Miguel Falabella é Deus no palco. Não, não é uma maneira hiperbólica de falar. Em seu novo espetáculo, a comédia “God”, ele realmente interpreta o todo poderoso. O espetáculo, que já fez turnê pelo país, é uma importação da Broadway – onde o personagem principal já foi feito por Jim Parsons (premiado no Globo de Ouro pela série “The Big Bang Theory”) e Sean Hayes (vencedor do Emmy pela série “Will & Grace”). Por aqui, manteve-se o título em inglês, mas foram feitas algumas adaptações para comunicação direta com a plateia brasileira. A versão e a direção são do próprio Miguel, com co-direção de Fernanda Chamma (de “Ah, Se Eu Fosse Bob Fosse”).

(Foto: Divulgação)

O original “An Act of God”, estreado em 2015, é um texto de David Adam Javerbaum, que foi roteirista do talk show de David Latterman e atualmente escreve para o do James Corden. Vencedor de 13 Emmys, sempre por trabalhos cômicos, Javerbaum é estreante como dramaturgo: a peça, na verdade, nada mais é do que uma adaptação de seu livro “The Last Testament: A Memoir”, publicado três anos antes. No espetáculo, Deus se apropria do corpo de um ator famoso para se dirigir à sociedade e anunciar uma atualização dos “Dez Mandamentos”. A estrutura, então, é essa: a cada novo mandamento informado, ele tece comentários, com contextualizações, fundamentos e desmentidas de histórias milenares do catolicismo. Um dos mandamentos, por exemplo, prega que Deus não se importa com quem as pessoas transam – um posicionamento contra a homofobia. Neste segmento, Deus diz que Eva, na verdade, era Jefferson – um colega criado para que Adão não ficasse sozinho. Os dois transavam felizes e sem culpa até que a serpente os fez se sentirem pecaminosos. Deus, então, submeteu Jefferson a uma cirurgia de redesignação sexual (o que quer dizer que Eva, portanto, é uma mulher trans). Baseada nesse tipo de subversão, a dramaturgia acontece – no geral cheio de piadinhas de pouca graça.

A plateia adora assistir a Miguel Falabela, que por vezes faz lembrar Caco Antibes, seu personagem metido à besta do seriado de TV “Sai de Baixo” (1996-2002), mas o riso é contido durante todo o espetáculo. Não há nada que seja de verdade muito engraçado. Quando causa alguma graça, “God” apela para o riso fácil, por exemplo, quando Miguel Falabella imita um gay afeminado para se referir a um anjo “bicha”. É um tanto incômodo ver isso em 2017. Ao mesmo tempo que combate a discriminação com um dos novos mandamentos, a peça discrimina um gay não heteronormativo: se perde. Problemático, o texto lá para o meio já se arrasta e, em seu encerramento, não foge ao piegas. O ritmo impresso pela direção corrobora todos os equívocos da dramaturgia.

Ainda que tudo gire em torno de Deus (dã!), “God” não é um monólogo. No palco, o protagonista contracena com dois atores: Elder Gattely (de “Metamorphosis”) e Magno Bandarz (de “O Que o Mordomo Viu”), respectivamente os anjos Gabriel e Miguel, uma espécie de figuração de luxo que não se justifica. Há ainda simulações de interações com os espectadores – todas nitidamente fakes e dispensáveis. Parecem subestimar a inteligência do público. De longe, esse é o pior trabalho de Miguel Falabella nos últimos anos.

A montagem brasileira respeita os moldes americanos. O cenário, aqui assinado por Marco Pacheco, segue a estrutura das montagens na Broadway: um sofá e uma escada brancas centrais, com um um círculo grande para projeções ao fundo. Quando o público entra no teatro, já vê a cenografia posta e um globo terrestre projetado bem em cima da escada. Dali, desce Deus. O cenário ajuda a contar a história, por conta da projeção dos mandamentos, contudo o espaço é pouco explorado pelos atores. Os figurinos (de Marco Pacheco) são originais: anjos de roupas pretas e asas acizentadas e Deus de terninho branco e gravata azul – mais próximo de uma figura mundana do que eclesiástica. A trilha sonora (de Leandro Lapagesse) também contorna a versão brasileira, com especificidades para esse público, e a iluminação (de Adriana Ortiz) mostra-se meramente reativa ao texto. Quando a luz por fim apaga, a sensação é que a encenação durou tempo demais.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: David Javerbaum
Versão Brasileira e direção: Miguel Falabella
Codireção: Fernanda Chamma
Produção Geral: Sandro Chaim
Cenário e Figurino: Marco Pacheco
Iluminação: Adriana Ortiz
Trilha Sonora: Leandro Lapagesse
Visagismo: Dicko Lourenço
Elenco: Miguel Falabella, Elder Gattely e Magno Bandarz
Voz em off Deus: Bruno Garcia
Transportadora Oficial: Avianca
Promoção: Globo
Realização: Aveia Cômica e Chaim Produções
Assessoria de Imprensa: Mattoni Comunicação

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 18h. 90 min. R$ 50 (balcão) até R$ 150 (plateia vip). Classificação: 12 anos. Até 29 de outubro. Oi Casa Grande – Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.

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