Crítica: Fogo Frio – imersão cênica – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Fogo Frio – imersão cênica

Conhecida por musicais bastante comerciais, como “Rock in Rio” e “Cazuza”, a atriz Yasmin Gomlevsky vem, nos últimos anos, construindo uma curva em seu currículo, com trabalhos mais experimentais e intimistas. Foi o caso de “Pineal – Ritual Cênico”, da Cia. Teatro de Afeto, com a qual ela passou a trabalhar, e é o caso também do novo “Fogo Frio – imersão cênica”, seu primeiro monólogo. Ele é uma adaptação de seu livro de poemas, publicado em 2013 a partir da compilação de textos que ela escreveu para um blog. O conteúdo multimídia, em cena, é apresentado em fragmentos e resulta em um espetáculo intermedial que engloba vídeos, dublagem, música, dança e instalação em meio a pílulas de raciocínio metafórico.

(Foto: Clara Castañon)

A experiência começa fora da sala. Para adentrá-la, o público deve percorrer um corredor de instalações – creditadas a Gerson Porto, Saulo Rocha, Tainá Medina e Yasmin em parceria com Bambuê Arquitetura Viva. Na sala, fileiras de bancos brancos estão dispostos nas quatro paredes, em torno de um tapete também branco. Yasmin já está no centro (com figurino branco – assinado por Carol Lobato), executando uma coreografia densa com o preparador corporal e diretor de movimento Elton Sacramento. Primeiro, em silêncio. Depois, ela começa a cantar trechos de músicas famosas, como “Chandelier” da Sia e “Chantaje” da Shakira – o mais próximo de seus trabalhos mainstream anteriores. É impossível não se deleitar com a voz da artista, por mais difícil que seja entender sua complexa proposta cênica. Isso tudo é apenas a introdução – uma longa introdução – em que nenhum texto autoral é verbalizado, mas muito é comunicado. Com janelas abertas, luzes e barulhos externos invadem a cena.

Em seguida, Yasmin pausa sua apresentação e cede espaço para uma “cena grátis” – prática recorrente nos trabalhos da produtora por trás do espetáculo, a Alquimia Cultural. A ideia de “cena grátis” vem de uma comunhão do espaço e do público, convidando um artista diferente a cada sessão. No dia em que vi, Karine Telles (de “Do Tamanho do Mundo”) apresentou sua cena, lendo um texto em um caderninho. Foi um bom intervalo. Terminado o número de Karine, Yasmin irrompeu a cena novamente, com o cabelo solto, um novo figurino sobreposto ao da dança – uma peça delicada, o elemento mais poético da montagem, com frases escritas em vermelho – e um saco de pipoca de microondas. Nas paredes, a projeção de uma cena de “Cinderela” da Disney, com nova dublagem: ao invés do convite para o baile no castelo, o convite para uma balada open bar no Barra Music. Janelas, por fim, fechadas.

Entremeando vídeos e áudios, Yasmin Gomlevsky apresenta versões dramatizadas de seus textos, com direção de Saulo Rocha (o mesmo de “Pineal”) e poderosa trilha sonora original de Tomás Konrath. Passa rápido. Ela sai e entra da sala, vai embora, sobe e desce do salto, bebe e serve cerveja para a plateia, se apaixona, se indigna, se enraivece, decai e supera o fim de um romance. É tudo sobre o amor – o que ele causa ou é capaz de causar, o que se busca e o que se aprende com ele. O que é amor? O que não é amor? Yasmin propõe essa reflexão, com lascas de construção de discurso e grandes buracos. Se o texto é o ponto de partida da idealização do espetáculo, ele aparece apenas como um elemento entre tantos na montagem. Há uma cena de Yasmin sentada no chão lamuriando diante de uma lâmpada incandescente em frente ao seu rosto: não lembro o que ela dizia, mas a imagem ficou.

Contudo, “Fogo Frio – Imersão Cênica” ainda tem uma barreira entre a performance da atriz e o público. São evidentes as estratégias da concepção para fazer o público imergir, como diz o título, mas o trabalho fica muito no campo do autoconhecimento e da experiência do processo artístico. Falta um mecanismo eficaz para transcender a si mesmo. No fim do espetáculo, por exemplo, a atriz faz uma pergunta aos espectadores e, na sessão vista, ninguém respondeu. Obviamente, era o espaço para ter uma resposta, mas ninguém se sentiu verdadeiramente convidado a participar. É algo para a cia. seguir investigando: que imersão é essa que propõe?

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Clara Castañon)

Ficha técnica
Idealização, texto e atuação : Yasmin Gomlevsky
Direção geral: Saulo Rocha
Encenação
Direção: Tainá Medina e Saulo Rocha
Luz: Brisa Lima
Direção de movimento: Elton Sacramento
Concepção de cenário e instalações: Gerson Porto, Saulo Rocha, Tainá Medina, Yasmin Gomlevsky em parceria com a Bambuê Arquitetura Viva
Cenário e cenotécnica : Gerson Porto
Figurino: Carol Lobato
Trilha sonora original: Tomás Konrath
Assistência de direção e operação de som: Matheus Murucci
Operação de luz: Thainá Dutra
Audiovisual (projeções)
Direção: Tainá Medina
Direção de Arte: Ana Clara Mattoso
Fotografia: Daniel Wierman
Comunicação
Fotos de divulgação, programa e banner: Bruna Sussekind
Ilustrações: Priscila Vergniaud
Mídias sociais: Juliana Amaral
Fotos de cena e cobertura audiovisual: Clara Castanol
Arte gráfica: Gabriel Lara
Cena Grátis
Bernardo Mendes
Karine Telles
Gabriela Gaia Meirelles
Saulo Rocha
Produção
Direção de produção: Saulo Rocha
Produção Executiva: Juliana Amaral, Matheus Murucci, Tainá Medina e Yasmin Gomlevsky
Produção audivisual: Tainá Medina e Matheus Murucci
Realização: Alquimia Cultural e Teatro de Afeto

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SERVIÇO: dom, 20h. R$ 20. 70 min. Classificação: 10 anos. Até 29 de outubro. Casa Rio – Rua São João Batista, 105 – Botafogo. Tel: 2148-6999.

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