Crítica: Kondima – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Kondima

Quinto espetáculo da cia. teatral Troupp Pas D’Argent, “Kondima” trata do drama social dos refugiados de maneira sensível e comovente. A dramaturga e diretora Marcela Rodrigues (de “Lavagem”) investe em uma linguagem híbrida, que envolve teatro, documentário audiovisual e performance, interligados para provocar empatia com conteúdo forte. Se algumas lágrimas, suspiros e respirações suspensas na plateia significam algo, o resultado é sim muito positivo.

(Foto: Julio Ricardo)

A peça trabalha com recortes ficcionais e documentais, que sublinham os percalços aos quais essas pessoas têm que se submeter para ter uma chance de sobreviver. Ficou estabelecido, na Convenção de Refugiados de 1951, que o termo “refugiado” designa qualquer ser humano que se encontra fora de seu país e que não pode voltar – ou teme voltar – por perseguições motivadas por raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política. Ou seja, pessoas forçadas a se deslocar e abandonar toda uma vida para trás. O mundo tem acompanhado recentemente, com ampla cobertura jornalística, a situação dos refugiados de guerra, que são impedidos de entrar – ou recebidos com desgosto – em países europeus e americanos. Existem no mundo mais de 25,4 milhões de refugiados, de acordo com o dado mais recente divulgado pela agência especializada da ONU, o que evidentemente exige que países repensem suas políticas migratórias. Entre refugiados e deslocados internamente, 52% são menores de idade, o que torna o caso mais grave. Só da Venezuela, ali perto, existem três milhões de refugiados atualmente. Desses, 85 mil venezuelanos estão no Brasil. Nosso país também é buscado para refúgio principalmente por cubanos, haitianos e angolanos.

Muitas vezes, deixar seu país não é tarefa fácil. As pessoas precisam se submeter a travessias severas em terra e em alto mar, onde muitas morrem ou são assassinadas pelo caminho. Após dias, semanas, às vezes meses de fome, sede, frio, calor, terror e absoluta perda de dignidade, essas pessoas têm que enfrentar um segundo round ao chegar em terra estrangeira. É quando entra o racismo, a xenofobia, o descaso e uma vida marginalizada. Isso não acontece nas mãos de Donald Trump ou de governantes europeus – apenas. Aqui no Brasil, também. Tudo isso está em “Kondima” O texto de Marcela Rodrigues traz respostas amargas para perguntas como “o que motiva essas pessoas a deixarem suas casas?”, “em que condições fazem as travessias?”, “o que sentem antes, durante e depois?” e “como são recebidas nos outros países?”. São quatro atores em cena – Carolina Garcês (de “Lavagem”), Natalie Rodrigues (de “Lavagem”), Orlando Caldeira (de “Tropicalinha – Caetano e Gil para Crianças”) e Ruth Mariana – sendo esta última uma refugiada angolana, o que torna tudo mais real e incômodo. É essa a palavra, para o bem ou para o mal: incômodo. É o que os refugiados causam. Incômodo para quem se sente prejudicado pela presença estrangeira e incômodo para quem se compadece e sofre ao saber que outros seres humanos podem ser tão subjugados. Quando Ruth fala, é como se uma verdade que não se quer ver fosse esfregada na cara. Um depoimento de Orlando sobre abuso sexual na infância, ficção ou não, também tem o mesmo impacto, dada a força das circunstâncias. O elenco é muito potente.

O que torna “Kondima” mais denso é o documentário audiovisual – da mesma diretora do espetáculo – com cenas e depoimentos reais de refugiados. É cru, é duro, é impactante. Ele interliga e eleva cenas representadas no palco. A montagem não conta com cenário, a não ser o artefato suspenso no centro da arena, onde são exibidos os vídeos – tanto uma sequência ficcional, com os atores em um bote em alto mar, quanto o material documental. Ali você vê como refugiados são tratados no Brasil – com agressões físicas e morais e desrespeitos de toda ordem. É triste, dá vergonha. Em dado momento, são chamados de “escória da humanidade”. Difícil não se compadecer. Os depoimentos reais parecem ter inspirado a criação do texto, mas também dialogam muito bem com ele.

A composição cênica é aprofundada pela pesquisa de movimento da Troupp Pas D’Argent, com propostas que fogem da obviedade. Os figurinos, assinados por Orlando Caldeira, passam a impressão de “segunda mão”, como as roupas doadas que refugiados recebem ao chegar em terra estrangeira. A iluminação de Luis Paulo Nenen preenche os vazios da cenografia de forma criativa e compensa qualquer ausência. Quando o filme não está rodando, a iluminação é o cenário. O espetáculo afeta a plateia de diferentes maneiras, e só isso já o torna importante na programação carioca. Ele humaniza algo que pode parecer distante para muitas pessoas ao ver o noticiário. Político e engajado, “Kondima” mostra que o drama dos refugiados é de todos nós, humanos.

De acordo com o material a mim enviado, “Kondima” significa “acreditar” no dialeto lingala, falado em tribos da Angola e do Congo. É um bom título: os refugiados acreditam em possibilidades melhores quando se jogam no escuro. Talvez caiba ao resto da humanidade não permitir que essas pessoas desacreditem.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Julio Ricardo)

Ficha técnica
Dramaturgia e Direção: Marcela Rodrigues
Assistente de Direção: Jorge Florêncio
Idealização e Concepção do Projeto: Natalíe Rodrigues
Colaboração Dramatúrgica: Jorge Florêncio
Elenco: Carolina Garcês, Natalie Rodrigues, Orlando Caldeira
Atriz Convidada: Ruth Mariana
Pesquisa de Movimento: Troupp Pas D’Argent
Trilha Sonora: Isadora Medella
Cenografia: Marcela Rodrigues
Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Figurino: Orlando Caldeira
Produção: Corpo Rastreado e MS Arte e Cultura
Fotografia: Marcela Rodrigues
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação
Realização: MIDIXCULPA PRODUÇÕES ARTISTICAS

DOCUMENTÁRIO
Direção e edição: Marcela Rodrigues
Assistente de Direção: Jorge Florêncio
Cinegrafistas: Marcela Rodrigues, Jorge Florêncio
Entrevistas em Bangladesh: André Coelho

_____
SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 80 min. Classificação: 16 anos. Até 25 de novembro. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

Comentários

comments