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Crítica: Hamlet – Processo de Revelação – CCBB

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“Hamlet – Processo de Revelação”, espetáculo do Coletivo Irmãos Guimarães (de “Nada – Uma Peça Para Manoel de Barros”) em parceria com o ator Emanuel Aragão (de “Horses Hotel”), que assina o texto, parte da premissa de que, para montar “Hamlet” mais uma vez, deve-se haver uma boa razão. Dramaturgia mundialmente mais estudada do britânico William Shakespeare (1564-1616), o texto é base de uma série de teorias e interpretações diversas. Emanuel, sozinho em cena, busca a sua própria, a partir do solilóquio popular “ser ou não ser, eis a questão”. Na primeira parte do espetáculo, ele conta ao público uma descoberta: após o “eis a questão” (que ele traduz como “a questão é a seguinte”), há dois pontos, o que significa que a questão, então, não é “ser ou não ser”, mas o que vem depois. A peça se desenvolve a partir disso.

(Foto: Ismael Monticelli)

(Foto: Ismael Monticelli)

O “processo de revelação” do título poderia ser trocado por “processo de construção”, sem demérito. Em cena, Emanuel, meio ele, meio personagem, compartilha com os espectadores o desafio que é para um ator encenar Hamlet e dizer o “ser ou não ser”. É como se fosse uma aula de um bom professor, com o público podendo interagir a qualquer momento. Aqui, a iluminação de Dalton Camargos e Sarah Salgado compõe um ponto decisivo para a direção: a luz da plateia também fica acesa, um convite para comentários, perguntas e intromissões a qualquer momento. Emanuel forja um espetáculo “sem roteiro”, totalmente aberto, dependente dessa interação, mas, na verdade, tem sim todo um trajeto a cumprir, para além dos improvisos esperados. O público o acompanha nessa jornada, desvendando o que Hamlet teria sentido em cada momento da dramaturgia de Shakepeare, para que o ator possa vivenciá-lo no palco. Por vezes, fala-se de Hamlet como se fosse um ser humano de verdade, e não um personagem.

Diz-se que o espetáculo não tem uma duração pré-determinada, podendo ir de 1h30 a 3h dependendo da plateia. A sessão aqui assistida durou 2h30, com uma interrupção especial do diretor Aderbal Freire-Filho (de “Incêndios”), presente entre os espectadores. Em dado momento, ele não se aguentou e disse que “os dois pontos” após o “ser ou não ser” não são de Shakespeare, e sim do ator. Ele ressaltou que não há nenhum manuscrito do próprio dramaturgo, e portanto não há pontuação para ser descoberta, revelada, analisada. Tudo é reprodução de terceiros. Isso, obviamente, punha por terra toda a base da peça, mas ele elogiou a montagem, afirmando que Emanuel “shakespearizou” os dois pontos, e isso era interessante. Para o público, foi um privilégio presenciar o confronto de ideias, como um debate. Emanuel assumiu que “shakespearizou muita coisa” e prosseguiu, com neologismo guardado no bolso. Então, por mais que ele esteja, sim, encenando e conduzindo o público para uma conversa de consequências pré-determinadas, ele também pode ter surpresas de todo tipo. É ficção analisando ficção, então há certas liberdades.

O encantador é a maneira como o ator-dramaturgo consegue simular essa espontaneidade e naturalidade. Tudo colabora para tal, desde o figurino (de Ismael Monticelli e Liliane Rovaris), que é despojado e casual, até a luz na plateia. Fora, é claro, o talento do artista para passear entre os dois mundos. Hamlet é apresentado, de uma forma diferente, sob uma perspectiva própria, sem que o espectador nem sinta. Quando se dá conta, se passaram duas horas. Definitivamente, é um professor defendendo uma leitura em um aulão. O cenário, dos irmãos Guimarães com Ismael Monticelli, é composto por tijolos espalhados no chão – uma metáfora tanto à desconstrução de “Hamlet”, a peça, quanto da quarta parede, algo fundamental para a encenação. É certamente um espetáculo que vale a pena ser visto.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: Ismael Monticelli)

(Foto: Ismael Monticelli)

Ficha técnica
Dramaturgia: Emanuel Aragão
Direção: Adriano Guimarães / Fernando Guimarães
Elenco: Emanuel Aragão
Colaboração: Liliane Rovaris
Iluminação: Dalton Camargos / Sarah Salgado
Cenografia: Adriano Guimarães / Fernando Guimarães / Ismael Monticelli
Figurino: Ismael Monticelli / Liliane Rovaris –
Projeto Gráfico, site e fotografia: Ismael Monticelli
Direção técnica: Josenildo de Sousa
Assistência: Eduardo Jaime
Produção e administração: Quintal Producões | Veronica Prates

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SERVIÇO: qui a dom, 19h30. R$ 10. Classificação: 14 anos. Até 28 de fevereiro. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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