Crítica: Dona Ivone Laura – Um Sorriso Negro – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Dona Ivone Laura – Um Sorriso Negro

O musical “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro” virou notícia muito antes de sua estreia, por conta da escalação de Fabiana Cozza para o papel principal. Considerada “clara demais” para fazer Dona Ivone Lara, a cantora se viu no meio de um debate público sobre representatividade e clareamento de narrativas negras. Acabou renunciando ao trabalho. O espetáculo que se vê no Teatro Carlos Gomes, com dramaturgia e direção artística de Elísio Lopes Jr. e direção geral de Jô Santana, felizmente supera essa questão e não deixa margem para críticas deste tipo. Os negros são maioria e condutores da história.

(Foto: Divulgação)

São 24 atores em cena para dar vida à história da primeira dama do samba. Três atrizes se revezam com competência no papel de Dona Ivone Lara: Dandara Mariana (de “Garrincha”) a representa na infância, Heloisa Jorge (de “O Jornal – The Rolling Stone”) na fase adulta, e Fernanda Jacob (de “Pentes”) na maturidade. Para além das habilidades vocais, elas conquistam a plateia pela dramaticidade de suas cenas, entregues com muita naturalidade. Dandara, com menos oportunidades, sintetiza a inocência e a vivência das primeiras discriminações no colégio, Heloisa imprime a garra e o inconformismo da artista e da mulher, e Fernanda valoriza a amabilidade e a persistência da retratada. Um problema é que Heloisa, protagonista de todo o primeiro ato, faz outros pequenos personagens no segundo ato. Dissociá-la de Ivone não é fácil, sobretudo porque ela ainda aparece como a personagem em flashbacks. O mesmo acontece com o ator Cesar Mello (de “O Rei Leão”), que interpreta o marido de Ivone, Oscar Costa, durante grande parte do espetáculo e, de repente, aparece de peruca fazendo outro personagem. De início, você pensa que Oscar adotou um novo visual, simplesmente. Decisão infeliz dos diretores, sobretudo porque há um grande elenco disponível para esse revezamento. Destaque para os talentos de Isabel Fillardis (de “Lapinha”), Larissa Noel (de “Cartola – O Mundo É um Moinho”) e Rose Lima (de “A Menina Edith e a Velha Sentada”) que se destacam em pequenas aparições.

O musical inusitadamente começa com Ivone adulta, dentro de um manicômio. Ela era enfermeira – profissão que exerceu paralelamente à música até se aposentar. A cena representa sua véspera de férias, quando vê uma paciente saltar pela janela acreditando ter asas. No dia seguinte, já é Carnaval – sua paixão. Ivone Lara, antes de ser “Dona”, compunha sambas em segredo para a escola Prazer da Serrinha: por conta dos preconceitos da época, era inaceitável um samba escrito por uma mulher. Ela escrevia e seu primo levava a fama, assinando as letras como se fossem dele. Foi na Império Serrano que ela, já casada e mãe de dois filhos, decidiu assumir-se como compositora: uma mulher na ala dos compositores foi algo inédito no Carnaval carioca. Fez nome assim e compôs para grandes artistas. Mas só mais tarde aceitou os convites para cantar, fazer shows e gravar álbuns. Um dos motivos da resistência era o marido, não exatamente simpatizante de sua dedicação ao samba. Quando ela lançou seu primeiro disco, já tinha mais de 50 anos de idade.

A partir da cena do manicômio, o espetáculo segue ordem cronológica – com alguns flashbacks. É um musical rico de informações, transmitidas de maneira palatável. O espectador realmente sai do teatro sabendo muito da biografia de Ivone Lara – órfã de pai e mãe ainda garota, feminista em todas suas ações, guerreira e responsável por sustentar a família sozinha mesmo antes da morte do marido. São várias as curiosidades retratadas no espetáculo. Por exemplo, foi ela quem pediu o marido em casamento – algo que ainda é considerado “moderno” nos dias de hoje, imagine no século XX. A dramaturgia de Elísio Lopes Jr. é boa, enriquecida pela pesquisa de Nilcemar Nogueira e Desirée Reis e por assertivas e reflexões contemporâneas acerca de feminismo e negritude.

As canções, no geral, aparecem mais como “show” e menos como falas, ainda que possam representar sentimentos dos personagens. Há poucos solos e nenhum diálogo musicado. Falta criatividade neste sentido, mas os sambas estão bem amarrados à engrenagem cênica. Funciona. A direção musical de Rildo Hora e Jarbas Bittencourt mantém características elementares das músicas famosas. As coreografias de José Carlos Arandiba Zebrinha valorizam a cultura popular e trazem originalidade para o universo do teatro musical, sem mimese de fórmulas internacionais.

A cenografia de Paula de Paoli assume diferentes caminhos, com elementos – mais ou menos realistas – que entram e saem ao longo do espetáculo para atender as diversas demandas dramatúrgicas. A qualidade do material, contudo, é insatisfatória, com parte do cenário quebrando na mão de um dos atores, na sessão assistida. A iluminação de Walmyr Ferreira, com pequenas falhas de operação, em geral ajuda. Os figurinos de Carol Lobato – muitos – em sua maioria investem na simplicidade, reforçando a simplicidade de uma vida comum, majoritariamente afastada da fama.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Idealização e direção geral – Jô Santana
Dramaturgia e direção artística – Elísio Lopes Jr.
Elenco – Fernanda Jacob, Heloisa Jorge, Dandara Mariana, André Lara, André Muato, Bruno Quixotte, Cesar Mello, Guilherme Silva, Hugo Germano, Isabel Fillardis, Diogo Lopes Filho, Felipe Adetokunbo, Felipe Gomes Moreira, Jeff Pereira, Larissa Noel, Lucas Leto, Matheus Paiva, Fernanda Cascardo, Fernanda Jacob, Flavia Souza, Francisco Salgado, Nara Couto, Olivia Torres, Rose Lima e Sylvia Nazareth.
Pesquisa – Nilcemar Nogueira e Desirée Reis
Direção musical – Rildo Hora
Co-direção musical e trilha original – Jarbas Bittencourt
Regência, preparação vocal e arranjos – Guilherme Terra
Direção coreográfica – José Carlos Arandiba Zebrinha
Cenografia – Paula de Paoli
Figurino – Carol Lobato
Visagismo – Beto Carramanhos
Desenho de luz – Walmyr Ferreira
Direção assistente / residente – Ricardo Gamba
Assistência de coreografia – Arismar Santos
Assistência de iluminação – Rommel Equer
Design de som – Bruno Pinho
Design gráfico – Adriana Campos
Fotografia artística -Priscila Prade
Marketing cultural – Gheu Tibério
Assessoria de imprensa – Mauricio Aires e Rogério Alves
Administração de mídias sociais – Leticia Cordeiro
Fotografia still / making of – J. Vitorino
Direção financeira – Dani Correia
Direção de produção – Carmem Oliveira
Direçao técnica – Ricardo Santana
Realização – Fato Produções Artísticas

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h; dom, 17h. R$ 40 (balcão) e R$ 80 (plateia). Até 25 de novembro. Teatro Municipal Carlos Gomes – Praça Tiradentes, s/n – Centro. Tel: 2224-36022.

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