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Crítica: Como Eliminar Seu Chefe – Teatro Carlos Gomes

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“Como Eliminar Seu Chefe” (Nine To Five) é um filme de 1980, que usa da comédia para tratar de feminismo de uma maneira palatável. Estrelado por Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton, o longa consagrou Dolly, que, responsável pela trilha sonora, recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro, além de vencer dois Grammys. Foi a cantora americana que, 29 anos depois, transformou o filme em um musical teatral da Broadway. Assinando todas as músicas, ela se uniu à roteirista Patricia Resnick – também do filme – e botou a peça nos palcos com Allison Janney, Stephanie J. Block e Megan Hilty nos papeis principais. O espetáculo recebeu quatro indicações ao Tony Awards, e perdeu todas para “Next To Normal” e “Billy Elliot – The Musical”. Ele ainda fez turnê pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, e a gravação da trilha sonora rendeu uma indicação ao Grammy novamente. Não venceu, também: “West Side Story” levou.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

No ano passado, estreou no Rio de Janeiro a montagem brasileira do musical, com versão de Flávio Marinho (de “Sim, Eu Aceito! – O Musical do Casamento”) e direção de Cláudio Figueira (também de “Sim, Eu Aceito! – O Musical do Casamento”). “Nine to Five”, a música que abre a peça, virou “Nove às Seis” por aqui, em adequação ao expediente nacional. Mas param por aí as adaptações. A trama que se vê é assumidamente datada e localizada geograficamente. Flavio Marinho optou por não atualizar ou trazer para cá a história, mantendo o formato McTheatre, concentrando-se apenas em traduzir as músicas para o português (o que deixou algumas com a métrica atrapalhada). Mas “Nove às Seis”, pelo menos, é uma canção que o espectador sai do teatro cantando. É chiclete.

Na história, Violet (Tânia Alves, de “Palavra de Mulher”), Doralee (Sabrina Korgut, de “As Noviças Rebeldes”) e Judy (Simone Centurione, de “O som da Motown”) são secretárias da mesma empresa, onde o machismo impera, e decidem se unir para acabar com a arrogância do chefe. Franklin (Marcos Breda, de “Oleanna”), o patrão em questão, paga salários mais baixos para as mulheres, acha que tem direito de assediá-las, e promove um estagiário em vez de sua assistente para um cargo importante, por mero sexismo. Desiludidas, as três se deixam levar pela indignação e, quando veem, estão com Franklin amarrado e feito de refém – assim, bem pastelão. O ato absurdo é o catalisador para que revitalizem o escritório, assinando memorandos no nome dele, aumentando a qualidade de vida dos funcionários e, consequentemente, a produtividade. A história distrai, algumas piadas são melhores que outras, há partes muito bobas, mas, como espetáculo para família, a peça se qualifica por tratar de temas importantes, como feminismo e abuso de poder, sem didatismo.

(Foto: Divulgação)

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São 19 atores em cena, incluindo ainda Gottsha (de “Às Terças”), como uma funcionária X9 apaixonada pelo chefe, Cristiana Pompeo (de “Os Saltimbancos Trapalhões, o Musical”), como uma divertida funcionária alcoólatra, e Fabrício Negri (de “Agnaldo Rayol – A Alma do Brasil”), como o contador que se alia ao trio de protagonistas. Na sessão assistida, o primeiro número musical foi prejudicado com o som dos instrumentos alto demais, abafando o dos microfones, e pouco se entendia do que o elenco cantava. Mas, depois, o problema foi contornado. Outro ponto negativo é que a direção musical de Liliane Secco (de “Sim, eu Aceito! – O Musical do Casamento”) não consegue nivelar o canto das três atrizes principais. Quando elas cantam juntas, fica explícito o alcance vocal tímido de Tânia Alves, comparado ao de Sabrina e Simone, que se sobressaem com facilidade. Fabrício também mostra bons dotes vocais quando tem chance. Gotsha, infelizmente, ficou com as músicas mais tediosas da peça.

Quanto à estética do espetáculo, ela reforça a origem no filme dos anos 80, com vestidos, perucas e elementos cênicos daquela época, para a realidade de uma cidadela americana. Telefone com fio, fotocopiadora e máquina de escrever são objetos fundamentais em determinadas cenas. É Clívia Cohen que assina cenários e figurinos. A cenografia tenta reproduzir mimeticamente toda necessidade dramatúrgica: escritório, sala do chefe, porta do elevador, entrada do prédio, casa das funcionárias… O entra e sai de parafernália, cheio de contrarregras em cena, cansa e nem sempre se justifica.

“Como Eliminar Seu Chefe”, para os mais jovens, não traz nada novo e pode ser desinteressante. Já para a geração que queimou sutiãs e vivenciou mais explicitamente as diferenças entre sexos no ambiente de trabalho – que, em menor escala, ainda existem em algumas áreas – o musical é também uma espécie de vingança.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Texto: Patricia Resnick
Músicas e letras: Dolly Parton
Direção Geral: Cláudio Figueira
Versão Brasileira: Flávio Marinho
Direção Musical & Preparação Vocal: Liliane Secco
Diretora assistente: Elida L’astorina
Direção de Produção: Cláudio Figueira
Produção: Carmen Figueira – Só de Sapato Produções e Renata Borges – Fabula Entretenimento
Cenários & Figurinos: Clívia Cohen
Coreografias: Cláudio Figueira
Coreógrafa Assistente: Elisa Firpo
Caracterização: Rodrigo Fuentes
Figurinista Assistente: Clara Cohen
Desenho de luz: Paulo César Medeiros
Sonorização: Luiz Everando
Técnico de Som / Microfonista: Pedro Ivo
Programação Visual: Luiz Pimenta & Renata Ottaiano
Alfaiate: Macedo Leal & Equipe
Cenotécnico & Pintura de Arte: Máximo Esposito
Assistente de Cenotécnico: Willian Marcelo
Serralheiro / Aramista: Junior Alexandre
Adereços & Maquete Virtual: José Cohen
Fotos: Ivo Gonzalez
Diretor de Cena: Paulo Ramos
Contrarregra: Raul Mororó
Administração: Carmen Figueira
Realização & Produção: Só de Sapato Produções e Fabula Entretenimento
Elenco: Marcos Breda, Tânia Alves, Sabrina Korgut, Simone Centurione, Gottsha, Fabrício Negri, Cristiana Pompeu, Carlos Viegas, Gabriel Titan, Analu Pimenta, Dani Fancone, Martina Blink, Carol Ebecken, Elisa Firpo, Luiz Gofman, Debora Pinheiro, Cosme Motta, Leandro Massaferri, Daniel Lack
Maestro: Fernando Lopez
Orquestra: Fernando Lopez (teclados), Tássio Ramos (baixo elétrico e acústico), Carlos Henrique (bateria e percussão), Moisés Camillo (guitarra e violões de aço e nylon), Levi Chaves (sax alto, clarineta, flauta e piccolo), Daniel Kaiser (sax barítono, sax tenor, clarineta, clarone e flauta), Elias Correia (trombone), Ernani (trompete e flugelhorn)

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SERVIÇO: qui e sex, 19h30; sáb, 17h e 20h; dom, 18h. R$ 80 (qui, sex e sáb e dom) e R$ 90 (sáb às 20h). 140 min. Classificação: 14 anos. Até fevereiro. Teatro Carlos Gomes – Praça Tiradentes, 19 – Centro. Tel: 2215-0556.

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