Crítica

Crítica: Dois Amores e um Bicho

“Dois Amores e um Bicho”, peça do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, está com uma nova montagem brasileira, dirigida por Danielle Martins de Farias (de “Fim de Partida”), em cartaz no Sesc Copacabana até 30 de julho. É a segunda vez que o texto é levado aos palcos cariocas: Guilherme Delgado (de “O Sósia”) assinou outra montagem em 2014, ou seja, há pouco tempo atrás. O espetáculo gira em torno da história de um pai de família que, tomado por um ataque de fúria, mata o próprio cachorro a pontapés por flagrá-lo fazendo sexo com o outro cão macho da casa, tido como menor e indefeso. Um crime de motivação homofóbica.

(Foto: Rodrigo Castro)

A história se passa em dois tempos de uma família formada por pai, mãe e filha: no presente e no passado, há 15 anos, quando ocorreu o ato de crueldade com o animal. Na época, a filha tinha nove anos de idade. No presente, ela é veterinária de um zoológico, onde grande parte da trama se desenrola. A memória do assassinato do cão é trazida de volta ali, quando os pais visitam a filha no trabalho e descobrem que o orogangotango está preso em uma jaula especial, de castigo, por ter molestado outro macaco. Com isso, a filha toma coragem de indagar o pai sobre o contexto de sua prisão no passado – o que desestabiliza o núcleo familiar totalmente.

Pensar a homossexualidade como um aspecto natural, presente na vida animal, parece um bom pontapé para a peça tratar do tema, mas a verdade é que a proposta não evolui. O texto de Ott tem tantas ramificações que se torna complicado entender sobre o que ele quer tratar. Os diálogos frisam diversas vezes que, no dia do assassinato, ocorrera um atentato a uma escola, com cerca de 300 mortos. Com a morte violenta do cão, no entanto, o noticiário deixou o caso de lado e focou no pai-assassino, que rendia mais interesse e comoção. É uma crítica à mídia, então? Uma análise da sociedade do espetáculo? Uma reflexão sobre as relações humanas, em desvantagem com a afeição pelos animais? E tem mais. Simultaneamente, os bichos do zoológico começam a morrer em efeito-dominó por causa de um vírus liberado intencionalmente por um frequentador. Terrorismo? Intolerância? Em dado momento, é dito que o protagonista sofre de ataques de pânico. Homofobia -> fobia -> medo -> pânico. Em um panorama amplo, as informações dialogam, mas não apontam um norte. É um tanto enfadonho se perguntar constantemente o que a peça está querendo dizer, afinal.

A montagem de Danielle Martins de Farias não colabora neste sentido. O cenário, de André Sanches, formado por caixas empilhadas e gaiolas suspensas (simbolizando tanto a casa quanto o zoológico), em determinado momento destaca um cartaz com as informações das mortes no atentato à escola. Número de crianças, adolescentes, professores, outros trabalhadores, enfim. Com o desenho de luz sombrio de Renato Machado, o cartaz estatístico domina as atenções da plateia. É uma curva na história: a direção dá destaque a algo secundário na dramaturgia, desviando a atenção. A direção de atores tampouco é satisfatória. Lucas Gouvêa (de “”), que faz o pai, tem atuação histérica, gritada, levando o personagem para o campo do transtorno psicológico. Adriana Seiffert (de “”), a mãe, está apática e Julie Wein (de “”), a filha, justifica sua presença mais pela execução da trilha sonora ao vivo do que por qualquer outro aspecto. Os instrumentos tocados por ela, de fato, engrandecem as cenas. A direção musical é de Felipe Habib.

Os figurinos de Raquel Theo não trazem grandes significados à primeira vista. O que se torna mais interessante no espetáculo é o diálogo entre cenário e iluminação em determinadas cenas, com formação de silhuetas de animais do zoológico para compor as cenas. São sempre surpresas lúdicas bem vindas. No mais, “Dois Amores e um Bicho”, a meu ver, fala, fala, fala e pouco diz.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Rodrigo Castro)

Ficha técnica
Dramaturgia: Gustavo Ott
Direção: Danielle Martins de Farias
Elenco: Adriana Seiffert, José Karini, Julie Wein, Lucas Gouvêa
Direção musical: Felipe Habib
Movimento: Toni Rodrigues
Iluminação: Renato Machado
Cenário: André Sanches
Figurino: Raquel Theo
Design Gráfico: Marcus Moraes
Fotografia: Rodrigo Castro
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Produção e realização: Notórias Produções

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h; dom, 18h. R$ 25 (ou R$ 6 para associados Sesc). 80 min. Classificação: 14 anos. Até 30 de julho. Sesc Copacabana – Sala Multiuso – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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