Crítica: Doce Pássaro da Juventude – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Doce Pássaro da Juventude

“Doce Pássaro da Juventude”, ou no inglês “Sweet Bird of Youth”, é uma das dez primeiras peças de Tennessee Williams adaptadas para o cinema. O filme estreou em 1962 – três anos após a peça – com direção de Richard Brooks (vencedor do Oscar por “Gata em Teto de Zinco Quente”). Os papéis principais eram de Paul Newman e Geraldine Page, respectivamente com os personagens Chance Wayne e Alexandra Del Largo, que eles já haviam feito na Broadway: a primeira montagem ficou cerca de um ano em cartaz. Agora, uma versão brasileira pode ser vista no Rio de Janeiro, com Vera Fischer (de “Relações Aparentes”) e Pierre Baitelli (de “Enterro dos Ossos”) como protagonistas, dirigidos por Gilberto Gawronski (de “Ato de Comunhão”).

(Foto: Reprodução)

A trama acontece no sul dos Estados Unidos, na cidade-natal de Chance Wayne, um cara de ego inflado, e começa no quarto de um hotel. Ele está hospedado com Alexandra Del Lago, uma atriz que foi uma grande estrela de Hollywood mas amarga o peso da idade enquanto tenta fazer seu retorno ao cinema e se enche de bebida. A chegada dos dois à cidade causa rebuliço: logo fica claro que ele é uma figura indesejada. Aos poucos, revelam-se as circunstâncias originárias de sua má fama e de sua partida. O texto de Tennesse Williams também mostra o surgimento do Ku Klux Klan, relações de poder e uma tremenda hipocrisia social.

Como o título indica, a juventude é o ponto cerne da dramaturgia. Mas é sua ausência que lhe torna tão importante. Alexandra, por razões óbvias, chateia-se com seu envelhecimento: a carreira demonstra-se injusta com quem perde a beleza e o frescor juvenil. Chance Wayne, por sua vez, é bastante jovem, comparado a ela, mas o tempo também já o desgastou em vários aspectos, embora ele viva em negação. De qualquer maneira, os dois têm em comum o fato de que o presente é ditado por aspirações e convicções juvenis. São dois patéticos, cada um por suas razões.

A personagem de Alexandra, neste sentido, cai como uma luva para Vera Fischer. Ela também é uma atriz que fez enorme sucesso na juventude e hoje em dia, aos 65, tem que lidar com o peso e as injustiças da idade. Em muitas cenas, o que Alexandra diz cai como uma luva para o que se entende e se imagina de Vera Fischer. Seria o papel perfeito para ela (e acredito que realmente é!), caso seu desempenho não estivesse abaixo de insatisfatório. Vera ora declama ora atua de forma histérica e, em nenhum dos casos, funciona. Sempre deixa perceptível a invocação de falas em sua memória. E não é uma exclusividade dela. A direção de Gilberto Gawronski prejudica bastante a peça de Tennessee Williams, em suma pelo trabalho do elenco, por vezes tentando ser engraçado em um drama. É uma encenação realista, mas com interpretações que não condizem – o que vale também Pierre Baitelli e Ivone Hoffman (de “Arsênico & Alfazema”), artistas de talento reconhecido. São os responsáveis por papéis secundários que impressionam positivamente, como Dennis Pinheiro (de “Yank – O Musical”) e Renato Krueger (de “Zoológicos”), mais convincentes. O elenco ainda é completado por Mario Borges (de “Ivanov”), Bruno Dubeux (de “O Idiota”), Clara Garcia (de “A Garota do Adeus”), Juliana Boller (de “Vanya e Sonia e Masha e Spike”), Pedro Garcia Netto (de “Nem Um Dia se Passa Sem Notícias Sua”), em um raro caso de muitos atores no palco – um mérito, sem dúvidas.

É uma produção bem digna. Os figurinos (de Marcelo Marques) invocam os anos 1950, época em que a história é ambientada, e acentuam relações de hierarquia social. O cenário (de Mina Quental), realmente interessante, utiliza a mesma plataforma metaforicamente para a cama do quarto de hotel e para um palanque. Pilastras também marcam a cenografia grandiosa e bastante teatral, mas que, infelizmente, desfavorece alguns ângulos da plateia. A luz de Paulo César Medeiros ameniza espaços vazios. Além disso, a montagem conta com trilha sonora original criada por Alexandre Elias, capaz de engrandecer alguns momentos do espetáculo. “O Doce Pássaro da Juventude” apresenta uma estrutura sofisticada. Há de acertar as arestas.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Reprodução)

Ficha técnica
Texto: Tennessee Williams
Tradução: Clara Carvalho
Adaptação: Marcos Daud
Direção: Gilberto Gawronski
Elenco: Vera Fischer, Pierre Baitelli, Mario Borges, Ivone Hoffmann, Bruno Dubeux, Clara Garcia, Dennis Pinheiro, Juliana Boller, Pedro Garcia Netto, Renato Krueger
Cenário: Mina Quental
Figurinos: Marcelo Marques
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha sonora original: Alexandre Elias
Fotos estúdio: Marcelo Faustini
Produção Executiva: Joana D´Aguiar
Produção Geral: Luciano Borges e Edson Fieschi
Realização: Borges & Fieschi Produções Culturais
Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 60 (na primeira semana: R$ 40). 110 min. Até 26 de novembro. Teatro Municipal Carlos Gomes – Rua Pedro 1º, 4 – Centro. Tel: 2215-0556.

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