Crítica

Crítica: Edward Bond Para Tempos Conturbados

Uma mulher apanhando. Um “cérebro” dissecado no palco. O vídeo de uma cesariana: uma barriga aberta e remexida. Um banho de Sidra. A nudez, as nudezes, uma enorme bunda exposta na sua cara. Um crânio jogado longe. Uma narrativa explicitamente manipulada. Tudo isso está em “Edward Bond Para Tempos Conturbados”, espetáculo da Cia. Involuntária, com direção de Daniel Belmonte (de “Peça Ruim”). Tensionando a sensibilidade e a conivência do espectador, com estética violenta, a montagem propõe uma reflexão política sobre injustiças e a desumanização da sociedade. Os tempos conturbados, que o título aponta, são os nossos? Ou sempre foram conturbados, de uma maneira ou de outra? Sempre serão?

(Foto: Divulgação)

Edward Bond é um dramaturgo e diretor inglês, atualmente com 83 anos. Sua obra é conhecida pela violência e pelo radicalismo de suas assertivas sobre o teatro, com frequência causando controvérsia. A peça que traz seu nome no título, porém, se baseia em seus textos não teatrais, como manifestos e poemas, sobretudo “O Pequeno Livro Para Tempos Conturbados”. O que se assiste é um texto original de André Pellegrino (de “Eu e os Meninos”). O interesse de Bond pelo tema da violência nasceu quando ele integrou o exército britânico, nos anos 1950, justamente quando começou a escrever. Além disso, na infância, ele presenciou o bombardeio nazista em Londres durante a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso encontra uma das principais questões da peça: nossas ideias e ideais são realmente nossos? O soldado em campo de batalha, obrigado a matar ou morrer, defende crença e posição próprias ou as de outra pessoa? Quem trava a guerra está em casa ou no campo de batalha? O interesse da companhia teatral ao trazer à tona essa discussão filosófica, por sua vez, nem precisa ser contextualizado. É só ver o noticiário ou olhar a timeline das redes sociais. Mas há uma boa cena em que o grupo trata do caso do tatuador Maycon Wesley que, em 2017, torturou um menor infrator tatuando em sua testa a frase “eu sou ladrão e vacilão”. Na época, a notícia viralizou e rendeu debates calorosos. Houve gente contra e a favor. Vale pensar: será que as pessoas que se posicionaram a favor do tatuador teriam coragem de tatuar a testa de alguém como punição? Ou sua posição não resulta em ação? O espetáculo aponta nossas contradições e incoerências, as sutilezas das posturas quanto ao justo ou injusto.

Em outra cena, uma mulher é submetida ao “polígrafo humano”, uma espécie de “máquina da verdade” de game shows. Ela só pode responder sim ou não e, caso seja detectada mentira, leva um tapa na cara. “Você se acha uma pessoa boa?”: “sim”. “Você se acha uma pessoa justa?”: “sim”. “Você respeita as diferenças?”: “sim”. Tapa na cara. Mentira detectada. Todo oriental é japonês? Todo nordestino é paraíba? Namoraria um deficiente físico? Gostaria se o filho fosse gay? Repete-se: “você respeita as diferenças?”: “não”. Respostas vagas e automáticas, sem real reflexão, são colocadas em cheque em situações específicas. Difícil algum espectador sair totalmente ileso: todos temos nossos hipocrisias secretas, nem sempre conscientes. Aquela distância entre o que somos e o que gostaríamos de ser…

A peça traz uma narrativa fragmentada e entrecortada, costurada por uma espécie de narradora feita por Susanna Kruger (de “Plath, um Mar Se Move Em Meus Ouvidos”), sentada do início ao fim, introduzindo e assistindo a todo o resto. Quando o público entra no teatro, ela já está posicionada e vendada. O espetáculo começa quando ela tira a venda. O curioso é que a venda traz um par de olhos desenhados. É como se ela tivesse que se forçar a ter outro olhar para enxergar a realidade, o que é um pouco a experiência da plateia no teatro também. A direção do espetáculo é perspicaz na potencialização da essência do texto, esforçada em manter o interesse constante no público, raramente perdendo o fôlego. É uma montagem muito contemporânea, com uma proposta intermedial diferente para cada cena: performance, vídeos, fotos, infinitas variações na iluminação (dos irmãos Mantovani), e surgimento e desaparecimento de artefatos cenográficos. O cenário, concebido por Julia Mariana e Ana Beatriz Barbiere, ganha novas caras com o manuseio dos próprios atores. O trabalho de direção de arte de Colmar Diniz merece ser destacado.

Com exceção de Susanna, o elenco não tem personagens fixos e rapidamente troca de figurinos (assinados por Anouk Van Der Zee), identidades e situações. Alice Morena (de “VIL”), Fernando Melvin (de “No Táxi – A Peça”), João Sant’Anna (de “Tãotão”), Leonardo Bianchi (de “Peça Ruim”) e Lívia Feltre (de “Eros & Psiquê”) estão em cena, todos com atuações satisfatórias, comprometidos com a máquina catalisadora de reflexões que é a montagem. Não oferecem mais nem menos do que o necessário para a comunicação: a medida certa. “Edward Bond Para Tempos Conturbados” é ótimo para ver em ano de eleições.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Elenco: Susanna Kruger, Alice Morena, Fernando Melvin, João Sant’Anna, Leonardo Bianchi, Lívia Feltre e Márcia Frederico (às 5as feiras)
Direção: Daniel Belmonte
Dramaturgia: André Pellegrino
Direção de Arte: Colmar Diniz
Cenografia: Julia Marina e Ana Beatriz Barbiere
Figurino: Anouk Van Der Zee
Iluminação: Irmãos Mantovani
Videografismo: Leonardo Bianchi e Kaio Caiazzo
Fotos: Kaio Caiazzo
Visagismo: Marianna Pastori
Direção de Movimento: Kallanda Caetana
Assistência de direção: Isis Pessino
Assistência de Figurino: Marianna Pastori
Trilha Sonora: Daniel Belmonte, Antonio Nunes e Pedro Nêgo.
Músicas Originais: Antonio Nunes e Pedro Nêgo
Operação de Luz: Walace Furtado
Programação Visual: Victoria Scholte
Arte do Cartaz: Lívia Feltre
Assessoria de Imprensa: Leila Meirelles
Produção: Luana Manuel e Isadora Krummenauer
Realização: Belmonte Produções

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