Crítica

Crítica: Eu, Moby Dick

(Foto: Caio Gallucci)

“Eu, Moby Dick”, montagem teatral assinada por Renato Rocha (de “Meu Destino É Ser Star”), invoca o tempo todo sua origem literária, sem com isso limitar-se a tal. O elenco formado por Kelzy Ecard (de “Tom na Fazenda”), Márcio Vito (de “Nossas Mulheres”), Noemia Oliveira (de “Por quê???”) e Gabriel Salabert (de “Pacto- Relações Podem Ser Fatais”), literalmente carrega exemplares do livro nas mãos – e os joga no chão, atuando em um espetáculo híbrido entre teatro, instalação, performance e audiovisual.

O grande impacto acontece quando o espectador entra no teatro e se percebe dentro de uma instalação que recria o interior da baleia. O cenário incrível criado por Bia Junqueira extrapola os limites do palco, abraçando a plateia inteira. Parte do público, inclusive, se senta no palco. Todo o espaço está cercado com tecidos brancos, sobre os quais são projetados o videografismo de Rico e Renato Vilarouca, com imagens que manifestam angústias e questões dos personagens. A iluminação de Renato Machado se integra à coreografia do elenco – a direção de movimento de Paulo Mantuano é base da encenação. Por fim, a direção musical de Felipe Habib e Daniel Castanheira completa o imaginário do espectador, transportando-o para o alto mar. É mesmo uma proposta imersiva.

A peça não é uma adaptação de “Moby Dick”, a obra-prima escrita por Herman Melville. Pedro Kovoski (de “Tripas”) assina a dramaturgia original, que propõe uma reflexão sobre os personagens do livro, suas motivações e suas limitações, encaminhando o público para um pensamento maior sobre seu lugar político. Por que deixar o barco afundar na mão de um capitão delirante? Por que não impedi-lo? Essas são perguntas que Kelzy Ecard faz diretamente aos espectadores. Ela já começa o espetáculo contando o fim do livro, para deixar claro que não será essa a história contada. Ela é ponto de partida. O que se vê são trechos comentados. A abordagem busca manter vivo o interesse da plateia por uma hora e meia, mas o resultado é um pouco enfadonho em diversos momentos. O aprofundamento em questões internas dos personagens, em detrimento de verdadeiras ações, somado à encenação – por vezes uma leitura mirabolante – pode ser bastante maçante. Muito da peça é mais para ser lida do que assistida. Cansa.

Um ótimo momento do texto é a cena em que Márcio Vito explica didaticamente para a plateia o tamanho de Moby Dick com uma corda para que todos tenham a real noção do que está sendo caçado. Ele e Kelzy Ecard são forças motoras do elenco. Grandes presenças! Por intermédio de Noemia, a única negra do elenco, o autor e o diretor adicionam cargas sociais na montagem, com frases de efeito que ela desempenha com vigor. Gabriel Salabert, menos imponente, colabora com o todo. É um ótimo elenco.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Direção: Renato Rocha
Dramaturgia: Pedro Kosovski, a partir da obra-prima de Herman Melville.
Assistência de direção: Rafaela Amodeo
Elenco: Kelzy Ecard, Márcio Vito, Noemia Oliveira e Gabriel Salabert
Figurinos: Tarsila Takahashi
Cenário: Bia Junqueira
Iluminação: Renato Machado
Videografismo: Rico e Renato Vilarouca
Direção Musical: Felipe Habib e Daniel Castanheira
Direção de Movimento: Paulo Mantuano
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual e Marketing Digital: Raquel Alvarenga
Registro Fotográfico e Videográfico: Caio Gallucci
Coordenação de Projeto: MS Arte e Cultura
Direção de Produção: Aline Mohamad e Carla Torrez Azevedo
Produção Executiva: Fernanda Alencar e Gabriel Salabert
Assistência de Produção: Renan Fidalgo e Naomi Savage
Administração Financeira: Natália Simonete

_____ SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. 80 min. Classificação: 14 anos. Até 28 de julho. Oi Futuro – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.

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