Crítica: Diários do Abismo – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Diários do Abismo

Celebrando seus 40 anos de carreira, a atriz Maria Padilha (de “Escola do Escândalo”) está em cartaz com o monólogo “Diários do Abismo” no CCBB, no Centro. Dirigido por Sergio Módena (de “O Musical da Bossa Nova”), o espetáculo resgata a obra e a memória da escritora mineira Maura Lopes Cançado, que morreu em 1993 no ostracismo e cuja obra, limitada a dois livros, caiu no esquecimento. A peça, na verdade, é uma adaptação de Pedro Brício (de “Nu de Botas”) para “Hospício É Deus”, primeiro livro de Maura, no qual ela relata suas passagens por clínicas psiquiátricas e denuncia arbitrariedades e maus tratos dos médicos e enfermeiros. Maura sofria de problemas de saúde mental e teve dezenas de internações até a morte. Ela, inclusive, estrangulou até assassinar uma colega de internação, o que a afastou definitivamente da vida pública. Depois disso, nunca mais escreveu e publicou, mas essa parte da história é posterior aos fatos narrados na peça.

(Foto: Claudia Ribeiro)

No palco, Maria Padilha encarna a personagem real e suas palavras de dentro do hospício nos anos 1950. Com atuação consistente, a atriz conduz a plateia por cerca de uma hora, sem grandes recursos cênicos. Na maior parte do tempo, seu figurino (assinado por Marcelo Pies) é um uniforme de interna. O cenário (de André Cortez), por sua vez, faz alusão às camas hospitalares e às janelas, que aprisionam e apresentam a liberdade. A cenografia pouco impressionante não ocupa muito o espaço, priorizando a amplitude dos pensamentos lúcidos de uma transtornada. Projeções (de Batman Zavareze) de palavras e frases e a trilha sonora (de Marcelo H, com composição original) preenchem os vazios em momentos especiais e grandiosos. Existem também projeções de datas, que indicam a passagem de tempo, mas arrastam o andamento das cenas. Já a iluminação (de Paulo César Medeiros) ora abre e ora fecha a cena, sublinhando o discurso de Maura, que se dirige a si mesma em um diário, sem deixar de destinar o relato também ao leitor – e, no caso, ao espectador.

De maneira confessional, Maura Lopes Cançado relata sua rotina, suas angústias, suas impressões do sistema manicomial e sua sensação de solidão, além de lembrar um pouco de seu passado. A personagem, na pele de Padilha, explica ter sofrido de ataques epiléticos na infância e na adolescência, antes do diagnóstico de esquizofrenia e psicose. Ela também revela ter sofrido abusos sexuais ainda criança e conta como se deu seu casamento aos 14 anos, contra vontade de seu pai. O tom não é de vitimismo. Padilha incorpora as palavras da escritora com sua indignação e rebeldia. Detalhes da marcação da direção de Sergio Módena também afastam a personagem da autopiedade. Maria Padilha investe em movimentação inquieta, escalando cenário, deitando-se no chão, indo de lá para cá, impedindo qualquer risco de monotonia. O resultado é mesmo um espetáculo interessante.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Obra original: Maria Lopes Cançado
Dramaturgia: Pedro Brício
Elenco: Maria Padilha
Direção: Sergio Módena
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenário: André Cortez
Figurinos: Marcelo Pies
Projeções: Batman Zavareze
Trilha sonora e composição original: Marcelo H
Direção de produção: Oficina Teatral
Realização: Cena Dois Produções Artísticas
Assessoria de Imprensa: Barata Produções

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SERVIÇO: qui a seg, 19h30. R$ 30. 60 min. Classificação: 12 anos. Até 5 de novembro. CCBB – Rua Primeira de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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