Crítica

Crítica: Irmãozinho Querido

“Irmãozinho Querido”, cumprindo temporada no Solar de Botafogo, é um espetáculo escrito e dirigido por Flavio Marinho (o mesmo de “Cauby! Cauby” e “A Vingança do Espelho: A História de Zezé Macedo”). A peça apresenta o embate entre dois irmãos – um ator e um empresário – que não se falam há dez anos, desde que “o artista da família” apresentou um espetáculo inspirado em seus familiares, pintando-os negativamente. Agora, ele ensaia uma nova peça sobre a família, em especial sobre o irmão, e este aparece do nada, determinado a impedi-lo, com medo de ser massacrado no palco.

O texto trata de competição entre irmãos, traumas de infância, falhas na comunicação e sentimentos dúbios. Essas questões aparecem entre clichês enfileirados e discursos piegas e patéticos. Há várias ideias potentes não bem desenvolvidas. A história realmente começa quando Raul, o irmão dono de uma rede de lojas, chega ao teatro interrompendo o ensaio de Léo, o irmão ator, para tirar satisfações sobre sua nova peça. Ele soube da notícia pelo jornal. No palco, os figurinos de Ney Madeira contornam as distinções entre os irmãos, ambos bem sucedidos, mas em universos diferentes. Em vários momentos, Flavio Marinho apresenta uma cena e, em seguida, a “rebobina” para mostrar outra versão: como é e como poderia ter sido, não exatamente nesta ordem. Um recurso divertido. Como a trama se passa no teatro e um dos personagens é ator, a obra é toda metalinguística e alguns pequenos monólogos escritos por Léo são apresentados – na tentativa de convencer Raul de que sua imagem não será denegrida. São justamente os momentos mais toscos – em geral acompanhados de uma trilha sonora (também de Flavio Marinho) escolhida a dedo para acentuar o melodrama. Tudo que os irmãos não se falaram por anos é exposto ali naquele encontro de um dia, de supetão, quase incrível. Fora isso, existem algumas tentativas de explorar o noticiário político na peça e elas, em geral, são forçadas.

São três atores em cena: Leonardo Franco (de “Adorável Garoto”), que faz o ator, Marcos Breda (de “Oleanna”), o irmão revoltado, e Alice Borges (de “Bilac Vê Estrelas”), a diretora e melhor amiga do primeiro. Franco é o mais seguro no papel. Breda vacila no texto em várias cenas e Alice, indicada ao Prêmio Cesgranrio de melhor atriz por este trabalho, na verdade tem uma personagem cheia de supérfluos, que zanzeia entre os dois trazendo alívio cômico – em geral bobo. Durante todo o espetáculo, a diretora recebe ligações (dos filhos ou da atriz da outra peça que dirigiu), que interrompem as brigas ou o ensaio. Os telefonemas basicamente são a marca da personagem e não acrescentam absolutamente nada à narrativa principal. Eliminados todos, a história se manteria a mesma sem perdas, e talvez o espetáculo fosse menos arrastado.

A direção tem notáveis boas intenções, mas nem todas bem executadas. O próprio artifício de “rebobinar” é curioso na primeira vez, mas lá para a terceira ou quarta já não mais. Outro exemplo: “Irmãozinho Querido” começa com uma cena da diretora arrumando o espaço para o ensaio. É o momento que o cenário (também de Flavio Marinho) é explicitado para o público: tripés, holofotes (parte da iluminação de Paulo César Medeiros vem dos acessórios cenográficos), cadeiras e uma mesa para o lanchinho. O palco é mesmo o palco. É uma apresentação criativa do espaço, mas se perde na longa duração: a direção faz questão que a música de fundo seja ouvida até o fim e Alice simplesmente não tem mais o que fazer em cena. Ela finge que move objetos, deixando-os absolutamente no mesmo lugar, e enrola. A atriz fica exposta, trabalhando a favor da trilha e não o contrário. É uma primeira impressão ruim. Depois, Leonardo Franco irrompe o teatro vindo de trás da plateia, mais uma explicitação da ambientação da história. O espectador está dentro do mesmo espaço que os personagens. Em outros momentos, a personagem da diretora se dirige ao operador de luz e ao operador de som, que são vistos pelo público. Mas os personagens parecem não ver os espectadores, então a situação é imprecisa. Estamos todos aqui ou não estamos todos aqui? Ora agem à revelia da existência da plateia, ora como se tivessem total ciência dessa presença. “Irmãozinho Querido”, infelizmente, não apresenta bons resultados.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Texto e Direção: Flavio Marinho
Elenco: Marcos Breda, Alice Borges e Leonardo Franco
Diretora Assistente: Juliana Medella
Ambientação Cenográfica: Flavio Marinho
Figurinos: Ney Madeira
Iluminação: Paulo César Medeiros
Preparação Vocal: Ângela de Castro
Trilha Sonora: Flavio Marinho
Visagismo: Beto Carramanhos
Fotografia: Beti Niemeyer
Design Gráfico: Igor Ribeiro
Produção Executiva e Direção de Cena: Marcus Vinicius de Moraes
Assistente de Produção: Fabio Araújo
Prestação de Contas: Mádia Barata
Contabilidade: Guararapes Contabilidade
Assessoria Jurídica: Roberto Silva
Direção de Produção e Administração: Fábio Oliveira
Realização: Marinho D’Oliveira Produções Artísticas Ltda e SESC RIO
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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SERVIÇO: sex a dom, 20h. R$ 70. 90 min. Classificação: 12 anos. Até 24 de fevereiro. Solar de Botafogo – Rua General Polidoro, 180 – Botafogo. Tel: 2543-5411.

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