Crítica: Dogville – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Dogville

Pretensioso para uns, obra-prima para outros, “Dogville”, o filme de Lars von Trier, estreou em 2003 no Festival de Cannes e, exatos 15 anos depois, ganha versão teatral no Brasil sob os cuidados do premiado diretor Zé Henrique de Paula, do Núcleo Experimental, de São Paulo. O grande barato do filme é seu formato. Dividido em nove capítulos, ele explora a linguagem teatral em um cenário único e sem paredes, com marcações no chão, como um palco. É forte a influência de Brecht sobre a quebra de ilusão cênica. O resultado é quase como teatro filmado. A montagem teatral, por sua vez, aposta no caminho oposto, com uma encenação híbrida, que explora a linguagem cinematográfica e se utiliza de vídeos pré-gravados e projeções ao vivo, com rostos em close. O que Lars enxugou ao mínimo necessário no cinema, Zé adiciona – às vezes excessivamente e com efeitos discutíveis – no teatro.

(Foto: Renato Mangolin)

A protagonista da história é Grace, papel que no cinema foi de Nicole Kidman, na época recém-premiada no Oscar. No teatro, é de Mel Lisboa (de “Boca de Ouro”), com ótimo desempenho, mas às vezes exposta nos closes das projeções que explicitam a ausência de ações ou expressões significativas. A câmera, não vista pelo público, parece um elemento intruso: o elenco atua à revelia do dispositivo. Em alguns momentos, também, a atriz está no canto direito do palco, mas seu rosto está projetado no canto esquerdo, e o público é forçado a escolher a que direcionar sua atenção: o corpo físico ou o virtual? Naturalmente, a imagem grande atrai. É uma questão. Ao assistir à imagem no telão, a adaptação teatral não difere do efeito da versão original cinematográfica – a filmagem no palco.

“Dogville” é o nome da cidade fictícia onde se passa a história: um vilarejo cercado de montanhas, no fim de uma estrada, onde todos os moradores se conhecem e vivem humildemente alheios às notícias do mundo. Grace chega lá se escondendo de gangsteres e é socorrida por Tom, escritor que nunca escreveu nada, metido a filósofo, mas que convence o povoado a abrigá-la. Em troca do esconderijo, Grace oferece seu trabalho braçal a todos os habitantes – descritos pelo narrador como pessoas bondosas. De início, eles rejeitam a oferta, mas pouco a pouco aceitam e Grace se torna parte da rotina de cada um deles. Conforme a polícia passa a procurá-la e espalhar cartazes com sua foto, os moradores se sentem mais ameaçados e o “preço” da estadia é cobrado: Grace, em bom português, passa a ser escravizada por todas as famílias, estuprada por todos os homens e impedida de ir embora. Dessa forma, o filme e a peça refletem sobre a moral humana e valores éticos a partir do gatilho de tirar proveito de uma pessoa em situação vulnerável. O texto é ótimo e a trama, envolvente. O roteiro do filme tem inspiração na peça de Friedrich Dürrenmatt “A Visita da Velha Senhora”, na qual os valores morais de uma pequena sociedade são colocados em cheque diante da chance de enriquecer ao custo da morte de um habitante. Em “Dogville”, não se trata de enriquecer, mas de estabelecer relações de dominação. A maneira como “pessoas bondosas” revelam sua inclinação à crueldade é intrigante.

(Foto: Renato Mangolin)

O elenco é grande: são 16 atores ao todo. Rodrigo Caetano (de “1984”) interpreta Tom, em versão que se perde ao tentar equilibrar o lunatismo e o apetite sexual do personagem. Fábio Assunção, em seu primeiro trabalho nos palcos desde desde 2011, desempenha Chuck, o primeiro personagem a travar um confronto com Grace. É um papel importante na trama, porque é o único que não se importa em dizer que não gosta dela, desde o início. Fábio atua satisfatoriamente. O elenco secundário é majestoso e inclui atuações consistentes de Bianca Byington (de “Um Dia Como os Outros”), Blota Filho (de “Chá das 5”), Selma Egrei (de “Marte, Você Está Aí?”), Munir Pedrosa (de “Hotel Mariana”), Marcelo Villas Boas (de “O Capote”) e Anna Toledo (de “Vingança”). Ainda completam o time Gustavo Trestini (de “Doze Homens e uma Sentença”), Fernanda Thurann (de “Perto do Coração Selvagem”), Thalles Cabral (de “Vincent River”), Chris Couto (de “A Milionária”), Dudu Ejchel (de “A Noviça Rebelde”), Fernanda Couto (de “Nara”) e Eric Lenate (de “Fim de Partida”), sobre quem detalho no próximo parágrafo.

Esse é um espetáculo longo, porém menos que o filme. O tempo, como recurso, é bem utilizado. O prólogo e o início da história são mais arrastados, mas depois a encenação ganha ritmo. A narração, presente no filme, é mantida no espetáculo, mas não em voz desmaterializada de corpo. O ator Eric Lenate narra a história do palco, em atuação lúdica, o que traz outro elemento novo à versão teatral. No filme, o narrador não tem cara. No teatro, tem cara, corpo e figurino pomposo (todo o vestuário é assinado por João Pimenta, em ótimo trabalho de caracterização, contrastando a cor da protagonista com o cinza dos outros personagens), o que cria um vínculo mais estreito com a plateia. Contudo, algumas partes da trama perdem força no teatro – justamente as que tinham tudo para ser potencializadas, pela relação de proximidade de público e elenco, como os estupros sofridos por Grace. A direção os torna visualmente menos agressivos. Lars é mais cru e violento.

Fora a tela e as projeções, a cenografia do espetáculo (criação de Bruno Anselmo) em muito lembra a do filme. Quem assistiu à obra de Lars von Trier reconhece facilmente a ambientação ao entrar no teatro (as cortinas já estão abertas). A iluminação de Fran Barros cumpre as necessidades impostas pelos vídeos no telão. A trilha sonora (de Fernanda Maia), por fim, é grandiosa e coroa cenas.

Com alguns poréns, “Dogville” é, sem dúvida, um acontecimento que merece ser visto e pensado.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Renato Mangolin)

Ficha técnica
Autor: Lars Von Trier.
Direção: Zé Henrique de Paula.
Elenco: Mel Lisboa (Grace), Eric Lenate (Narrador), Fábio Assunção (Chuck), Bianca Byington (vera), Rodrigo Caetano (Tom Edison), Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thalles Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas Pai), Munir Pedrosa (Jack McKay), Selma Egrei Ma Ginger), Fernanda Couto (Glória) e Dudu Ejchel (Jason).
Idealização: Felipe Lima.
Preparação de elenco: Inês Aranha.
Tradução: Davi Tápias.
Assistência de direção: Felipe Ramos.
Cenário: Bruno Anselmo.
Iluminação: Fran Barros.
Figurino: João Pimenta.
Visagismo: Wanderley Nunes.
Trilha sonora original: Fernanda Maia.
Direção audiovisual: Laerte Késsimos.
Realização: Sevenx Produções Artísticas.
Criação vídeo mapping: VJ Alexandre Gonzalez.
Design gráfico e criação: Carlos Nunes.
Programação visual / finalização: Sandra Tami.
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli, Renato Fernandes.
Produção e administração: Ana Paula Abreu e Renata Blasi.
Produção executiva: Glaucia Fonseca, Dani D’Agostino – Sansouci Produções.
Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais.
Realização: Brisa Filmes e Sevenx Produções Artísticas.

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 20h. R$ 80. Classificação: 16 anos. De 2 de novembro até 16 de dezembro. Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2294-1096.

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