Mais recente texto da dramaturga Julia Spadaccini (de “A Porta da Frente”), “Euforia” é apresentado como solo pelo ator Michel Blois (de “The Pride”), com direção de Victor Garcia Peralta (de “A Sala Laranja – No Jardim de Infância”). No palco, ele interpreta duas personagens em blocos independentes: primeiro um idoso homossexual internado em um asilo, e depois uma mulher jovem que perde o movimento das pernas após um acidente. Ambos invisíveis em sua sexualidade e em quaisquer questões para além de seus corpos. A peça é engrandecida pelo desempenho e entrega do ator, mas não suplanta a aparência de inacabada.

(Foto: Rodrigo Turazzi)

A primeira cena é muito boa. Encarando o público, Michel Blois aparece no centro do palco com sua voz pré-gravada. Seu corpo já é do senhor de 87 anos, e sua voz virtual faz as vezes do enfermeiro que lhe dá um banho, monologando para passar o tempo e inventando um passado para o homem aprisionado em um corpo decrépito. Como uma espécie de introdução, esse momento dura tempo demais para admirar a sutileza de gestos do ator – que não se vale de qualquer figurino que componha o que está apresentando (o vestuário neutro, assinado por Ticiana Passos, é o mesmo para todos os papéis). É uma cena que sublinha a vulnerabilidade do personagem. Quando o ator começa a falar “ao vivo”, intercalando momentos da imobilidade do idoso com cenas de sua juventude e descoberta sexual, algumas questões são suscitadas. Aparentemente, o personagem trabalhava em uma espécie de papelaria do pai. Por que, então, o ator passa toda sua atuação em ações de carpintaria, com serrote, martelo, prego, parafuso? O texto de Spadaccini busca tratar da invisibilidade que acomete algumas pessoas e algumas questões – dentre elas, a senilidade – e contrastar isso com o reforço da presença do intérprete, em atitude performática, fazendo ao invés de simulando que faz, é um caminho. Explicita o corpo. Mas não faz sentido e causa um ruído na dramaturgia. Não tem nada a ver com o personagem – jovem ou velho. Fugiu à minha compreensão a decisão da direção.

A dramaturgia tem alguns cortes bruscos, concluindo prematuramente que a mensagem está dada. No término do segmento do senhor gay, fica a impressão de que a história ainda será retomada mais adiante, mas isso não acontece. Já estamos, portanto, com a segunda personagem: uma jovem mulher cadeirante. Aqui, a madeira que o primeiro personagem carpintou revela-se a cadeira de rodas da recém-acidentada. Esse é todo o cenário, assinado por Elsa Romero, e intimamente alinhado ao trabalho do ator e do diretor. Esta personagem, em sua cadeira, passa por uma jornada de empoderamento até a retomada da autoestima, confiança e vida sexual, mesmo com o corpo paralisado da cintura para baixo.

Como o senhor que, ao lembrar de sua juventude, entende como ninguém o enxerga de verdade na velhice – projetando em sua imagem seus próprios ideais de como ele é ou foi – a mulher acidentada também se descobre nesse lugar. Antes de perder os movimentos, não enxergava ou não se importava com os deficientes que passavam diante de si. Nada para além do “coitada”, “ainda bem que não sou eu”. Ao se encontrar nesse lugar, percebe os outros fazendo o mesmo consigo. A dramaturgia de Julia Spadaccini sublinha como as pessoas são mais do que aparentam – idoso x deficiente – e têm histórias e trajetórias únicas, angústias e emoções inimagináveis a olho nu. Uma obviedade, mas esquecida. É como um incentivo para que nos olhemos e realmente nos interessemos uns pelos outros, para além do estado físico do corpo.

Para além da questão da carpintaria, a meu ver gratuita, a direção de Victor Garcia Peralta consegue ser bastante envolvente. Enquanto os personagens se expressam, têm a plateia na mão. Ótimo trabalho do ator Michel Blois, convincente em ambos os papéis – o tipo de trabalho que pode lhe render uma ou outra indicação a prêmios neste fim de ano. Muito do mérito da encenação está dentro de seu olhar, um convite para a alma dos personagens. A apresentação em uma sala pequena (vi no Teatro Café Pequeno) colabora com esse clima de intimidade, de confidência, que a peça de Spadaccini pede. A iluminação de Wagner Azevedo acentua esse aspecto, com lâmpadas em cena, penduradas em uma espécie de mini-jaulas. Luzes enclausuradas, como a vida que corre dentro do senhor e da paraplégica. A encenação, no geral, adiciona novas camadas à dramaturgia sucinta.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Rodrigo Turazzi)

Ficha técnica
Elenco: Michel Blois
Dramaturgia: Julia Spadaccini
Direção: Victor Garcia Peralta
Assistência de Direção: Flavia Milioni
Pesquisa Dramatúrgica: Marcia Brasi
Iluminação: Wagner Azevedo
Cenografia: Elsa Romero
Figurino: Ticiana Passos
Trilha Sonora: Pedro Guedes
Designer Gráfica: Raquel Alvarenga
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Direção de Produção: Aline Mohamad e Michel Blois

_____
SERVIÇO: qua a sex, 19h30. R$ 20. 50 min. Classificação: 14 anos. Até 10 de novembro. Centro Cultural Parque das Ruínas – Rua Murtinho Nobre, 169- Santa Teresa. Tel: 2215-0621.

Comentários

comments

Share: