Crítica

Crítica: Hamlet Candidato

(Foto: Renato Mangolin)

“Hamlet Candidato”, espetáculo mais recente do Ateliê Alexandre Mello, utiliza da metalinguagem para resgatar a obra de Shakespeare como elemento dramatúrgico para a reflexão sobre o panorama político contemporâneo e o lugar do artista em um sistema disposto a sufocá-lo. A peça, escrita por Cecilia Ripoll (de “Rose”), preza pela pluralidade de vozes, perpassando por diversas questões sociais, às vezes com discursos piegas, mas em geral abordagens bem pontuadas.

O espetáculo, dirigido por Alexandre Mello (de “Um dia Qualquer”), começa com atores (personagens) agradecendo os aplausos do público ao fim da estreia de uma montagem de “Hamlet”. Ao término da convenção, o diretor revela ter detestado a apresentação – sobretudo a atuação do protagonista – e exige que todos permaneçam no teatro para ensaiarem de novo imediatamente. É um início instigante: o público é surpreendido pela cena que espera ver ao fim da noite. Além de serem atores interpretando atores, é um diretor interpretando um diretor, e um teatro significando um teatro. A metalinguagem levada ao extremo instiga. O personagem diretor propõe também que todos coloquem seus celulares dentro de uma caixa, o que os obriga a se encararem – e se enfrentarem em temas como corrupção, trapaças, desconfianças, intrigas, injustiças, poder, censura, opressão, preconceito religioso e estado laico.

A peça de Cecilia Ripoll não é uma adaptação de “Hamlet”. Usa a tragédia como pano de fundo e ponto de partida, dialogando com ela. Ser apresentada em um teatro de arena reforça seu enfoque no levantamento de debates e reflexões. O elenco de 14 atores, representativo de vários segmentos da sociedade, acentua esse caráter. Sobre o elenco, aliás, é importante destacar sua habilidade musical. Um dos pontos altos do espetáculo é a trilha sonora de Marcello H., cantada em coro pelos atores, com músicas em hip-hop, samba e funk, que engrandecem o discurso. Natalie Smith, Yuri Farage (de “Quatro Janelas Para o Paraíso”), Thais Szapiro, Suellen Elleres, João Faria e Debora Salem (de “Por Que Nem Todos Os Dias São Dias de Sol?”) são destaques do elenco, com construções mais densas. Alguns atores demonstram-se inseguros com o texto, gaguejando-o.

O cenário de Julia Deccache sublinha a resistência do grupo teatral, que busca apresentar um trabalho digno dentro de suas limitações. A cenografia é marcada por um tapete de pôsteres de trabalhos anteriores da companhia. Os figurinos de Ticiana Passos contrastam a realidade e a ficção, roupas dos atores-personagens e figurinos dos personagens-dos-atores-personagens, colaborando na construção do imaginário de bastidores de um espetáculo. A luz de Renato Machado segue a mesma linha. “Hamlet Candidato” é um espetáculo bastante interessante. Merece ser visto.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Renato Mangolin)

Ficha técnica

Texto: Cecilia Ripoll

Direção: Alexandre Mello

Direção de produção: Rogério Garcia

Diretora assistente: Isabella Lomez

Assistente de direção: Lucas Sereda

Produção Executiva: Gabriel Garcia

Cenografia: Julia Deccache

Iluminação: Renato Machado

Trilha sonora: Marcello H

Programação visual: Raquel Alvarenga

Figurinos: Ticiana Passos

Assessoria de imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha

Visagísmo: Diego Nardes

Costureira de cenário: Nice Tramontin

Elenco: Alexandre Mello, Debora Salem, Edson Zille, Elaine Cury, Merilyn Bernstorff, Thaissa Szapiro, Natalie Smith, Yuri Farage, Rodrigo Ferraro, Pedro Cesar Lima, Renan Rosselini, Osvaldo Novais, João Faria, Suellen Elleres

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 90 min. Classificação: 16 anos. Até 2 de junho. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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