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Crítica: Galileu Galilei – Teatro João Caetano

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Sucesso de passagem pelo Rio de Janeiro, o espetáculo “Galileu Galilei” resgata a essência do teatro em cativar o público – algo que muitas produções têm deixado de lado ultimamente. A preocupação com a plateia é percebida desde a entrada no teatro até o fim da encenação, dirigida por Cibele Forjaz (de “Na Selva das Cidades”). Denise Fraga (de “A Alma Boa de Setsuan”), protagonista da montagem, e todo o elenco recebem os espectadores na porta, distribuindo o programa, cantando e tocando instrumentos. Se a primeira impressão é a que fica, a experiência começa com o pé direito. E é necessário, mesmo: “Galileu Galilei” é uma peça sobre ciência, sobre a biografia de um cientista, e esses não costumam ser temas de apelo popular. Mas o resultado não podia ser mais… popular e palatável. A todo momento, o elenco surge com algo novo para segurar a atenção do público. Em determinada parte, tudo vira um grande Carnaval e a letra da marchinha é distribuída com o convite para que a plateia cante junto. Uma festa.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

“Galileu Galilei” é um texto do alemão Bertolt Brecht (1898-1956), que conta como o cientista italiano descobriu que o sol não girava em torno da Terra e sim o oposto, contrariando a Igreja Católica. Perseguido pela Inquisição, ele teve que negar a verdade para não ir para a fogueira, desapontando seus discípulos por medo de morrer. Os diálogos são riquíssimos. Qualquer expectativa de incompreensão, pela ciência como pano de fundo, é derrubada muito rapidamente. Como o protagonista defende, o conhecimento tem que ser compreensível a todos, com linguagem acessível. O texto de Brecht tem diálogos inesquecíveis. Um deles é a parte em que, decepcionado por Galileu ter negado publicamente suas descobertas em prol do teocentrismo, o discípulo resmunga que uma terra sem heróis é desgraçada. Galileu responde: “Não. Desgraçada é a terra que precisa de heróis”. Com muito humor, o espetáculo é todinho uma incitação a reflexões e questionamentos, que se leva para casa – e para a vida.

São dez atores no elenco, com Denise Fraga no papel do cientista. A escalação, improvável, é também muito brechitana, no sentido de quebrar com a ilusão teatral. Ao longo da encenação, a atriz retira a peruca e mostra os enchimentos na barriga, transformando-se em narradora e comentarista, e não deixando o público esquecer que é uma mulher a interpretar Galileu. Mas, quando ela está dentro do personagem, é absolutamente crível. Denise faz um trabalho primoroso: qualquer elogio é pouco. Todo o elenco, que tem ainda Ary França (de “Esperando Godot”), defende muito bem o texto e a montagem. Parecem uma companhia de tão unidos, em sintonia, por um bem comum, com sede de fazer a experiência dar certo.

Na concepção da montagem, o cenário traz uma área circular dianteira, que deixa o palco mais próximo da plateia. Cibele Forjaz também coloca os atores para transitar entre os corredores, cercando o público. A cenografia em si trabalha muito em parceria com acessórios dos figurinos e iluminação, que enchem o espaço e transformam o ambiente tão facilmente quanto rapidamente. Há momentos também em que a coxia invade a cena, o que deixaria Brecht contente. Quanto aos figurinos, o mesmo conceito é usado: como dito, os atores se montam e desmontam aos olhos do espectador.

Um problema da peça é sua duração de quase 2h30 sem intervalo. Não dá para dizer que não se sente o tempo passar. Há casos em que realmente não se sente, mas esse não é um deles. O texto é divertido, mas pesado também, e o público sente. Apesar dos esforços reconhecidos da produção para entreter, chega um momento em que tudo se torna cansativo, mesmo. Mas esse desconforto só chega lá para a reta final, então não causa má impressão. “Galileu Galilei” é daqueles espetáculos que você recomenda para os amigos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: João Caldas/Divulgação)

(Foto: João Caldas/Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Bertolt Brecht
Elenco: Denise Fraga, Ary França, Lúcia Romano, Théo Werneck, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luís Mármora, Silvio Restiffe e Daniel Warren
Direção: Cibele Forjaz
Trilha Sonora: Lincoln Antônio e Théo Werneck
Cenografia: Márcio Medina
Figurinista: Marina Reis
Iluminação: Wagner Antônio
Produção Executiva: Lili Almeida
Direção de Produção: José Maria

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h30; dom, 17h30. R$ 30. 130 min. Classificação: 12 anos. Até 17 de julho. Teatro João Caetano – Praça Tiradentes, s/n – Centro. Tel: 2332-9166.

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