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Crítica: Gota D’Água [a seco] – Theatro Net Rio

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Em comemoração aos 40 anos do musical brasileiro “Gota D’Água”, escrito em verso, a atriz Laila Garin (de “Elis, a Musical”) decidiu revisitar a obra de Chico Buarque e Paulo Pontes, de maneira compacta. Chamou o diretor Rafael Gomes (de “Um Bonde Chamado Desejo”) para uma adaptação do espetáculo para apenas dois atores – ela e Alejandro Claveaux (de “Clandestinos”), nos papéis de Joana e Jasão. Virou, então, “Gota D’Água [a seco]”, um espetáculo novo, que tirou de cena 13 personagens. Além disso, as quase três horas da montagem original foram reduzidas para cerca de 1h30 no “[a seco]”, que, para inovar mais, ainda incluiu outras canções do repertório do Chico Buarque na boca dos protagonistas.

(Foto: Ricardo Brajterman)

(Foto: Ricardo Brajterman)

O público conhece o casal Joana e Jasão quando se dá sua separação. Jasão se torna um sambista famoso, com a ajuda do empresário milionário Creonte, e decide abandonar a esposa e os dois filhos para se casar com a filha do seu mecenas. Joana, por sua vez, continua morando no conjunto habitacional Vila do Meio-Dia, onde o locador da maioria das casas, não por acaso, é o próprio Creonte. Desenvolvendo uma fossa obsessiva, com a vida estagnada sem Jasão, ela repassa o relacionamento deles, tenta entender como se deu a ruptura e amaldiçoa o novo casamento do ex. Tomada pelo ódio, Joana também organiza um protesto dos moradores para não pagarem o aluguel, mirando Creonte para (inconscientemente, talvez) atingir (chamar atenção do) Jasão. A dramaturgia é inspirada na tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes, na qual a personagem-título arma uma vingança maligna contra o infiel.

Em “Gota D’Água [a seco]”, a trama começa com o contraste de Jasão curtindo a fama repentina e Joana amargurada entre lençóis. O início é um pouco confuso para a plateia, inclusive com relação às primeiras citações vagas a Creonte, em especial para quem nunca viu ou leu “Gota D’Água” ou “Medeia”. Mas, com o desenrolar das cenas, essa questão é solucionada e o público passa a sentir a dor de Joana. A construção da personagem, a cada fala, movimento e canção, cria empatia com a plateia. Laila Garin, mais uma vez, faz um trabalho impecável, denso e profundo. Que atriz! É possível identificar a loucura de Joana e também refletir-se nela. Quem nunca foi abandonado e ficou remoendo a história por mais tempo do que o dito normal? Ela primeiro cria esse laço de afinidade com a plateia para, depois, quebrá-lo com seu descontrole. Cena a cena, vê-se uma mulher ir ladeira abaixo. Em sua razão, ela perde a razão.

Nesta montagem, a concepção cênica é toda conceitual. O cenário de André Cortez é composto por dezenas de galões d’água e várias estruturas de ferro, com rodinhas, formando diferentes desenhos ao longo da encenação. Dá uma sensação de aprisionamento para os personagens mergulhados em suas angústias, subindo, descendo e se enroscando naqueles ferros. Os figurinos de Kika Lopes são mais complexos para Joana, vestindo cor-de-pele, alternando um sobrepeso. Jasão varia entre estampas militares mais cotidianas. Ambos semidescalços. Há esse contraste entre o simples e o confuso. Tudo completado pela iluminação de Wagner Antônio, apostando em penumbra e meia-luz.

Como dito, o “[a seco]” incluiu novas músicas – entre elas “Eu Te Amo” e “Cálice”, um momento bem impressionante. Laila e Alejandro têm uma divisão equilibrada de canções, mas são os solos dela que arrebatam, pela paixão e intensidade da personagem. Alguns números são mesmo doídos: sofre-se junto. No fundo do palco, cinco instrumentistas acompanham os atores, com direção musical de Pedro Luís (de “Inutilezas”). Na sessão vista, nas primeiras entradas, o som da banda estava mais alto que o microfone dos atores, comprometendo a compreensão de determinados versos, mas depois esse obstáculo foi superado. O canto de Alejandro e Laila engrandecem imensamente o espetáculo, que é belíssimo. Nesse cenário de ascensão (e multiplicação) dos musicais no país, é prazeroso ver algo fora da curva como “Gota D’Água”.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Ricardo Brajterman)

(Foto: Ricardo Brajterman)

Ficha técnica
De Chico Buarque e Paulo Pontes
Adaptação e direção: Rafael Gomes
Elenco: Laila Garin e Alejandro Claveaux
Músicos: Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira
Direção Musical: Pedro Luís
Cenografia: André Cortez
Iluminação: Wagner Antônio
Figurinos: Kika Lopes
Direção de Produção: Andréa Alves
Design de som: Gabriel D’Angelo
Preparação e arranjos vocais: Marcelo Rodolfo e Adriana Piccolo
Direção de movimento: Fabrício Licursi
1º assistente de direção: Fabrício Licursi
2º assistente de direção: Daniel Carvalho Faria
Assistente de direção musical: Antônia Adnet
Assistente de cenografia: Rodrigo Abreu
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Monna Carneiro
Marketing Cultural: Ghéu Tibério

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50 a R$ 150. 90 min. Classificação: 14 anos. De Até 26 de junho. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143, 2º piso – Copacabana. Tel: 2147-8060.

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