Crítica

Crítica: Grande Sertão: Veredas

“Grande Sertão: Veredas”, o espetáculo de Bia Lessa (de “Medéia”), é uma experiência vivida pelo espectador desde que ele pisa no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade. A instalação criada pela diretora, com andaimes e bonecos de feltro em tamanho humano, ocupa todo o saguão principal do local – bem na frente do Teatro I. Modifica totalmente a dinâmica de trânsito do espaço. Além disso, o interessante é que, durante o dia, o cenário/instalação de dois andares fica exposto ao grande público, como uma obra independente.

(Foto: Roberto Pontes)

O trabalho de Bia Lessa é essencialmente híbrido. Baseado na obra literária de Guimarães Rosa (1908-1967), é teatro, artes plásticas e também um pouco de cinema. O público é disposto dentro dessa estrutura de andaime, contornando uma arena em forma de retângulo. Com isso, o espectador assiste à atuação de 2h40 através de molduras de ferro – enquadramentos. Todo mundo também ganha fones de ouvido, que cria camadas de sons – as falas dos atores, a trilha sonora e os ruídos da ambientação. O desenho de som é de Fernando Henna e Daniel Turini. A artificilidade de ver o elenco muito próximo de si mas ouvi-lo por meio do fone é esquisita no início, mas logo se acostuma e o dispositivo se torna algo interessante. Pode-se tirá-lo a qualquer momento para se comprovar que se perde parte do conteúdo. Apesar de todos esses artefatos, a encenação é muito orgânica. O desempenho dos atores é energético, feroz, e exige um verdadeiro preparo físico. O espetáculo é todo concebido em torno do corpo dos artistas, às vezes nus.

O intuito da direção, declarado em entrevistas diversas, é diluir a ideia e início e fim, com uma obra ininterrupta, como o próprio ideal de uma instalação. As cenas são construídas norteadas por esse conceito: o mesmo ator, de um segundo para outro, vira outro personagem, em outra situação. Morreu, levantou, é outro. O elenco raramente se ausenta do olhar da plateia. Como espectador, sente-se uma mosquinha muito próxima dos acontecimentos. Todos atores interpretam vários personagens, com única exceção de Caio Blat (de “A Tragédia Latino-Americana”), excelente como o jagunço Riobaldo. Seu trabalho é bom no nível de Matheus Nachtergaele (de “Processo de Conscerto do Desejo”) como João Grilo em “O Auto da Compadecida”. Envolvente e cativante. Riobaldo é dividido entre Caio e Luisa Arraes (de “Santa Joana dos Matadouros”), uma atriz nunca decepcionante e mais uma vez surpreendente. Ela dá conta do personagem na infância, parte das idas e vindas da história. O elenco traz mais sete nomes: Balbino de Paula, Clara Lessa, Daniel Passi (de “O Processo”), Elias de Castro (de “Amor e Restos Humanos”), Leonardo Miggiorin (de “Godspell”), Leon Góes (de “Ensaio Alice”) e Luíza Lemmertz (de “Nossa Cidade”), esta última como Diadorim. Eles alternam-se entre humanos e animais, em expressão oral e corporal, contribuindo para a construção do imaginário do sertão.

O romance regionalista “Grande Sertão: Veredas” é uma dos mais relevantes da literatura nacional. Foi publicado em 1956, com mais de 600 páginas, dispensando a divisão em capítulos. Ele conta a história de Riobaldo a partir de sua narrativa sobre inquietações, lutas, medos e incoerências como jovem jagunço no sertão, onde viveu um amor reprimido pelo parceiro Reinaldo/Diadorim, que ele não sabia ser uma mulher disfarçada entre os homens. A trama já foi adaptada para cinema, televisão, ópera e quadrinhos.

Respeitando o poder da imaginação intrínseco à leitura de um livro, o espetáculo entrega estímulos – como os sons nos fones de ouvido. A instalação é uma grande parafernália que não define nada. Os figurinos, assinados por Sylvie Leblanc, tampouco traçam contornos para os personagens: são todos pretos e desterritorializados. Tem apenas um ar de jagunço. Esteticamente, o espetáculo só ganha cores quando os atores se despem. Do mesmo modo que eles buscam ações para o que não está determinado no texto original, o espectador tem que completar o que lhe é apresentado, de diferentes maneiras.

São, sem dúvida, uma adaptação e uma montagem interessantes, que não percorrem caminhos óbvios ou fáceis. A concepção cênica é ousada e arriscada. Em alguns momentos, parece que falta um pouco de foco, com tanta gente à vista desnecessariamente, desviando atenção da ação principal. A iluminação, também da diretora, não direciona para os enquadramentos. Há algo de propositalmente caótico, como no livro, e todas as experimentações de linguagem não tornam o resultado menos cansativo apesar de instigante. Acredito que, para quem não leu “Grande Sertões: Veredas”, o espetáculo não seja indicado como primeiro contato com a história. As subversões cênicas podem tornar a narrativa menos clara para quem não conhece a trama. Em contrapartida, os leitores do livro ganham uma nova perspectiva com a encenação.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Roberto Pontes)

Ficha técnica
Concepção, Direção Geral, Adaptação e Desenho de Luz – Bia Lessa
Elenco – Balbino de Paula, Caio Blat, Clara Lessa, Daniel Passi, Elias de Castro, Luíza Lemmertz, Leonardo Miggiorin, Leon Góes e Luísa Arraes.
Concepção Espacial – Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha
Música – Egbert Gismonti
Colaboração – Dany Roland
Desenho de Som – Fernando Henna e Daniel Turini
Adereços – Fernando Mello Da Costa
Figurino – Sylvie Leblanc
Desenho de Luz – Binho Schaefer
Projeto de Audio – Marcio Pilot
Diretor Assistente: Bruno Siniscalchi
Assistente de Direção: Amália Lima
Direção Executiva: Maria Duarte
Produtor Executivo: Arlindo Hartz
Colaboração – Flora Sussekind, Marília Rothier, Silviano Santiago, Ana Luiza Martins Costa, Roberto Machado
Idealização: 2+3 Produções Artísticas Ltda
Realização: Sesc, Ministério da Cultura, Lei de Incentivo à Cultura.
Patrocínio Master: Banco do Brasil
Patrocínio: Globosat.
Apoio: Instituto-E

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SERVIÇO: qua a dom, 21h. R$ 20. 140 min. Classificação: 18 anos. Até 31 de março. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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