Crítica

Crítica: E Se Eu Não Te Amar Amanhã?

Marcando a estreia da cineasta Sandra Werneck no teatro, o espetáculo “E Se Eu Não Te Amar Amanhã?” propõe uma brincadeira entre realidade e ficção – ou melhor, entre ficção e ficção dentro da ficção. Um exemplo: na cena de abertura, a atriz Luana Piovani (de “Mania de Explicação”) aparece de pé no palco declamando sua fala até que, de repente, ela solta um palavrão e reclama que sempre esquece essa parte. Tira uma folha do bolso, lê o texto e continua: sua personagem é uma atriz de novela, memorizando suas próximas cenas. Interessante. Ao longo de toda a encenação, o público se perguntará se o que vê realmente está acontecendo ou é outro “truque” para pegá-lo. Spoiler: haverá um bocado deles.

(Foto: Divulgação)

A peça, escrita por encomenda por Julia Spadaccini (de “A Porta da Frente”), acompanha o fim do relacionamento de quatro anos de uma atriz e um escritor. Eles brigam, ele vai embora, não liga mais, ela também não liga, e cada um enfrenta o término à sua maneira – ambos com o apoio de um amigo do casal, que passeia entre os apartamentos de um e de outro. No decorrer da história, o escritor se empenha em desenvolver o roteiro de um filme, e é quando as cenas começam a confundir-se, sem que a plateia tenha precisão do que é vida e o que é rascunho de obra. A estrutura da dramaturgia e do roteiro se misturam. “E Se Eu Não Te Amar Amanhã?” é vendida como comédia, ou ainda comédia romântica, mas não vinga como tal. Muitas piadinhas nem funcionam. O que há de humor e de engraçado não justifica tal rótulo. Há bastante drama, na verdade. O resultado é um espetáculo muito reflexivo que, como o título, não traz respostas, mas perguntas, em bons diálogos. Ao fim, pareceu-me um tanto pretensioso, e superficial ao ficar no meio do caminho entre a tal comédia, o drama e a experimentação contemporânea.

Diretora de filmes como “Pequeno Dicionário Amoroso” (1997), “Cazuza: O Tempo Não Para” (2004) e “Sonhos Roubados” (2009), Sandra Werneck propôs uma montagem que flertasse com o cinema, porém, assim como parte do texto, a proposta não se conclui. A cenografia, de Aurora dos Campos, coloca os dois apartamentos mesclados em cena, com os atores cruzando-se em espaços distintos. O cenário propositalmente tem cara de cenário, de set de filmagem. O público vê contrarregras, refletores, araras e tudo o mais. A questão é que nada disso acrescenta à encenação: são elementos à parte, sobras, sem qualquer afetação na plateia. Os figurinos de Kika Lopes, em geral desprendidos de vaidade para os personagens que curtem a fossa, também entram nesse jogo: Luana Piovani tem uma troca de roupa no centro do palco, com direito a peruca, para mudar de personagem. Seria brechtiano se não fosse coreografado, tornando-se uma cena sensual. Werneck aponta para o afastamento da ilusão teatral proposta por Brecht em várias de suas decisões, mas não a alcança, acabando por reforçá-la.

No elenco, Luana Piovani chama a atenção por sua naturalidade nas cenas da protagonista, e sábia dose de artificialidade sempre que a trama pede, em especial quando interpreta uma prostituta. Leonardo Medeiros (de “A Música Segunda”) vive o ex-marido, menos carismático, com atuação sem nuances. Marcelo Laham (de “Cais ou da Indiferença das Embarcações”) é correto em seu papel de amigo do casal – personagem que é pouco mais do que um ouvido e, quando desponta com uma trama própria, ela não decola. Como os três estão no palco quase que o tempo inteiro, a luz de Tomás Ribas torna-se essencial para direcionar o olhar da plateia e impedir distrações, além daquelas da própria história. O espetáculo, porém, termina com a impressão de que poderia render mais.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Cristina Granato)

Ficha técnica
Autora: Julia Spadaccini
Elenco: Luana Piovani, Leonardo Medeiros e Marcelo Laham
Direção: Sandra Werneck
Codireção: Michel Blois
Cenografia: Aurora dos Campos
Luz: Tomás Ribas
Figurino: Kika Lopes
Visagismo: Diego Nardes
Trilha Sonora Original: João Nabuco
Direção de Produção: Nevaxca Produções – Tárik Puggina
Produção Executiva: Luiz Fernando Orofino
Idealização: Sandra Werneck
Realização: Cineluz

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60 (qui), R$ 80 (sex) e R$ 80 (sáb e dom). 75 min. Classificação: 14 anos. Até 2 de julho. Teatro do Leblon – Rua Conde de Bernadote, 26 – Leblon. Tel: 2529-7700.

Comentários

comments

Share: