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Crítica: Entrepartidas – Botafogo

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A proposta do grupo Teatro do Concreto no espetáculo “Entrepartidas”, trazido de Brasília para o Rio de Janeiro, é simples e original: uma apresentação itinerante, com os espectadores levados por um ônibus para diferentes pontos do bairro Botafogo, onde veem e participam de cenas diversas. Soa interessante, e é. Com música, poesia, interação, teatro de rua, chá, bolo e imprevistos, “Entrepartidas” leva o público – seleto, de no máximo 30 pessoas por sessão – para uma experiência imersiva, que propicia um novo olhar para a cidade. O que é cena e o que é realidade se misturam com igual peso, e tudo ao redor ganha uma beleza, uma atenção.

(Foto: Olivia Proença)

(Foto: Olivia Proença)

Escrito por Jonathan Andrade e dirigido por Francis Wilker, o espetáculo conta com nove atores no elenco. A encenação começa na entrada principal do Cemitério São João Batista: ponto de encontro, de onde sai o ônibus. Ali, os espectadores já entendem que tudo pode acontecer, com um casal de personagens brigando no meio da rua (e chamando a atenção dos frequentadores de um bar em frente, que gritam “conselhos”, sem saber se tratar de uma ficção), uma criatura escapando do cemitério, e o motorista sendo também um ator. “Entrepartidas”, o título, se refere às idas e vindas, às despedidas e aos encontros fortuitos que marcam as cenas. Vale também para a plateia: pessoas desavisadas que se aproximam, assistem um pouco, se vão, sem ver o resto, ou o público pagante, sempre indo e vindo com o ônibus.

O cenário é a cidade, e a iluminação é a pública. Os figurinos e direção de arte, de Hugo Cabral e Júlia Gonzales, contornam o teatral com cores e inocência. O texto, em síntese, se dedica a construção de personagens-tipo, colocados em situações efêmeras, tão corriqueiras quanto marcantes, em detrimento de um enredo mais amplo. Há a latina que chega ao Rio de surpresa para rever a mãe, de quem deixou de receber cartas; o menino criado pela avó, curioso e descobrindo a paixão na rua; os casais em separação; a destemida que simplesmente vai, não se sabe para onde nem o porquê; entre outros. As histórias são contadas de forma fragmentada, aos poucos interligando-se e afetando-se. Ao público, o convite é para participar de tudo: não há nada que separe atores e espectadores – tal fronteira é destruída. Público e transeuntes podem passar entre os personagens, assim como aproximar-se ou afastar-se quando bem atender. No ônibus, o motorista solicita que todos respondam a uma pergunta em uma folha de papel. Em uma casa, a anfitriã serve bolo e café. Na rua, uma mulher desesperada pede ajuda para segurar placas românticas, acreditando que terá a atenção de sua amada. A plateia é incluída nas cenas, como se elas simplesmente não fossem cenas.

O que fica de mais interessante de “Entrepartidas”, no entanto, é o abraço ao acaso da cidade. Da mesma maneira que as pessoas do bar colocaram fogo na briga dos personagens na frente do cemitério, na sessão assistida, moradores de rua envolveram-se com o teatro nas cenas ambientadas em uma praça. Um deles trocou seu lugar de sentar para acompanhar a encenação, e outro interferiu no discurso de uma personagem, deu dicas de livros e se encantou por um poema. O teatro afetando a cidade e a cidade afetando o teatro. Quando situações assim se apresentavam, era difícil não dar um sorriso. Em pensar que, a cada dia, novos acasos acontecem e outros personagens reais se misturam aos fictícios… Experiência engrandecedora.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Diego Bresani)

(Foto: Diego Bresani)

Ficha técnica
Dramaturgia: Jonathan Andrade
Direção: Francis Wilker
Assistente de direção: Ivone Oliveira
Assistente de direção de cena: Aline Seabra
Elenco: Adilson Dias, Alonso Bento, Giselle Ziviank, Gleide Firmino, Jhony Gomantos, Lisbeth Rios, Maria Carolina Machado, Micheli Santini e Nei Cirqueira
Desenho de luz: Diego Bresani
Montagem e operação de luz: Higor Filipe
Figurinos e direção de arte: Hugo Cabral e Júlia Gonzales
Produção: Tatiana Carvalhedo – Carvalhedo Produções
Produção capital Rio de Janeiro: Nevaxca Produções

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SERVIÇO: sex, sáb e seg, 20h; dom, 19h. R$ 20. 150 min. Classificação: 16 anos. Até 14 de novembro. Embarque: Rua General Polidoro, s/n – Botafogo. Em frente ao portão principal do cemitério São João Batista. Tel: 7725-5278.

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