Crítica

Crítica: Feliz Por Nada

Originalmente estreado em 2013, o espetáculo “Feliz Por Nada” voltou aos palcos, com novo elenco. Cristiana Oliveira, da montagem original, agora divide cena com Maria Eduarda de Carvalho (de “Depois do Amor”) e Danilo Sacramento (de “Online”) para contar a história de duas mulheres completamente diferentes, que se conhecem no aeroporto de Tóquio e firmam uma amizade verdadeira, capaz de inspirar mudanças e reflexões potentes uma na vida da outra. O texto é inspirado no livro homônimo da cronista Martha Medeiros, e ganha dramaturgia de Regiana Antonini, a mesma que assinou a adaptação teatral de “Doidas e Santas”, outro livro da escritora.

(Foto: Nana Moraes)

Cristiana e Maria Eduarda conduzem o espetáculo, com boa troca entre as atrizes. Cristiana às vezes é um tanto caricata, porque o texto também não ajuda: sua personagem usa o vocativo “amiga” mais do que o tolerável para alguém que não está em idade escolar. Maria Eduarda trabalha bem as curvas de sua personagem, com cenas leves e densas, bem humoradas e dramáticas, mas não evolui em solilóquio. Danilo Sacramento interpreta os personagens masculinos, quase em caráter de participação, e cumpre sua missão.

“Feliz Por Nada” é uma crônica publicada por Martha Medeiros em 2010: fala sobre a felicidade como constância, relacionada ao prazer de viver, e não como busca, condicionada a realizações. Logo no primeiro parágrafo, lê-se: “(…) sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz por atingimento de metas”. Tenha isso em mente. No espetáculo, Cristiana Oliveira vive a professora Laura, que se anulou para dar o suporte necessário para o marido crescer profissionalmente. Casada há 15 anos e mãe de duas meninas, ela arrasta um casamento falido e uma vida sem realizações. Juliana, a amiga que ela conhece no Japão, interpretada por Maria Eduarda de Carvalho, é uma fotógrafa independente – financeiramente e emocionalmente – que já passou por alguns casamentos e fala com paixão sobre seus projetos. As longas conversas das duas afetam Laura, que resgata seus sonhos de vida e toma coragem para empreendê-los. O ponto de virada da personagem, então, nada tem a ver com “ser feliz por nada”. Pelo contrário, está diretamente ligado à sensação de realização. O oposto do que Martha Medeiros escreveu.

Contudo, esse não é o problema da dramaturgia – considerando-a uma obra independente. É falha a busca de Regiana Antonini por se apropriar teatralmente das crônicas de Martha Medeiros, o que deveras não deve ser fácil. Na peça, há pelo menos três cenas de longos monólogos, em que fica evidente o uso do artifício para escoar as mensagens e filosofias de Martha Medeiros. São cenas ruins, com aparência de autoajuda e palestras motivacionais. Prejudicam o andamento da história e o ritmo da encenação – dirigida por Ernesto Piccolo (também de “Doidas e Santas”), também com falhas.

A montagem, desprovida de qualquer cenografia, enfoca totalmente nos atores, sem artifícios. A iluminação, descompromissada em compensar a ausência de elementos cênicos, também é básica. Há apenas os figurinos, inclusive alguns inexplicáveis. A proposta enxuta é aceitável – talvez até coerente com a crônica de Martha – mas a direção não supera o aspecto notável de baixo orçamento. Mais de uma vez, o palco fica vazio na transição entre cenas, com o foco de luz à espera do comparecimento do ator em sua marca. Problemas de má execução assim são incompreensíveis e inaceitáveis. Tomara que melhore.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Nana Moraes)

Ficha técnica
Texto: Regiana Antonini (Livremente inspirado no livro de Martha Medeiros)
Direção: Ernesto Piccolo
Elenco: Cristiana Oliveira, Maria Eduarda de Carvalho e Danilo Sacramento
Assessoria de imprensa: Valéria Souza
Realização: Hagazachi Comunicações

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SERVIÇO: ter a sáb, 19h. R$ 40. 75 min. Classificação: 12 anos. Até 30 de setembro. Teatro Eva Herz – Livraria Cultura – Rua Senador Dantas, 45 – Centro. Tel: 3916-2600.

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