entretenimento é protagonizada pelos ótimos Bianca Tadini e por Bruno Narchi ao lado das excelentes Totia Meireles e Ivanna Domenyco e de grande elenco. Mais uma vez bastante elogiáveis, o visagista Beto Carramanhos, a figurinista Carol Lobato e o cenógrafo Rogério Falcão, que recentemente estiveram em “Kiss Me, Kate! – O Beijo da Megera”, repetem a vibrante parceria agora ao lado de Maneco Quinderé, que assina o belíssimo desenho de luz; e da Mazefx, os magníficos efeitos visuais. A peça está em cartaz desde março no Teatro Alfa, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo.

(Foto: Guto Blond)

(Foto: Guto Blond)

Uma das maiores audiências da TV americana na história

Autor das versões para teatro musical dos filmes “Xanudu” e “Mudança de Hábito”, Douglas Carter Beane fez modificações no roteiro de “Cinderella” de Richard Rodgers e de Oscar Hammerstein II. Suas alterações não foram unanimemente bem aceitas e talvez tenham sido uma das causas para a temporada da Broadway ter durado apenas um ano e oito meses em 770 apresentações. Lançada em março de 2013, a peça foi a primeira versão oficial do show para TV produzido em 1957. Ela recebeu nove indicações ao Tony Awards, mas ganhou apenas a de Melhor Figurino. Caso parecido já havia acontecido antes com outra produção.

No fim de 1955, Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, que já haviam assinado enormes sucessos como “Oklahoma!” (1943) e “The King and I” (1951), amargaram seu maior fracasso: o musical “Pipe Dream”. Tratava-se de uma adaptação para palco de dois livros de John Steinbeck, “A Rua das Ilusões Perdidas” e sua continuação “Doce Quinta-Feira”. A jovem atriz inglesa Julie Andrews, que tinha chamado a atenção da Broadway na temporada americana de “The Boyfriend”, havia sido cogitada para o papel da prostituta Suzi. Ela, no entanto, preferiu a personagem Eliza Doolitle, o papel título em “My Fair Lady”, que estava sendo produzido. Com nove indicações ao Tony e somente a estatueta de Melhor Figurino – como “Cinderella” em 2013 – “Pipe Dream” não viu na premiação uma possibilidade de alavancar o público que não comparecia ao teatro. E saiu de cartaz deixando largas dívidas.

Por isso, em 1956, o convite da CBS para Rodgers e Hammerstein II de adaptarem para TV o conto de Charles Perrault veio financeiramente a calhar. Além disso, “Cinderella” foi a oportunidade para Julie Andrews de, no meio da temporada de “My Fair Lady”, pela primeira vez, aparecer diante das câmeras. E também de trabalhar com aqueles que viriam a ser anos depois os autores de sua Maria von Trapp em “The Sound of Music”, eternizada por ela no cinema em 1965.

Os ensaios para a versão original de “Cinderella” duraram seis semanas no fim do inverno de 1957. 56 atores aparecem em cena, 33 músicos participam da orquestra, 80 técnicos estavam envolvidos com a gravação, mais de cem figurinos foram usados. Enquanto as quatro enormes câmeras gravavam uma cena, em outra parte do estúdio, preparava-se a próxima. As roupas eram trocadas de um quadro a outro em um esforço imenso para esconder cabos, refletores, equipe. Ao vivo para todo os Estados Unidos, em emissões em preto e branco e a cores, o show foi visto, ao mesmo tempo, por sessenta por cento das televisões ligadas. Atualmente, essa é a quarta maior audiência da história da TV americana. A final do campeonato de futebol de 2015 (Super Bowl 50) foi vista por 114,4 milhões de pessoas e está em primeiro lugar. Apenas sete milhões a mais.

(Foto: Guto Blond)

(Foto: Guto Blond)

As boas colaborações ao roteiro de Douglas Carter Beane

Na adaptação de Beane, o aspecto político concorre com a história fantasiosa. Se, no original da CBS, a beleza de Cinderella dá novo sentido à vida do triste príncipe Christopher, na Broadway, é sua humanidade. Nessa versão, saíram da narrativa o Rei e a Rainha e entrou o Primeiro Ministro. Se lá, o casamento é um modo de espantar o tédio, aqui trata-se de um jogo político bem tramado. No texto de Beane, surge ainda Jean-Michel, um camponês disposto a lutar pelos menos favorecidos no reino e contra a monarquia.

As alterações no roteiro dividiram as opiniões da crítica americana, mas aqui no Brasil elas deverão ser valorizadas. A enorme beleza das canções de Richard Rodgers e de Oscar Hammerstein II talvez não seriam bastante para vencer o açucarado conto de fadas em suas mais de duas horas e meia de espetáculo. As contribuições desse novo texto dão melhor corpo para a história, articulação eficaz com o hoje, mais ritmo à narrativa sem tirar a graça, a beleza e o encantamento. Os méritos estão intactos mesmo que um pouco diferentes.

As versões de Claudio Botelho driblam as desafiadoras letras de Oscar Hammerstein II: imagéticas, metafóricas, metrificadas. “Em meu próprio cantinho” (“In my own little corner”), “Ridículo” (“Impossible”), “Lamento das irmãs” (“Stepsister’s lament”), mas principalmente “O baile real” (“The Prince is giving a ball”) têm excelentes resultados. Com os mesmos méritos, estão a direção musical e regência de Carlos Bauzys e o desenho de som de Gabriel d’Angelo, mantendo no Brasil a feliz inclusão das canções “Eu, quem sou eu?” (originalmente composta para o musical Me & Juliet”), “A solidão da noite” (para “South Pacific”) e “A tua canção” (para “Main street to Broadway”).

Efeitos visuais da Mazefx causam impacto excelente

A direção de Charles Möeller foi, sem dúvida, essencial para a qualidade do resultado final dessa produção. O espetáculo tem ritmo, as cenas estão bem articuladas, o aspecto cômico convive bem com o político e com o fantasioso. Além disso, em “Cinderella”, o aspecto “enchanted” que o musical herdou da extravaganza está preservado de modo brilhante. Nos últimos anos, o reinado de Möeller ao lado de Botelho no mercado dos musicais tem se confirmado produção após produção a partir de méritos como os que facilmente se veem aqui. Eis um motivo para o Brasil (e eles próprios) de se orgulhar(em).

Nas interpretações, Tiago Barbosa (o arauto Lorde Pinkleton), Carlos Capeletti (o Ministro Sebastian) e Bruno Sigrist (o camponês Jean-Michel) aproveitam bastante bem as oportunidades e alçam seus personagens para lugares de célebre destaque positivamente. Ivanna Domenyco (Fada Madrinha) e Giulia Nadruz (Gabrielle), com mais possibilidades, apresentam construções de enorme valor, enchendo a assistência com seus carismas e ótimas atuações. Totia Meirelles (Madrasta) domina as cenas com sua força, motivando a história a andar para frente. Bruno Narchi e Bianca Tadini, o Príncipe Topher e a CinderElla, sustentam bem a história que gira em torno de seus personagens.

Com coreografias assinadas por Alonso Barros, visagismo por Beto Carramanhos, figurinos por Carol Lobato e cenário por Rogério Falcão, “Cinderella” brilha nos elementos estéticos: visuais, sonoros, cênicos. O conjunto de interpretações do elenco principal e daqueles que compõem o coro fazem ótima dupla com a evolução de cores, formas e de texturas e com as sonoridades que se contemplam através da dança e do canto. Porém, os efeitos visuais da Mazefx, ao lado da iluminação de Maneco Quinderé, alargando o palco e fazendo com que as cenas invadam a plateia, são o maior destaque do todo, causando sublime impressão. Aplausos!

O peso da responsabilidade

Richard Rodgers, Oscar Hammestein II, Julie Andrews no passado assim como hoje Totia Meirelles, Maneco Quinderé, Alonso Barros, Rogério Falcão, Beto Carranhos, Carol Lobato – além de Claudio Botelho e Charles Möeller – têm cada vez maior responsabilidade na medida em que suas produções vão colhendo sucesso merecido. Ainda bem que a força deles em sustentar tal pressão sobe também. Quem ganha com essa bela produção de Renata Borges e de Raphaela Carvalho, da Fabula Entretenimento, é o público brasileiro. Parabéns!

Por Rodrigo Monteiro
Crítico teatral, mestre em Artes Cênicas e professor universitário.

(Foto: Guto Blond)

(Foto: Guto Blond)

Ficha técnica
Músicas de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II
Texto: Douglas Carter Beane
Versão brasileira: Claudio Botelho
Direção: Charles Möeller
Direção musical: Carlos Bauzys
Figurinos: Carol Lobato
Visagismo: Beto Carramanhos
Luz: Maneco Quinderé
Efeitos visuais: Mazefx
Desenho de som: Gabriel d’Angelo
Cenários: Rogério Falcão
Coreografia: Alonso Barros
Coordenação Artística: Tina Salles
Gerente de Produção: Rômulo Sales
Realização e Direção Executiva: Renata Borges
Produção Executiva: Raphaela Carvalho
Realização: Fabula Entretenimento

Elenco:
Bianca Tadini (Cinderella)
Bruno Narchi (príncipe)
Totia Meireles(Madame, a Madrasta)
Ivanna Domenyco (Marie, a fada madrinha)
Bruno Sigrist (Jean-Michel)
Raquel Antunes (Charlotte)
Giulia Nadruz (Gabrielle)
Tiago Barbosa (Lorde Pinkleton)
Carlos Capeletti (Sebastian)

Laura Visconti (aldeã, convidada do baile)
Letícia Mamede (aldeã, convidada do baile)
Lia Canineu (aldeã, convidada do baile)
Luana Bichiqui (aldeã, convidada do baile)
Naomy Schölling (aldeã, convidada do baile
Talitha Pereira (aldeã, convidada do baile)
Maria Netto (aldeã, convidada do baile)
Diego Luri (cavaleiro, aldeão, tabelião)
Fábio Saltini (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Fernando Palazza (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Marcelo Vasquez (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Nick Vila Maior (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Philipe Azevedo (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Thati Abra (swing)
Willian Sancar (swing)

O musical conta ainda com os bailarinos Aline Campos, Luana Villaça, Mariana Amaral, Otávio Portela, Patrícia Castagna, Pedro Antunes, Ricardo Mesquita e Thiago Garça.

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SERVIÇO: sex, 21h30; sáb, 16h e 20h; dom, 15h e 18h30. R$ 50 a R$ 140 (qui e sex) e R$ 50 a R$ 180 (sáb e dom). 150 min. Até 5 de junho. Teatro Alfa – Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722 – Santo Amaro – Sâo Paulo. Tel: (11) 5693-4000.

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