Crítica

Crítica: E Se Mudássemos de Assunto?

“E Se Mudássemos de Assunto?”, coletânea de cenas curtas de Renata Mizrahi (de “Galápagos”), é o primeiro espetáculo do coletivo A Gente Tava Indo Tão Bem, recém-formado por egressos da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Como verdadeiras crônicas, os esquetes tratam dos problemas da comunicação contemporânea: suas falhas, seus ruídos, seus não-ditos, que vão desde um “eu te amo” não verbalizado até complicações do Alzheimer.

(Foto: STUDIO B.ART)

A montagem, dirigida por Marcos França (de “Com Amor, Vinícius”), baseia-se sobretudo no material humano do elenco jovem formado por Daniel de Mello (de “Capitães da Areia – O Musical”), Giulia Bertolli, Lucas Figueiredo, Ricardo Cuba (de “Um Inimigo do Povo”) e Tercianne Mello (de “Um Inimigo do Povo”). Cenário e figurinos são simples. A cenografia, assinada por Isabella Manhães, divide-se entre a parte meramente decorativa, ao fundo do palco, e a parte funcional, que consiste em seis cadeiras vermelhas. Quando não estão em cena, os atores seguem no palco, sentados no entorno de quem atua. Os figurinos, criação do ator Ricardo Cuba, trabalham principalmente com roupas sociais em preto e branco, em tentativa de atender com uma única vestimenta a diversidade de personagens que o elenco encara. A iluminação de João Elias colore o palco.

As histórias apresentadas por Mizrahi são variadas e escritas para dois personagens. Em geral, abordam casais – o primeiro encontro (em que um tenta corresponder ao que acredita ser a expectativa do outro, mas não é), a separação (em tentativa fracassada de não brigar), o pesadelo da infidelidade (em que as cadeiras do cenário representam uma cama), o abandono, e a troca do presencial pelo virtual (desvalorizando quem está ao seu lado em prol do contato via celular com quem quer que seja). O mérito da encenação está nas escolhas criativas e até mesmo lúdicas na direção dos atores. A movimentação e a marcação do elenco dão uma assinatura para o espetáculo, que preza pela comédia de situação.

O elenco é bom. Daniel de Mello apresenta uma atuação consistente. Giulia Bertolli tem uma grande força na voz e revela-se uma atriz promissora. Lucas Figueiredo e Ricardo Cuba, apesar dos maneirismos às vezes deslocados, têm inegável dom para a comédia e resultam nos pilares cômicos do espetáculo, desempenhando função de suma importância no todo. Por fim, Tercianne Mello cativa a plateia ao interpretar a senhorinha esquecida que volta ao mesmo lugar todo dia como se fosse a primeira vez. Juntos, formam, sem dúvida, uma turma que merece ser vista, e que ainda pode render muito coletivamente.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: STUDIO B.ART)

Ficha técnica

Texto: RENATA MIZRAHI

Direção: MARCOS FRANÇA

Elenco: DANIEL DE MELLO / GIULIA BERTOLLI / LUCAS FIGUEIREDO / RICARDO CUBA / TERCIANNE MELO

Cenário: ISABELLA MANHÃES

Figurino: RICARDO CUBA

Iluminação: JOÃO ELIAS

Trilha original: CHARLES KHANN

Programação Visual: ARTHUR RÖHRIG

Produção Executiva: RAFAELA OLIVEIRA

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SERVIÇO: ter e qua, 20h. R$ 40. 60 min. Classificação: 12 anos. Até 1º de maio. Casa de Cultura Laura Alvim – Avenida Vieira Souto, 176 – Ipanema. Tel: 2332-2016.

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