Especial Festival de Curitiba

Crítica: Doze Flores Amarelas, a ópera-rock dos Titãs

CURITIBA – Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto, os remanescentes da banda Titãs, botam um pézinho no teatro com seu novo trabalho, “Doze Flores Amarelas”, uma ópera rock com 25 canções. Além do álbum, que ainda será lançado, o trio concebeu um espetáculo para os palcos com o repertório novo: o resultado é algo que fica no meio do caminho entre um show e um musical. Para o passo ousado na carreira, com mais de 30 anos de trajetória, um Grammy Latino na conta e momentos históricos como a abertura do show dos Rolling Stones na Praia de Copacabana, os Titãs se uniram a nomes renomados. Marcelo Rubens Paiva (de “E Aí, Comeu?”) colaborou no argumento, Hugo Possolo (do grupo Parlapatões) no argumento e na direção, e Otavio Juliano (diretor do documentário “Sepultura Endurance”) na direção. Além deles, há Rita Lee na narração, e Beto Lee e Mario Fabre como músicos de apoio.

(Foto: Annelize Tozetto)

Uma ópera rock é uma evolução do álbum conceitual, unindo as músicas em um enredo único. Exemplos são “Tommy” (1969) do The Who, “Jesus Christ Superstar” (1970) de Andrew LLoyd Webber e Tim Rice, e “American Idiot” (2004) do Green Day – esses dois últimos até viraram musicais na Broadway depois. Todos são citados pelos Titãs como referências. A diferença de uma ópera rock para uma ópera tradicional é que, como se pôde ver, é comum que os próprios compositores a apresentem, ao invés de cantores e cantores com timbres específicos e classificados. Além disso, uma ópera rock não visa necessariamente o palco: pode ficar apenas na gravação do álbum.

“Doze Flores Amarelas” foi mostrado ao público pela primeira vez no Festival de Teatro de Curitiba, em um ensaio aberto e uma pré-estreia no famoso Teatro Guaíra. Está com sua grande estreia marcada para 12 de abril no Sesc Pinheiros, em São Paulo, antes de seguir em turnê: apresentações no Rio de Janeiro são previstas, mas ainda não tiveram suas datas divulgadas. Sobre o que trata a ópera rock? Assédio, abuso sexual e violência contra a mulher, basicamente. Na história, três amigas – Maria A, Maria B e Maria C – vivem episódios traumáticos durante uma festa com caras conhecidos. O roteiro de canções, entremeado por pouquíssimas falas e uma narração em geral dispensável e redundante, é dividido em três atos: no primeiro, são apresentados as jovens, o aplicativo de celular “Facilitador”, que elas usam para tudo, a festa e a reviravolta; no segundo, mostra-se como cada personagem está lidando com o que aconteceu e como a Internet pode ser tóxica; no terceiro e último ato, é a hora da vingança. O fio narrativo é muito frágil e superficial, porque perde o foco e desvia para outros temas sem conseguir dar conta de todos: drogas, falta de comunicação familiar, haters, macumba online, religião… A ópera rock ganharia mais se perdesse quase uma dezena de canções que só poluem a história. Toda a questão com o app é supérflua, por exemplo. Faz-se uma crítica rasa ao uso das tecnologias digitais, em meio a letras densas sobre estupro.

(Foto: Annelize Tozetto)

A apresentação dramatizada – com três atrizes-cantoras, Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yás Werneck – ajuda a amarrar os fios soltos da lista de músicas, porém traz seus próprios problemas. O cenário criado por Hugo Possolo, Otavio Juliano e Luciana Ferraz, e o design de luz de Guilherme Bonfanti são típicas estruturas de um show. Os figurinos (de Renato Paiutto) parecem pedir para não serem levados a sério, embora o tema seja seríssimo. O que traz teatralidade é o enorme telão central, que na verdade é um intercâmbio com o cinema e a Internet, com projeções de minúcias da história, e a atuação do trio feminino. Eis aqui o grande problema: Corina, Cyntia e Yás são as três Marias, mas têm condição de papagaio de pirata na encenação, orbitando os roqueiros, quase sempre atrás deles. Elas raramente cantam – apenas em pontuais concessões da banda – e sempre parece que seus microfones estão mais baixos que os de Tony, Branco e Sérgio. Mal iluminadas também. Fora isso, é imperdoável Sérgio Britto cantar letras de eu-lírico feminino como “Me Estuprem” (que diz ironicamente “eu sou mulher, me estuprem”) e “Eu Sou Maria”. Beira o grotesco. As personagens estão ali no palco. Essas são as falas delas! Ao misturar concerto e teatro de maneira inconsistente, erra-se em ambos. A direção tinha que ter sido mais cuidadosa em como solucionar cenicamente a apresentação dessas letras. Compreendo que esse seja um projeto dos Titãs, mas artisticamente não funciona bem e politicamente não é mais aceitável que homens queiram o protagonismo de pautas femininas. Aderir a luta é ótimo, mas sempre ao lado ou atrás. Nunca na frente. Em “Doze Flores Amarelas”, os Titãs simplesmente não abrem mão do protagonismo e assumem personagens femininas, em uma pauta feminina, com atitude machista: falando e cantando pelas mulheres, que estão ali, em caráter de figuração de luxo. Já é questionável não haver presença feminina no time criativo de dramaturgia e direção, mas usurpar a voz das personagens (que estão no palco) acaba sendo demais. Por isso digo que, ao mesmo tempo que a encenação junta pontos da narrativa das músicas, ela implica em outras questões – mais graves.

Assisti ao espetáculo no ensaio aberto, que teve uma única e compreensível interrupção, com erros técnicos a serem ajustados. A transição entre as músicas é bastante problemática – mais uma vez por não se firmar nem no âmbito do show tampouco no de espetáculo teatral. Quero dizer, pausar por segundos, apagar as luzes, ajeitar instrumentos e começar as músicas com a marcação da bateria é totalmente aceitável no concerto de uma ópera-rock. Em uma dramatização, não exatamente: as personagens estão congeladas, comprometendo a credibilidade. Como as músicas criadas para “Doze Flores Amarelas” não são exatamente contagiantes ou memoráveis e o fio narrativo tampouco é envolvente, essa questão da transição colabora na letargia. O teatro estava cheio e vi poucas pessoas saírem durante a apresentação, mas os aplausos eram meramente cordiais. O homem do meu lado direito cochilou. O homem do meu lado esquerdo não voltou depois do intervalo. Quem ficou para a segunda parte ouviu as melhores músicas, “Doze Flores Amarelas” e “Réquiem”.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Annelize Tozetto)

Ficha técnica
Musicas – Titãs
Direção Artística – Branco Mello, Sergio Britto e Tony Bellotto
Argumento – Branco Mello, Sergio Britto, Tony Bellotto, Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva
Libreto – Hugo Possolo
Direção do espetáculo e cenário – Hugo Possolo e Otavio Juliano
Elenco: Branco Mello, Sergio Britto, Tony Bellotto, Beto Lee, Mario Fabre, Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck
Produção Musical – Rafael Ramos
Desenho de luz – Guilherme Bonfanti
Design e Criação de vídeos – Luciana Ferraz
Figurinos – Renato Paiutto
Coreografia – Olivia Branco
Direção de Arte/ Design Gráfico – Juliano Seganti
Assessoria de Imprensa – Perfexx
Produção Executiva – Ricardo Moreira e Ricardo Mateus
Coordenação de produção – Deyse Simões
Coordenação geral do projeto – Angela Figueiredo
Realização – TITÃS Empreendimentos

*O crítico viajou a convite do Festival de Curitiba.

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