“Frames”, peça do dramaturgo paulista Franz Keppler (de “Camille e Rodin”) indicada ao Prêmio APCA em 2009, ganha remontagem, com texto atualizado, sob os cuidados dos diretores Camila Gama e Sandro Pamponet (dupla de “EfeitoWerther” e “Enterro dos Ossos”). Diferentemente da primeira montagem, com elenco maior, a nova traz somente dois atores, Hugo Bonemer (de “Ayrton Senna, o Musical”) e Daniel Rocha (de “Inimigas de Infância”), que dão vida a quatro personagens cada. O espetáculo é dividido em quatro quadros, fragmentos de histórias, que tratam sobre a capacidade (ou não) de conviver com as diferenças. A dificuldade de comunicação pacífica com o outro é, basicamente, o que norteia e interliga todos os quadros. Em três frames, personagens são obrigados a coabitarem o mesmo espaço por situações adversas e, em outro, dois amigos escolhem estar juntos e pensar nas motivações da intolerância.

(Foto: Cadu Silva)

Além do elenco enxuto, a concepção cênica é minimalista. O cenário (de Hugo Bonemer e Sandro Pamponet) limita-se a um banco de madeira e os figurinos (de Rafael Menezes) são calças e camisas inteiramenete brancas. Os atores apresentam-se descalços. A direção convida o espectador a completar as lacunas. As faltas aparentemente são propositais, como no texto, que é cheio de recortes, sem inícios ou fins, apenas trechos. A imaginação e o repertório particular de cada indivíduo da plateia ajudam a conferir sentido e a completar cada cena. A eficiente trilha sonora de Márcio Tinoco e a bela iluminação de Renato Machado dão indicações da ambientação e um mínimo de subtexto para o público. Em outras palavras, a direção exige um espectador ativo. A dramaturgia não oferece nenhum clímax ou profundidade nas histórias tratadas e a encenação abraça essa linearidade emotiva, com momentos mais ou menos significativos e mais ou menos bem sucedidos. Parte do texto perde potencial de comoção ao ser apresentado incerto de seu caráter cômico ou dramático.

Hugo Bonemer e Daniel Rocha, que já fizeram outros trabalhos juntos, têm entrosamento e cumplicidade em cena. Mudam de personagens convincentemente, com nuances de masculinidade e feminilidade não estereotipados, o que é um feliz acerto. Trabalham com sutilezas em atuações realistas dentro de marcações que andam na contramão disso. Esse paradoxo dá o tom de “Frames” e dialoga com as questões dramatúrgicas.

Seus personagens vivem quatro situações dramáticas: um reencontro compulsório de um homem e uma mulher devido à hospitalização de uma amiga em comum; a briga de duas mulheres em um engarrafamento, cada uma com seus problemas e anseios pessoais, em meio a buzinas e xingamentos; a união inesperada de um homem e uma mulher que nunca tinham se falado antes, mas que se abrigam juntos para escapar de um tiroteio na favela; e um amigo heterossexual que cuida do amigo gay, com a perna fraturada, após um massacre homofóbico em uma festa – referência ao que aconteceu na Pulse, em Orlando, em 2016. Essas situações são gatilhos para tratar de falhas na comunicação, ódio na Internet, o valor do diferente, necessidade da escuta, e a urgência de ter um olhar mais empático para os outros, mesmo na urgência do dia-a-dia.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Cadu Silva)

Ficha Técnica:

Texto: Franz Keppler

Direção: Camila Gama e Sandro Pamponet

Com Daniel Rocha e Hugo Bonemer

Desenho de Luz: Renato Machado

Trilha Sonora: Márcio Tinoco

Figurinos – Rafael Menezes

Cenário: Hugo Bonemer e Sandro Pamponet

Design – Imerso Design

Assessoria de Imprensa : MercadoCom (Ribamar Filho)

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h; dom, 19h. R$ 30. 60 min. Classificação: 14 anos. Até 8 de julho. Casa de Cultura Laura Alvim – Avenida Vieira Souto, 176 – Ipanema. Tel: 2332-2016.

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