Crítica: Enterro dos Ossos – Espaço Sesc – Teatro em Cena
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Crítica: Enterro dos Ossos – Espaço Sesc

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Peça mais fragmentada e experimental de Jô Bilac (de “Beije Minha Lápide”), com quase nenhum diálogo, “Enterro dos Ossos” recebe o público com um ator pendurado no teto, cantarolando e assobiando. É o primeiro momento que o espectador, ainda entrando no teatro, é tirado de sua zona de conforto. Em seguida, nota-se um galho de árvore também suspenso sob a arena, que, veja só, está coberta de areia. Há ainda uma DJ ali no cantinho, manuseando seu laptop. Os elementos configuram o esforço dos diretores Camila Gama (de “Efeito Werther”) e Sandro Pamponet (de “Caixa de Areia”) para tornarem o texto o mais palatável possível.

(Foto: Henrique Fischer / Divulgação)

(Foto: Henrique Fischer / Divulgação)

Quem viu “Conselho de Classe”, “Beije Minha Lápide”, “Infância, Tiros e Plumas” e todos os espetáculos da Cia. Teatro Independente, só para citar alguns exemplos, pode esperar algo completamente diferente: “Enterro dos Ossos” é a versão indie do Jô Bilac. Não há uma narrativa propriamente dita que conduza o espetáculo. Ele é formado por longos monólogos, mais ou menos interessantes, compreensíveis e independentes. O início é pesado, cansativo até, e o que salva é o humor do segundo discurso. É lá para a segunda metade que a peça engata mesmo. O público nunca sabe o que esperar. O argumento – uma ficção científica apoiada na colisão de dois buracos negros, com pretensão à investigação da origem da humanidade – permite que tudo aconteça em um cenário pós-apocalíptico. As cenas vão de astronautas visando a ocupação de Marte a alienígenas encontrando um cadáver no planeta. Há segmentos inteiros dedicados às falas da estátua Cristo Redentor e de uma bactéria. E como falam!

Simplificando, o texto é “uma viagem”, com cenas grandes de pura enunciação. É fácil o espectador se distrair, pensar no que vai comer depois, se concentrar de novo e o mesmo personagem ainda estar discursando. Alguns momentos não parecem ter sido escritos para serem encenados, por mais que os atores se esforcem. O interessante é que, dominando a própria atenção, a plateia pode se deleitar com ironias, elementos poéticos, referências contemporâneas e reflexões sobre a humanidade facilitadas pelo distanciamento provocado pelas cenas, em uma realidade tão distinta. Para facilitar a comunicação, a direção provoca um mínimo de ação cênica e ocupação da arena: os atores chegam por trás da plateia, discursam no alto da arquibancada ou sentados ao lado do público. Já que os personagens pouco se movem, os diretores colocam os espectadores para deslocarem o olhar. Um momento emblemático é todo mundo virado para ouvir o que o Cristo Redentor tem a dizer, do alto da plateia, depois que a vida humana foi extinguida na Terra.

Cabe também à iluminação proporcionar o movimento que o texto não provoca. A luz é, do início ao fim, um elemento fundamental das cenas – e por vezes o melhor delas, dando dinamismo ao texto. A concepção é de penumbras, com holofotes coloridos ritmados: há inclusive uma parte dedicada apenas à luz e à música eletrônica da DJ, marcando a passagem do tempo. Sem atores em cena, a arena vira uma casa noturna e algumas pessoas balançam o corpo na plateia. A trilha sonora agrada.

A missão do elenco não é fácil nesse espetáculo. As falas são imensas, majoritariamente sem contracena, e Pierre Baitelli (de “Venus em Visom”), Ciro Sales (de “Efeito Werther”), Lidiane Ribeiro (de “As Festas da Tia Ciata”), Júlia Marini (de “Beije Minha Lápide”) e Hugo Bonemer (de “A História dos Amantes”) rebolam para manter seus momentos atraentes, com figurinos minimalistas, brancos e inespecíficos que não agregam nem facilitam. Pierre provoca tédio na primeira cena, mas na última tem sua redenção como a bactéria imortal que discursa em uma conferência de extraterrestres. Já Lidiane cativa em sua primeira entrada, pela expressão cômica. Ciro, Júlia e Hugo têm cenas menos oportunas.

Concluindo, “Enterro dos Ossos” é um experimento dramatúrgico de Jô Bilac, difícil e desafiador para quem dá conta da encenação. A montagem tem como mérito principal esse esforço.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

Ficha técnica
Texto: Jô Bilac
Direção: Camila Gama e Sandro Pamponet
Elenco: Pierre Baitelli, Ciro Sales, Hugo Bonemer, Julia Marini e Lidiane Ribeiro.
Figurino: Camila Gama
Cenário: Sandro Pamponet
Luz: Renato Machado
Direção de Produção: Camila Gama
Produção executiva: Bruno Fagotti e Nana Martins

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 20. Classificação: 12 anos. Até 1º de maio. Espaço Sesc – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 140 – Copacabana. Tel: 2548-1088.

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