Crítica

Crítica: Fulaninha e Dona Coisa

Ótima oportunidade para ver uma maravilhosa atuação de Vilma Melo (de “Chica da Silva – O Musical”). A atriz protagoniza, ao lado de Nathalia Dill (de “A Agonia do Rei”), a comédia “Fulaninha e Dona Coisa”, sobre a rotina de uma mulher independente recém-divorciada (Dona Coisa) e sua nova empregada doméstica (Fulaninha), uma mocinha bicho-grilo que acabou de chegar na cidade grande para morar no emprego. Vilma é a patroa e Nathalia é a doméstica, o que já subverte um estigma racial histórico em nossa sociedade, e cenicamente traz um subtexto interessantíssimo.

(Foto: Daniel Bianchini)

Vilma tem a plateia na mão com sua atuação. O texto encontrou lugar perfeito em sua embocadura. Mas tudo nela comunica: cada gesto, expressão e movimento, maiores ou menores, sempre na medida certa. A personagem, a mulher negra na situação de poder, é divertida. Nathalia Dill, experimentando-se na comédia, também apresenta um bom desempenho, imprimindo doçura em sua Fulaninha, com atuação mais extrovertida. É engraçada. Há ainda Tiago Herz (de “Contos Partidos de Amor”), dando vida ao namorado de Fulaninha, que forma uma ótima segunda dupla cômica com Nathalia.

Essa peça foi escrita por Noemi Marinho (de “Solteira, Casada, Viúva, Divorciada”) e ganhou sua primeira montagem em 1990, com Aracy Balabanian e Louise Cardoso nos papéis principais. A nova montagem tem assinatura do diretor Daniel Herz (de “Tudo O Que Há Flora”) e mantém as marcas temporais do texto original – como a ausência de celulares, a referência a um BIP (pager) e até a opção por um telefone de fio como objeto cenográfico. Na história, Fulaninha, a personagem de Nathalia, nunca usou um telefone até chegar à casa da patroa e tem medo do aparelho quando ele toca, como se fosse um animal. Detalhes assim sinalizam gradualmente para o espectador que a peça não se passa nos dias de hoje, mas os conflitos femininos vividos ali não são muito diferentes dos atuais. A relação chefe-empregado, a amizade dada a convivência, a reivindicação por direitos trabalhistas, a exploração, a carência, os relacionamentos amorosos: tudo é muito reconhecível e fácil de se identificar.

A direção de Daniel Herz valoriza o humor do texto, com marcações por vezes quase coreográficas, plenas de teatralidade. A montagem é muito simples e funcional. O cenário de Fernando Mello da Costa traz pares de persianas, que ficam ao fundo do palco, e uma suporte colorido com gavetas, sobre o qual fica o telefone – objeto importante na dramaturgia. Nada mais. A maior parte da ação se dá na sala do apartamento mas, unidas a direção e o jogo de luzes de Renato Machado, ela pode ser transferida para outras dependências, como o quartinho de empregada e o banheiro de serviço. Os figurinos de Clívia Cohen mantêm a proposta do reforço da teatralidade, são criativos e estabelecem um código de cumplicidade com o espectador no faz-de-conta. É um espetáculo bastante redondo, uma comédia capaz de divertir e ao mesmo tempo alfinetar a plateia.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha Técnica:
Texto: Noemi Marinho
Elenco: Nathalia Dill, Vilma Melo e Tiago Herz
*Do dia 24/01 até 10/02, o papel de Fulaninha será interpretado pela atriz Claudia Ventura.
Direção: Daniel Herz
Idealização e produção: Eduardo Barata
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Clívia Cohen
Iluminação: Renato Machado
Trilha sonora original: Leandro Castilho
Direção de produção: Elaine Moreira
Produção executiva e diretor de palco: Tom Pires
Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação – Julie Duarte

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 40. 70 min. Classificação: 12 anos. De 11 de janeiro até 10 de fevereiro. Teatro Firjan SESI Centro – Avenida Graça Aranha, 1 – Centro. Tel: 2563-4164.

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