CríticaEspecial Festival de Curitiba

Crítica: Insetos

A Cia. dos Atores está comemorando seus 30 anos de formação em cena, com um espetáculo inédito, “Insetos”, dirigido por Rodrigo Portella – a nova sensação do teatro carioca, superpremiado por “Tom na Fazenda” (2017). O texto é de Jô Bilac, o mesmo de “Conselho de Classe” (2013), peça de muito prestígio no repertório da companhia. Em “Insetos”, o autor e os atores dão voz literalmente a insetos, com sua própria divisão de classes e seus próprios problemas políticos, que na verdade são uma grande anologia às questões da humanidade, sobretudo o panorama brasileiro.

(Foto: Elisa Mendes)

Cesar Augusto (de “Conselho de Classe”), Marcelo Olinto (de “Conselho de Classe”), Marcelo Valle (de “Como É Cruel Viver Assim”) e Susana Ribeiro (de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”), quatro fundadodres da Cia.dos Atores, formam o elenco do espetáculo. Quando o público entra na sala, eles já estão no palco, com anteninhas na cabeça e gestual que os distancia do humano. A preparação corporal de Andrea Jabor e a direção de Rodrigo Portella já chamam atenção e a encenação ainda nem começou. De imediato, nota-se também a articulada cenografia de Beli Araújo e Cesar Augusto, com pilhas de pneus que dão um aspecto underground ao espaço, e os figurinos de Olinto, que ficam entre o inseto e o humano, priorizando roupas mais ou menos comuns com adereços de asas e arcos, muitas vezes toscamente. Os figurinos não deixam dúvidas de que “Insetos” tem humor.

Com boas atuações, o elenco defende com convicção e perseverança seus personagens: barata, cupim, louva-a-deus, besouro, mariposa, borboleta, mosquito, cigarra, gafanhoto, formiga… A peça é dividida em doze quadros conectados entre si, que tratam de medo, manipulação, alienação, submissão e rebeldia. Ao deslocar a reflexão do humano para o inseto, Jô Bilac proporciona momentos potentes, como aquele em que a barata diz que o ser humano a mata por medo. Impossível não traçar um paralelo com discriminações e intolerâncias sociais. Além disso, na trama, os insetos estão emigrando para Portugal (como parte da elite, fugindo da violência e da crise política) e um desequilíbrio natural leva o louva-a-deus a impor uma nova ordem a todos os demais. Ele divide a população em dois grupos: os que viverão para servi-lo e os que servirão para serem comidos. Insetos trans morrem, porque não servem nem para um nem para outro. Enquanto alguns personagens se revoltam, e pagam o preço por isso (Marielle Franco?), outros se resignam à sua sorte ou falta de. O medo de morrer intimida. As analogias dão margem a interpretações plurais, embora uma ou outra seja bem explícita – as menos interessantes. Alguns apontamentos são mesmo clichês, mas no geral a estratégia é bem desenvolvida.

O desenho de luz de Maneco Quinderé, sobretudo sombrio, coopera na criação da ambiência sinistra com os pneus da cenografia. Novas disposições dos objetos e um pouco de cor na luz são capazes de transformar o cenário, com muito pouco. Na sessão assistida, houve uma pequena falha na operação da luz, diminuindo o impacto de uma cena. Mas o saldo é positivo. Como o texto, a montagem convida o espectador a completar os quadros com suas próprias vivência e perspectiva: muito é dito nas entrelinhas e na ironia. Não é fácil a missão de levar ao palco um espetáculo adulto com personagens de insetos. Um bom texto é um começo, mas não diminui o desafio de Portella ao traduzi-lo cenicamente. Não é a primeira vez que a dramaturgia de Jô Bilac coloca a direção em situação incômoda, por conta das experimentações que vem lhe interessando e são verdadeiros riscos no palco, como “Enterro dos Ossos” (2016) e “Fluxorama” (2016). Aqui, o caminho é acertado, com raros escorregões, alguns risíveis, mas o resultado é mais positivo e palatável.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Elisa Mendes)

FIcha técnica
Texto original – Jô Bilac
Adaptação – Cia. dos Atores e Rodrigo Portella
Direção – Rodrigo Portella
Elenco
Cesar Augusto
Marcelo Olinto
Marcelo Valle
Susana Ribeiro
Tairone Vale
Cenário – Beli Araújo e Cesar Augusto
Figurino – Marcelo Olinto
Iluminação – Maneco Quinderé
Preparação Corporal – Andrea Jabor
Direção Musical – Marcello H.
Visagismo – Marcio Mello
Cenógrafa Assistente – Marieta Spada
Arranjo (Money Money) – Marcelo Alonso Neves
Programação Visual – Radiográfico
Assessoria de Imprensa – Catharina Rocha e Paula Catunda
Assessor de Mídias Sociais – Rafael Teixeira
Fotógrafa – Elisa Mendes
Assistente de Direção – João Gofman
Assistente de Fgurino – Rodrigo Reinoso
Assistente Preparação Corporal – Rodrigo Maia
Tingimentos – Almir França
Grafismo Textil – Sandro Vieira
Desenho de Som – Diogo Perdigão
Operador de Som – João Gofman
Operador de Luz – Lú de Oliveira
Diretor de Cena – Wallace Lima
Cenotécnico – Jessé, Iuri Wander e Fábio Lima
Montagem de Luz – Daniel Benevides, Russinho, Fernando Tuiuiu, Iuri Wander e Fábio Lima
Coordenação Financeira – Amanda Cezarina
Apoio de ensaio – Dalva Rocha
Produção Executiva – Bárbara Montes Claros
Direção de Produção e administração – Celso Lemos
Realização – Cia. do Atores

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SERVIÇO: qua a sex, 19h; sáb, 17h e 19h; dom, 19h. R$ 20. 80 min. Classificação: 14 anos. Até 6 de maio. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Salas C/D – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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