Crítica

Crítica: Galáxias I – Todo Esse Céu É um Deserto de Corações Pulverizados

“Galáxias I: Todo Esse Céu É um Deserto de Corações Pulverizados” – ou simplesmente “Galáxias I”, para facilitar – é o terceiro espetáculo da Polifônica Cia., fundada pelo dramaturgo e diretor Luiz Felipe Reis e pela atriz Julia Lund. Os outros trabalhos da dupla foram “Estamos Indo Embora…” (2015) e “Amor em Dois Atos” (2016). Em comum, o intercâmbio e integração entre diferentes linguagens. O novo “Galáxias I” traz três atores em cena, três músicos, projeções de vídeos e textos, transmissão ao vivo ao estilo webcam e inspiração em um livro argentino. Obviamente, o formato é algo muito importante para a cia. teatral, e o resultado é mesmo uma concepção muito interessante e atraente, porém não é só a forma que é polifônica. O conteúdo também.

(Foto: Leo Aversa)

A peça trata de crise existencial e busca por um sentido da vida – seja individual ou coletivo – diante de uma profunda insatisfação com o que se vive. A história alterna dois fios condutores interligados: os relatos de um professor-pesquisador em cartas para sua irmã, tentando decifrar uma suposta mensagem do sistema solar para os terráqueos, e a rotina de um casal de irmãos dentro de um apartamento, impactados pela herança desse professor, que se suicidou e deixou uma mala com documentos para eles desvendarem a causa. Mergulhado neste material, o irmão engata em uma viagem de que, na verdade, a espécie humana não descendeu dos macacos e sim dos pássaros (teoria apresentada no livro “Los Electrocutados”, do escritor argentino J.P. Zooey, inspiração para a dramaturgia). Ele não sai mais do apartamento. Já a irmã, atriz, sempre volta da rua com reclamações e decepções com o rumo da carreira, da cidade e da vida. Em uma cena, ela entra com a fantasia de leão (os figurinos são todos de Luiza Mitidieri) que teve que usar em uma publicidade deplorável.

O texto mirabolante se sustenta a maior parte do tempo. A temática existencial – de onde viemos e para onde vamos – é universal e une os eixos narrativos e seus personagens, contudo o atravessamento pela especificidade da crise da arte na cidade resulta desencontrado, por mais compreensível que seja a vontade dos artistas de tratarem dessa questão no espetáculo. Isso não prejudica o desempenho de Julia Lund, que faz essa irmã atriz, com cenas grandiosas, raramente pecando pelo excesso. O elenco é completado por Leo Wainer (de “Kiss Me, Kate”), o professor suicida, que aparece para o público majoritariamente através de sua imagem ampliada pela câmera, e por Ciro Sales (de “Match”), o irmão atormentado, resultado da melhor atuação deste ator nos últimos anos. Ciro e Julia, além de estarem em cena, também assinam como colaboradores da dramaturgia, ao lado da co-diretora Fernanda Bond.

A concepção cênica fundamenta-se no hibridismo tecnológico. O espaço é entremeado por duas telas, onde são exibidos vídeos e textos complementares. Além disso, há uma banda no lado direito, formada por Pedro Sodré, Rogério da Costa Jr. e Rudah, promovendo um ótimo concerto. A trilha sonora usa sonoplastia gravada e execução ao vivo pelos músicos. Existe toda uma questão entre o orgânico e o artificial no espetáculo: a dramaturgia também reflete sobre o homem-máquina (o ciborgue), que seria o futuro da humanidade. O cenário de Julio Parente e Luiz Felipe Reis é construído de maneira que se amplie (para as projeções) justamente quando se fecha (a cortina). A iluminação é assinada por Corja e perfeitamente integrada à cena, colorindo e criando quadros diferentes – pode mesmo ser chamada de instalação. São bastantes elementos para a direção orquestrar e tudo se encaixa. “Galáxias I” é um importante espetáculo da temporada.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Leo Aversa)

Ficha técnica
Direção e dramaturgia: Luiz Felipe Reis
Codireção: Fernanda Bond
Atuação: Ciro Sales, Julia Lund e Leo Wainer
Textos originais: J. P. Zooey (cenas inspiradas nas obras “Sol artificial”, “Os eletrocutados” e “Floresceram os neons”) e Luiz Felipe Reis.
Colaboração dramatúrgica: Ciro Sales, Fernanda Bond e Julia Lund
Tradução e adaptação dos originais de J. P. Zooey: Luiz Felipe Reis
Tradução adicional: Lucas van Hombeeck
Cenário: Julio Parente e Luiz Felipe Reis
Projeções e luz: Corja
Direção musical: Pedro Sodré
Composição, produção musical e banda: Pedro Sodré, Rogério da Costa Jr. e Rudah
Figurino: Luiza Mitidieri
Design gráfico: Bruno Drolshagen
Colaboração em vídeo: Gabriela Gaia Meirelles e Frederico Santiago
Produção de arte e mídias sociais: Luli Carvalho
Hair stylist: Neandro
Make: Fernanda Costa
Cenotécnico: Neném
Registro videográfico da peça: Chamon Audiovisual
Direção de produção: Sérgio Saboya (Galharufa Produções)
Produção executiva: Carin Louro
Idealização, coprodução e realização: Julia Lund e Luiz Felipe Reis (Polifônica Cia.)
Correalização: Galpão Gamboa
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30 (ou R$ 7,50). 100 min. Classificação: 14 anos. Até 2 de dezembro. Sesc Copacabana – Mezanino – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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