Crítica: Heisenberg – A Teoria da Incerteza – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Heisenberg – A Teoria da Incerteza

Bárbara Paz (de “Gata em Telhado de Zinco Quente”) e Everaldo Pontes (de “A Gaivota”) dão vida à peça “HEISENBERG – A Teoria da Incerteza”, escrita por Simon Stephens, dramaturgo britânico que já venceu o Tony e o Olivier, maiores prêmios teatrais dos Estados Unidos e da Inglaterra. A história gira em torno de uma mulher de meia-idade e um senhor, dois personagens solitários e esquisitões, que se conhecem em uma estação de trem e estabelecem algum tipo de relação a partir dali. O título do espetáculo é inspirado na teoria da física quântica, criada por Werner Heisenberg, que diz que “é possível medir a velocidade ou a posição das partículas subatômicas, mas nunca ao mesmo tempo”. Como não entendo nada de física e imagino que a maioria dos leitores também não, opto por deixar essa informação de lado. A peça é sobre envelhecimento, tempo, solidão e carência, eu diria.

(Foto: Caíque Cunha)

O texto de Simon Stephens não tem grandes acontecimentos e exige um olhar mais interessado do espectador. É uma peça sobre personagens: a cada cena, descobre-se algo mais ou descontrói-se o que se achava saber sobre essa mulher e esse homem. Os dois revelam suas questões pouco a pouco, a partir de ações sem sentido ou pouco críveis que dão a cara desse encontro desde o primeiro momento. Há uma bizarrice estabelecida, aceita e até bem vinda ali entre o casal. São duas pessoas socialmente esquecidas e invisíveis, que encontram no outro alguém que enxergue seus medos, decepções e principalmente a vontade de ser notado(a). O que vivem juntos não chega a ser exatamente interessante, mas cada passo é catalisador de uma revitalização que eles precisavam.

A montagem brasileira tem assinatura do diretor Guilherme Piva, o mesmo de “A Mulher Que Escreveu a Bíblia” e “Foi Você Quem Pediu Para Eu Contar a Minha História”. A concepção perde oportunidades criativas. A cada nova cena, o público é informado, de forma escrita e projetada no palco, o ambiente e o horário em que se passa aquilo. Por exemplo: “quarto, 23h15” – o que, em um roteiro escrito, é chamado de cabeçalho e, no palco, aparece como a materialização de tal. Ávido por algum sentido, o espectador naturalmente se agarra ao fiapo de dado lúcido. Essas instruções, mantidas do início ao fim, dão a impressão de uma direção preguiçosa, que estimula o mesmo na plateia. No geral, são indicações dispensáveis, porque as falas dos personagens ajudam a situar os pontos da história, assim como a iluminação de Beto Bruel. Há ainda a direção musical de Marcelo H., importante na concepção tanto dramatúrgica quanto cênica.

Fora isso, o cabeçalho é um elemento estranho na montagem que é elementar. Os atores se desenvolvem em torno de um banco longo, utilizado de diversas maneiras diferentes. Não existem muitos elementos cenográficos. O cenário conceitual criado por Sérgio Marimba conta com esse banco, cadeiras em encosto e placas vazadas penduradas – que em uma cena funcionam como carnes em um açougue. Fora de cena, mas no palco, também há uma arara de roupas: Bárbara Paz troca de figurinos (assinados por Antonio Rabadan, que acaba dando “a cara” do espetáculo) aos olhos do público entre uma cena e outra, enquanto o foco está no cabeçalho. A quem interessar possa, a atriz também deixa os seios à mostra em uma bela cena de sexo com Everaldo. Os dois atores são muito complementares no palco e conseguem prender a atenção da plateia, apesar dos entraves no caminho. Com atuação realista, protagonizam ações e reações mais ou menos incomuns com convicção. Bárbara Paz, que tem uma inclinação para tipos alucinados em seu repertório, tira de letra. É sempre divertido vê-la nesses papéis excêntricos.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Caíque Cunha)

Autor: Simon Stephens
Tradução e adaptação: Solange Badim
Direção: Guilherme Piva
Elenco: Barbara Paz e Everaldo Pontes
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Iluminação: Beto Bruel
Cenografia: Sérgio Marimba
Direção Musical: Marcelo H
Figurino: Antonio Rabadan
Programação visual: Cubículo
Assessoria de Imprensa: Daniela Cavalcanti
Coordenação Artística: Valencia Losada
Produção Executiva: Thiago Miyamoto
Assistente de Produção: Eduardo Alves
Direção Geral: Verônica Prates
Produção: Quintal Produções

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 70. 80 min. Classificação: 16 anos. Até 2 de setembro. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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