“Gisberta”, título do monólogo apresentado por Luis Lobianco (de “Buraco da Lacraia Cabaré on Ice”), é também o nome de uma travesti brasileira assassinada cruelmente em Portugal. O espetáculo é baseado nessa biografia real. Gisberta, a vítima da vida real, não é uma figura amplamente conhecida – tampouco é sua história – o que indica muito da transfobia socialmente instituída, e que culmina em falta de políticas LGBTQ adequadas. O homicídio de Gisberta aconteceu em 2006 em Portugal, mas o país que mais mata travestis e transexuais no mundo é o Brasil. Gisberta é uma em milhares, portanto, em dados que só cresceram na última década. Contar sua história é também uma maneira de fazer justiça – tardia, mas necessária – e combater intolerâncias.

(Foto: Elisa Mendes)

É interessante dizer que Luis Lobianco, acompanhado por três músicos no palco, não interpreta Gisberta em nenhum momento da encenação. Ele se dirige diretamente ao público, ora como ele mesmo, ora como os personagens que rondearam a vida da travesti, que era cantora e fez shows em São Paulo e no Porto. É um relato a partir das perspectivas de terceiros, o que, pensando bem, coopera para a não glamorização da trama: Gisberta, de fato, nunca teve voz. O T do LGBT é costumeiramente calado e inferiorizado, inclusive por gays, lésbicas e bissexuais – como a dramaturgia aborda em determinada cena. O texto de Rafael Souza-Ribeiro (de “Isopor”) é brilhante: começa com humor, gera empatia, cria laços com a plateia, e no fim é um soco no estômago. O espectador bem informado sabe que a protagonista morre no fim, mas a informação prévia não abranda o relato das crueldades pelas quais essa mulher trans passou no fim da vida, com depressão, AIDS, desabrigo e violência que caracteriza crime de ódio. Difícil não sair tocado do teatro.

A montagem de Renato Carrera (de “2 x Nelson”) aposta na força do texto e na ótima condução do ator, com alguns inúmeros musicais executados ao vivo entre um relato e outro. A trilha sonora de Lúcio Zaldonati ajuda a construir o imaginário sobre Gisberta. Por sua vez, o cenário branco de Mina Quental traz três cabines, uma para cada instrumentista e degraus centrais – que ganham cor e vida com a iluminação de Renato Machado, responsável pela estética do espetáculo. O figurino, de Gilda Midani, é simples, inespecífico e varia entre o branco da cenografia e o bege – poderia ser um malefício se Lobianco não estivesse tão bem em cena. O ator conquista o público com facilidade e consegue demarcar bem as diferentes personagens da narrativa. Não deixa a dever nem no humor nem no drama. Sabe exatamente o que está fazendo.

“Gisberta” resulta em um belíssimo e necessário espetáculo, que trata do T do LGBT – tão em voga na cena teatral – de maneira ímpar. Com sagacidade, aponta o dedo para os preconceitos que os espectadores possam ter, aconselha sem didatismo patético, e mostra as consequências sociais da transfobia. É uma peça para sair indicando por aí.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Elisa Mendes)

Ficha técnica
Atuação: Luis Lobianco
Texto: Rafael Souza-Ribeiro
Direção: Renato Carrera
Direção de Produção: Claudia Marques
Músicos em Cena: Lúcio Zandonadi (piano e voz), Danielly Sousa (flauta e voz), Rafael Bezerra (clarineta e voz)
Pesquisa Dramatúrgica: Luis Lobianco, Renato Carrera e Rafael Souza-Ribeiro
Investigação: Luis Lobianco e Rafael Souza-Ribeiro
Trilha Sonora e músicas compostas: Lúcio Zandonati
Iluminação: Renato Machado
Cenário: Mina Quental
Figurino: Gilda Midani
Preparação Vocal: Simone Mazzer
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos de divulgação: Elisa Mendes
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Produção: Fabrica de Eventos
Idealização: Luis Lobianco
Apoio Institucional: Banco do Brasil

_____
SERVIÇO: sex a dom, 19h30. R$ 40. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 2 de julho. Teatro Dulcina – Rua Alcindo Guanabara, 17 – Centro. Tel: 2240-4879.

Comentários

comments

Share: