Crítica

Crítica: Elza (musical)

Um musical biográfico sobre Elza Soares tinha tudo para ser um dramalhão. Foram muitas as pedras em seu caminho: fome na infância, casamento à força com um desconhecido ainda na adolescência, mãe antes de ser mulher, dois filhos mortos, violência doméstica, marido alcoólatra, viuvez, preconceito, racismo, machismo… A vida real é sempre mais surpreendente do que qualquer ficção. O roteiro que o destino escreveu para Elza, a cantora, faz inveja a qualquer mocinha de novela. Mas “Elza”, o musical escrito por Vinícius Calderoni (de “Ãrrã”) e dirigido por Duda Maia (de “Auê”), opta por outro caminho: o roteiro que Elza escreveu para si – de resistência e superação. Ótima personagem, também. O espetáculo é poderoso e multiplica a voz da cantora: Elza é Maria, Juliana, Cristina, a mulher brasileira, ou melhor, as mulheres brasileiras. No palco, aliás, só há mulheres.

(Foto: Leo Aversa)

A proposta cênica foge do esperado. São sete atrizes sem personagens pré-definidos: todas dão voz a Elza em algum momento, às vezes simultaneamente, assim como a outros personagens. A protagonista e os coadjuvantes não pertencem a ninguém. São de todas. O elenco mais apresenta a história do que, de fato, representa-a. As atrizes começam o espetáculo com figurinos cinzentos, símbolo dessas pedras no caminho, e depois trocam por roupas coloridas, que marcam a redenção e a fome de vida da artista. Quem assina os figurinos são Kika Lopes e Rocio Moure: peças heterogêneas mas conectadas entre si para agrupar o coletivo. O cenário, criado por André Cortez, é inespecífico, marcado por baldes de lata (referência à música “Lata D’Água”, uma das regravações de Elza), carrinhos de plataforma (estranhos, mas bons aliados da movimentação, uma marca da direção de Duda Maia) e o posicionamento da banda ao fundo – formada só por mulheres, com ótima direção musical de Pedro Luís, com arranjos de Letieres Leite, valorizando cada verso. A iluminação de Renato Machado, maravilhosa, trabalha sempre com duas nuances, uma para as atrizes à frente, e outra para as musicistas ao fundo. O visual é de um show musical.

A dramaturgia é fragmentada e faz idas e vindas no tempo, de maneira dinâmica. Baseado em pesquisas, o autor privilegia pensamentos e emoções de Elza, como um relato a posteriori – de quem sabe que suportou tudo aquilo que conta -, em detrimento de cenas que recriem fatos e momentos emblemáticos da vida e obra da personagem-título. O texto foge da estrutura típica de musicais biográficos. Está tudo lá, mas sem aprofundamento, com pouco valor dramático. Uma vitória no Grammy é reduzido a uma menção, uma frase, por exemplo. A vida é pano de fundo para construção da imagem da personagem-título. O espetáculo está mais interessado em transmitir uma mensagem, através da biografia de Elza Soares, do que de fato esmiuçar detalhes dessa vida. Válido, mas não pleno. Ainda assim, é um caminho potente para afetar o público. As pessoas vibram, choram, são contagiadas.

A atriz convidada Larissa Luz (de “Gonzagão – A Lenda” e “Ópera do Malandro”) encabeça o grupo de atrizes-cantoras e conduz o espetáculo, como uma mestre de cerimônia, uma Elza atemporal. É sobre ela que todo mundo sai falando do teatro: Larissa é capaz de falar e cantar com o timbre arranhado característico da cantora. É uma delícia assisti-la. Impecável. Mas o trabalho é muito coletivo: o elenco formado por Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio (de “Bossa Nova em Concerto”), Khrystal, Laís Lacôrte e Verônica Bonfim (de “Tropicalistas – O Musical”) forma um grupo coeso, que se desenvolve como em uma coreografia. As vozes de Késia e Khrystal, particularmente, são encantadoras. Elas têm ótimos solos.

O repertório do musical passa pelos sucessos regravados por Elza Soares e as canções inéditas de seus dois discos mais recentes e mais políticos, “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), vencedor do Grammy Latino, e “Deus É Mulher” (2018). O espetáculo em si se encaixa nesta fase atual da artista, com mensagens de empoderamento. As canções são apresentadas como em um show, não como falas de personagens dentro de uma cena, e quase chegam ao público muitas vezes de maneira arrebatadora, pelo teor das composições. Como falei sobre a biografia à serviço da mensagem, as músicas entram com o potencial de síntese de emoções, sentimentos e filosofias de vida. No geral, são números muito bonitos.

O espetáculo é uma produção da Sarau Agência, a mesma de “Suassuna – O Auto do Reino do Sol” (2017), “Auê” (2016), “Gota D’Água [a seco]” (2016) e “Gonzagão – A Lenda” (2012). É um time que vem se destacando com projetos valiosos, que realmente convergem a rica cultura brasileira e o melhor da linguagem do teatro musical na criação de espetáculos importantes e de alta qualidade. Sua iniciativa tem sido reconhecida nas premiações e nas plateias lotadas. “Elza” é mais uma estrelinha no portfólio.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Leo Aversa)

Ficha técnica
Elenco: Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e a atriz convidada Larissa Luz.
Musicistas: Antônia Adnet, Georgia Camara, Guta Menezes, Neila Kadhí, Marfa e Priscilla Azevedo
Direção: Duda Maia
Texto: Vinícius Calderoni
Direção Musical: Pedro Luís
Arranjos: Letieres Leite
Idealização e Direção de Produção: Andréa Alves
Cenário: André Cortez
Figurinos: Kika Lopes e Rocio Moure
Iluminação: Renato Machado
Design de Som: Gabriel D’Angelo
Diretora Assistente: Letícia Medella
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Rafael Lydio
Projeto Gráfico: Beto Martins
Fotografia: Silvana Marques
Vídeos: Elisa Mendes

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SERVIÇO: qui, 19h; sex e sáb; 20h; dom, 18h. R$ 40 a 100 (qui e dom); R$ 50 a R$ 130 (sex); e R$ 50 a R$ 150 (sáb). 120 min. Classificação: 14 anos. Até 30 de setembro. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 38/40 – Centro. Tel: 2533-8799.

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