Crítica

Crítica: Como Se Um Trem Passasse

O espetáculo “Como Se Um Trem Passasse” resulta do intercâmbio artístico entre Brasil e Argentina. A peça é da argentina Lorena Romanin e está em cartaz há cinco anos em Buenos Aires. Traduzida e adaptada para o português por Caio Scot e Junio Duarte, com direito a uma cena em torno da música “Fogo e Paixão” do Wando, a montagem brasileira tem elenco local, mas direção internacional. A própria Romanin, que também dirigiu a montagem argentina, viajou ao Brasil para trabalhar com os atores. O resultado é cativante.

(Foto: Patrick Gomez)

Dida Camero (de “Rose”) e Caio Scot (de “[nome do espetáculo]”) interpretam mãe e filho em uma cidade do interior. Ele é um adolescente com deficiência intelectual, o que lhe confere comportamento infantil em um corpo grande e desajeitado, e ela tanto o superprotege quanto o sufoca, como mãe solteira vivendo exclusivamente para o filho. A bolha criada pela personagem, porém, é quebrada pela chegada da sobrinha da capital (Manu Hashimoto, de “O Anti-Musical, o Musical”), uma adolescente rebelde que está sendo castigada pela mãe ao ser afastada dos amigos e do namorado após ser flagrada com maconha. A estadia dela é transformadora e conflituosa para os três personagens, confrontados com outra realidade e outro modo de pensar repentinamente.

O texto está longe de ser incrível e peca pela previsibilidde e pouca profundidade dos personagens. Por outro lado, o humor que guia a narrativa diverte e envolve o público, que não tem dificuldades para se identificar com o drama familiar. Todo mundo conhece ou tem mães e primas assim. Deste modo, como uma novela, você imagina o que vai acontecer, mas quer ver mesmo assim. A curva narrativa dos personagens nem sempre é verossímil, como se faltassem algumas cenas para que elas fossem convincentes, mas isso não compromete o resultado palatável.

O espetáculo é apresentado no Teatro Poeirinha, com plateia muito pequena e uma formatação que deixa o público muito próximo da cena, estabelecendo uma relação de intimidade e voyeurismo. Quando o espectador entra na sala, Caio Scot já está no palco, sentado no chão, brincando com um autorama. O lindíssimo cenário de Dina Salem Levy cria de modo realista a sala aconchegante da casa da pequena família. Toda a ação se desenrola basicamente neste cômodo, onde eles brincam, discutem, se emocionam, telefonam, jantam e a visita dorme (no sofá). A iluminação de Renato Machado, em geral, aposta na estética doméstica, com um holofote central e dois objetos cenográficos, uma lâmpada sobre a mesa de jantar e um abajour ao lado do sofá. Os figurinos e o visagismo de Júlia Marques imprimem alguma complexidade nos personagens e contribuem para a ambientação da trama.

O elenco se vale bastante desses elementos em sua representação. Dida Camero mergulha na caricatura de mãezona e dá um show nas nuances dessa personagem, extravagante e dramática. Caio Scot, com bom desempenho, não precisa de falas para comunicar as limitações e angústias do filho retraído. À Manu Hashimoto, no entanto, falta densidade e naturalidade para a encenação realista, por vezes destoando dos outros atores. Cabe à Dida sustentar alguns dos diálogos. Mas o saldo final é positivo. O espetáculo agrada.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Patrick Gomez)

Direção: Lorena Romanin
Texto: Lorena Romanin
Versão Brasileira: Caio Scot e Junio Duarte
Elenco: Caio Scot, Dida Camero e Manu Hashimoto
Assistência de Direção e Coreografia: Deisi Margarida
Cenografia: Dina Salem Levy
Assistência de Cenografia: Betina Monte-Mór
Cenotécnico: Camuflagem Cenografia
Desenho de Luz: Renato Machado
Assistência de iluminação: Maurício Fuziyama
Desenho de Som: Gabriel D’Angelo
Associado de desenho de som: Rodrigo Oliveira
Figurino e Visagismo: Júlia Marques
Arte gráfica: Roma Jo
Fotografia da arte: Raphael Narciso
Assessoria de imprensa: Meise Halabi
Supervisão Jurídica: Murilo Cortes
Operador de Luz: Bruno Aragão
Operador de Som: Luan Araujo
Direção de Produção: Isadora Krummenauer e Luana Manuel
Produção Executiva: Caio Scot e Junio Duarte
Idealização: Caio Scot e Junio Duarte
Realização: CAJU

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60. 70 min. Classificação: 12 ano. Até 14 de abril. Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

Comentários

comments