Crítica

Crítica: Eu Não Posso Lembrar Que Te Amei – Dalva & Herivelto

Com tudo para atrair um público maduro, “Eu Não Posso Lembrar Que Te Amei – Dalva & Herivelto” é um show musical com 24 canções que marcaram as carreiras dos cantores Dalva de Oliveira (1917-1972) e Herivelto Martins (1912-1992). O espetáculo é um recorte de Artur Xexéo (de “Cartola, o Mundo É um Moinho”) para a briga do casal de separados, que marcou a MPB nos anos 1950 e deixou um repertório emblemático como legado. O mesmo tema já conduziu a microssérie “Dalva e Herivelto: uma Canção de Amor” (2010) na TV. O foco da montagem teatral, no entanto, é a música, mais do que o drama da lavagem de roupa suja. A história aparece em segundo plano, em narração, costurando a trilha sonora.

(Foto: Carlos Costa)

No palco, estão três músicos e apenas dois atores: Sylvia Massari (de “Ou Tudo Ou Nada”), como Dalva, e Tadeu Aguiar (de “Um Natal Para Nós Dois”), que faz Herivelto, além de assinar a direção. Eles encarnam os personagens quando cantam, mas fazem papel de narradores quando falam – o que é sublinhado pelos figurinos sóbrios (de Natália Lana), com distanciamento dos personagens retratados. Superficial, o frágil fio narrativo é marcado por certo humor, que contrasta com o teor dramático e magoado das músicas. Algumas interpretações de canções, dolorosas e rancorosas, acabam por ganhar uma perspectiva cômica, o que esvazia o duelo musical e passional de emoção. É como se a proposta original das composições fosse desrespeitada. Mal-interpretada. O momento mais denso da montagem é a transmissão do áudio real de uma entrevista de rádio de Dalva, falando sobre o término com Herivelto. É ali que se tem acesso a carga dramática que falta no todo. Também são projetadas fotografias dos artistas.

Aliás, um ponto positivo é a cenografia sofisticada de Natália Lana, com mudanças para cada parte da história, marcadas por uma elaboração do estritamente necessário. Junto com a iluminação, o cenário proporciona boas surpresas para o público, colaborando com o ritmo da narrativa, sem dispensar uma estética requintada.

Tanto Sylvia quanto Tadeu já viveram Dalva e Herivelto em outros trabalhos. Ela foi substituta de Marília Pêra (1943-2015) na temporada paulista do musical “Estrela Dalva” e interpretou a cantora em duas minisséries na TV, “Amazônia, de Galvez a Chico Mendes” (2007) e “A, E, I, O… Urca” (1963). Ele foi Herivelto nesta última. Ambos também já fizeram um show com esse repertório, “Finalmente Juntos”. Além disso, contracenaram em outras oportunidades, e Tadeu a dirigiu em distintos trabalhos. Essa intimidade criada é um trunfo para a encenação, que não busca uma mimese vocal de Dalva e Herivelto. Sylvia e Tadeu dão suas próprias interpretações – nem todas boas – para as canções. Sylvia gosta de firulas incômodas que descaracterizam gravações clássicas. A direção musical de Tony Lucchesi (de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”) revela-se permissiva com relação ao canto, por mais que os arranjos sejam reconhecíveis.

Tecnicamente, na sessão assistida, o design de som também teve alguns percalços a enfrentar: microfones dos atores baixos ou altos demais com relação à banda. Em determinada música, além disso, a voz de backing de Tony foi ouvida mais alta que o canto do próprio Tadeu, como Herivelto. Era a quarta apresentação da temporada e existiam erros perceptíveis. Sylvia Massari estava visivelmente insegura com as marcações e por pouco não ficou de fora do enquadramento do holofote do belo desenho de luz de Rogério Wiltgen, logo no início do show. Também teve entradas antes da hora nas músicas. Fica a torcida para que esses aspectos sejam acertados prontamente.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Carlos Costa)

Ficha técnica
Com Sylvia Massari e Tadeu Aguiar
Texto Artur Xexéo
Direção geral Tadeu Aguiar
Direção musical Tony Lucchesi
Assistência de direção Flavia Rinaldi
Cenário e figurino Natália Lana
Iluminação Rogério Wiltgen
Designer de som Gabriel D’Ângelo
Cenotécnica J. Faria e equipe
Coordenação de produção Norma Thiré
Produção geral Eduardo Bakr
Realização Estamos Aqui Produções

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SERVIÇO: qui e sáb, 17h30; dom, 20h30. R$ 60 a R$ 80 (qui) e R$ 80 a R$ 100 (sáb e dom). 70 min. Classificação: 10 anos. Até 20 de agosto. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2147-8060.

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