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Crítica: Curral Grande – Sede das Cias

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O coletivo Ponto Zero, formado na Bahia e estabelecido no Rio de Janeiro, estreou seu primeiro espetáculo, “Curral Grande”, há dois anos. Ele fez temporadas no Teatro Gonzaguinha e no Parque das Ruínas em 2014, e retornou à cidade neste mês, para uma curta temporada de três semanas na Sede das Cias, na Lapa. Já acabou. Mas o tema que a peça resgata – da “higienização social” promovida pelo governo do Ceará na década de 1930 – merecia ficar mais tempo em cartaz. Se, por um lado, o enredo é datado e local, revela-se atualíssimo e carioquíssimo, também.

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Com quatro atores em cena, o espetáculo é dividido em uma série de cenas curtas que configuram um painel de como funcionavam os “currais humanos”. Aconteceu em 1932: uma grave seca no interior do Ceará deixou 16 mil sertanejos em estado de miséria. Eram os chamados flagelados, em migrarão aos montes em busca de melhores condições de vida. O governo, no entanto, preocupou-se mais em manter intacta a imagem da capital, Fortaleza, higienizando a cidade e evitando que os flagelados chegassem lá. As vítimas da seca foram conduzidas para sete “campos de concentração”, onde permaneceram por cerca de um ano, tratadas como cidadãos de segunda linha, sem um mínimo de dignidade. Em outras palavras, um apartheid social.

Muita gente não conhece essa história, principalmente entre os cariocas, o que já torna a proposta do coletivo muito valiosa. Mas, especificamente no Rio, o tema ganha relevância. A cidade, como se sabe, passou por uma reforma urbana no século XX, sob o comando do prefeito Pereira Passos: para dar ao Centro os ares europeus, trabalhadores foram expulsos dos cortiços, destruídos, e tiveram que se mudar para o Morro da Providência. Foi quando se deu a formação das favelas, a versão carioca dos “campos de concentração”. Mais recentemente, a sociedade presencia outra forma de “higienização” elitista, com a reconfiguração das linhas de ônibus: redução da frota e encurtamento de trajetos que dificultam o acesso da Zona Norte e Zona Oeste à Zona Sul. Uma mudança imposta por quem não anda de ônibus. O texto da peça, escrito por Marcos Barbosa (de “Quase Nada”), não podia prever o problema do livre trânsito de 2016, mas se comunica muito bem com os conflitos rotineiros da cidade.

O espetáculo retrata majoritariamente a situação dos flagelados no Ceará. Mas há também outras manifestações, incluindo aqui a comunicação das radionovelas e do cinema mudo – cenas em que a interpretação do elenco e a direção de Eduardo Machado (de “Gastrono-mico”) ganham força e beleza. Um momento da peça, especificamente, retrata uma família da capital, bem posicionada, preparando para as festas de Carnaval, alheia à crise da seca que afetava milhares de conterrâneos. O contraste dessa mãe, preocupada com os comentários dos outros sobre o vestuário de sua filha, e o de outra personagem, tendo que dividir uma caneca de água com toda a família, sem saber como será o dia de amanhã, retrata o quadro de alienação voluntária das classes abastadas. Algo que também se comunica com a realidade carioca atual. Às vezes o riso vem com culpa. Muitas vezes não vem, porque só dói.

O texto e a direção de “Curral Grande” são os pontos altos de uma produção muito humilde em termos de elementos cênicos. A falta de recursos favorece a busca de soluções criativas. O cenário é enxuto, com uma estrutura de cubo (o curral), de uso versátil, e os figurinos se limitam a atender às necessidades mínimas da dramaturgia. O teatro de pesquisa do Coletivo Ponto Zero também se sobressai na sonoplastia, grande parte executada em cena pelos atores, que demonstram polivalência em tempo integral. Pelos personagens que interpresa, Brisa Rodrigues, particularmente, impressiona.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Marcos Barbosa
Direção: Eduardo Machado
Elenco: Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi, Carlos Darzé, Lucas Lacerda
Concepção Cenográfica: Eric Fuly
Ass. de Cenografia: Thiago Pessanha
Concepção de Figurino: Agamenon de Abreu
Desenho de Luz: Marcelo Mármora e Elton Pinheiro
Preparação Vocal: Luciana Lucena
Fotografia: Ricardo Borges
Arte Gráfica: Uriel de Souza
Realização e Produção: Coletivo Ponto Zero

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