“ELA”: 1) pronome pessoal feminino do caso reto, terceira pessoa do singular; 2) sigla para esclerose lateral amiotrófica, doença rara que compromete todo o sistema motor; 3) nome da mais nova peça de Marcia Zanelatto (de “Desalinho”), em cartaz no CCBB. No espetáculo, três atrizes mostram como o diagnóstico de ELA afeta a vida de uma coreógrafa e suas relações – com a esposa, com a médica-amiga-e-aluna, e com o tempo. É um drama doloroso, com cenas comoventes protagonizadas pela atriz Carolina Pismel (de “O Livro dos Monstros Sagrados”), que está melhor do que nunca, em seu primeiro trabalho no teatro após se tornar mãe. Tão boa dramática quanto cômica. Elisabeth Monteiro (de “Antologia do Remorso”) dá vida à enferma e Patrícia Elizardo (de “Mulheres de Caio”) à médica, com atuações positivas.

(Foto: Divulgação)

A montagem dá continuidade ao trabalho de Marcia Zanelatto com a representatividade LGBTQ. No ano passado, a dramaturga idealizou a Ocupação Rio Diversidade, com quatro peças curtas acerca das temáticas de gênero e sexualidade. “ELA” não deixa de ser uma evolução disso: as protagonistas são um casal de jovens mulheres, com planos e sonhos interrompidos por causa da doença. O foco, no entanto, é ELA – a esclerose – e não ela – o pronome pessoal. A história poderia ser vivida por um casal heterossexual, um casal de dois homens, um relacionamento a três, etc. A identificação com uma situação comum a todos, as surpresas infelizes no aspecto da saúde, naturaliza o amor lésbico – no caso de ainda não ser natural para alguém da plateia. É um ponto especial do texto: não tratar isso como uma questão.

A esclerose lateral amiotrófica ainda é uma doença misteriosa: desconhece-se causas e tratamentos eficazes. Leva-se quase um ano para se chegar ao diagnóstico, de difícil conclusão. Degenerativa, ela começa com fraqueza, reflexos anormais, e rapidamente evolui para perda completa de força muscular e incapacidade de se mover. O paciente torna-se um vegetal: lúcido, mas preso a um corpo morto. Às pessoas mais próximas, resta tornar-se um enfermeiro particular. O físico britânico Stephen Hawking convive com a doença: é a história do filme “A Teoria de Tudo” (2014), que deu o Oscar para o ator Eddie Redmayne.

Em “ELA”, o espetáculo, a história é contada de forma fragmentada e não-linear, entre fatos do dia-a-dia e fluxos de pensamento da coreógrafa diagnosticada, Clara. De Isabel, sua esposa, é cobrada incessantemente força e coragem para enfrentar o luto precoce que a doença impõe. Uma das melhores cenas é quando Isabel implora desesperadamente a cura a Deus e se revolta raivosamente contra ele. Carolina Pismel, sua intérprete, é avassaladora em cena e as lágrimas que derrama contagiam a plateia. Seu desempenho é o ponto alto do espetáculo.

A direção é de Paulo Verlings, pela segunda vez na função, depois de “Alguém Acaba de Morrer Lá Fora”. Sua concepção é baseada em um cenário conceitual móvel, assinado por Mina Quental, com iluminação embutida em lâmpadas – trabalho de Fernanda e Tiago Mantovani, que promove efeitos estéticos belos aos olhos e fortalece o espaço de atuação do elenco. O design de luz é certamente um dos destaques da montagem. A dinâmica de entradas e saídas e de entre-cenas, no entanto, é pouco criativa e repetitiva, o que acaba por mecanizar a encenação – sobre amor e sentimentos tão fervorosos. Por outro lado, o trabalho coreográfico de Lavinia Bizzotto, em parceria com os figurinos de Flavio Souza, traçam um interessante contraste com a sentença da ELA. O resultado é um espetáculo cativante.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Elisa Mendes)

Ficha técnica
Texto: Marcia Zanelatto
Direção: Paulo Verlings
Elenco: Carolina Pismel, Elisabeth Monteiro e Patrícia Elizardo
Participação em OFF: Ana Beatriz Nogueira como “Dra. Ana”
Cenário: Mina Quental
Direção Musical: Marcello H
Direção de Movimento: Lavinia Bizzotto
Figurino: Flavio Souza
Iluminação: Fernanda e Tiago Mantovani
Preparação Vocal: Verônica Machado
Visagismo: Vini Kilesse
Assistente de Direção: Jorge Florêncio
Designer Gráfico: Daniel Barboza
Fotos e Vídeo de divulgação: Elisa Mendes
Produção: Tiago Mantovani e Jéssica Santiago
Realização: Nota Jazz Produções Artísticas e 9 Meses Produções Artísticas
Apoio: Centro Cultural Banco do Brasil

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 20. 60 min. Classificação: 14 anos. Até 28 de maio. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Teatro III – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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