Crítica

Crítica: O Caos Reina

“O Caos Reina” é o espetáculo de estreia da Dos Quintos Cia. Teatral, formada por ex-alunos da CAL. Ele parte de um argumento interesse: a inversão de ordem dos livros bíblicos “Gênesis” e “Apocalipse”, a partir de um olhar contemporâneo. A história acompanha uma família antes e depois da suposta dizimação da humanidade. Na primeira parte, um marido machista e extremamente religioso e sua esposa falsamente submissa vivem um conflito por conta de uma guerra que se aproxima. Ele acredita que foi designado por Deus para construir uma arca capaz de salvar seus filhos. Ela o acha louco, e teme pela segurança das crianças. Na segunda parte, os filhos – um garoto e uma garota – estão há muito tempo confinados em uma caverna, sem saber que fim levou o mundo do lado de fora. Só restam eles. A menina quer sair e ver a luz, incitada por uma peçonhenta, e o menino a reprime, para que se mantenham a salvos cumprindo “as regras”. Há também uma raposa, que fica na entrada da caverna, como uma guardiã.

(Foto: Divulgação)

O texto e a direção são de Pedru Maia. A peça trata da fé, da cegueira religiosa, do pecado, da curiosidade, da liberdade, da coerção, da igualdade de direitos e de incesto – porque, sem contato com outros seres humanos, os irmãos passam a se interessar sexualmente um pelo outro. O texto, no entanto, não consegue superar e evoluir suas boas ideias. A primeira parte, a dos pais, gira em círculos e a segunda, a dos filhos, é mal amarrada com um encerramento abrupto que tenta passar uma “moral da história”. Sobra texto no início e falta no final.

A montagem é muito simples em termos estéticos, mas a cenografia de Carlos Augusto Campos, com árvores estilizadas e limitada mobília, satisfaz. A iluminação de Júlio Caldeira parte de uma concepção que ora engloba ora exclui a plateia, e teve problemas pontuais na execução na sessão assistida. Os figurinos de Evelyn Cirne não ajudam a contar a história nem a localizar os personagens, em nenhum nível. A raposa parece o Wolverine. Ainda no que concerne à caracterização do elenco, as tatuagens da atriz Paula Furtado mereciam um cuidado da produção: são incoerentes com o contexto da personagem. Tratando ainda dos aspectos técnicos, a trilha sonora utiliza de vozes do elenco em off, em geral redundantes e, portanto, prescindíveis.

O elenco formado por Daniela Cruvinel, Eric Polly, Paula Furtado e Thiago Torres cumpre sua função. A encenação segue tendências do teatro contemporâneo e explora artifícios curiosos. Daniela Cruvinel, quando faz a mãe, tem atuação expressionista, que rapidamente é codificada como uma marca da personagem. Ela também aborda quase toda a plateia antes da peça começar, com uma mesma pergunta, e serve café para um espectador nas primeiras cenas. Cospe, esfarela pão, derrama café quente na mesa (nota-se o vapor subindo)… tudo isso desperta o público, ainda que pareça gratuito. A Dos Quintos Cia. Teatral obviamente precisa amadurecer suas ideias, mas já aponta inclinações atrativas.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica:

TEXTO E DIREÇÃO: Pedru Maia

ASSISTENTE DE DIREÇÃO: João Preto

ELENCO: Daniela Cruvinel, Eric Polly, Paula Furtado e Thiago Torres

DIREÇÃO DE MOVIMENTO: Sueli Guerra e Farley Matos

FIGURINO: Evelyn Cirne

CENOGRAFIA: Carlos Augusto Campos

ILUMINAÇÃO: Júlio Caldeira

TRILHA SONORA: Leandro Sács

OPERAÇÃO DE SOM: Gabriel Piedro

PROGRAMAÇÃO VISUAL: Felipe Macedo

ASSESSORIA DE IMPRENSA: Celso Serrão

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Tem Dendê Produções

PRODUTOR EXECUTIVO: Nicholas Bastos

PRODUÇÃO DOS QUINTOS CIA TEATRAL: Thiago Torres e Pedru Maia

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SERVIÇO: qua e qui, 19h30. R$ 30. Classificação: 14 anos. De 6 até 28 de junho. Teatro Gonzaguinha – Centro de Artes Calouste Gulbenkian – Rua Benedito Hipólito, 125 – Centro. Tel: 2224-5747.

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