Crítica

Crítica: L, o Musical

“L, o Musical” busca dar visibilidade para a primeira letra da sigla LGBT – a que se refere às lésbicas. O texto e a direção são de Sérgio Maggio (de “Eros Impuro”). Com repertório da MPB exclusivo de cantoras homo ou bissexuais, o espetáculo gira em torno do universo lésbico. A protagonista é a autora de novelas Ester (Elisa Lucinda, de “A Paixão Segundo Adélia Prado”), que está em seu auge com um folhetim que parou o país ao tratar de um triângulo amoroso formado por três mulheres. Ao seu lado, está a colaboradora Anne (Renata Celidônio, de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”), apaixonada por ela apesar de ser casada com um homem, e Rute (Ellen Olérea, vencedora do “The Voice Brasil”), uma atriz cult com quem Ester namorou no passado e nutre um amor quase fraterno. Tudo vai bem até que a autora recebe uma notícia inesperada e descobre o que a vida está escrevendo para si.

(Foto: Divulgação)

O problema do espetáculo é estrutural. Como musical, não se sustenta. “L” tem três vertentes que se apresentam como quebras entre si: o fio narrativo, as canções e projeções de vídeos de uma fictícia vlogueira lésbica. O repertório musical aparece como pausa dramatúrgica, ao invés de prosseguimento da história: as 22 músicas, notadamente não escritas para a peça, se conectam fragilmente com ela. Os números musicais, em sua maioria, ganham aspecto de “show”. Como peça, “L” sobreviviria sem o caráter musical, porque as canções estão sobressalentes, como se tivessem sido incluídas a posteriori ao invés de pensadas como parte da história. Criar um musical não é simplesmente jogar um punhado de músicas cantadas ao vivo no meio da trama. O lado positivo é que a direção musical de Luís Filipe de Lima dá potência às interpretações – sobretudo de Elisa Lucinda e Ellen Olérea – com uma banda de quatro instrumentistas mulheres, ainda que algumas canções famosas sigam melhores em suas versões originais. No que concerne às inserções dos vídeos, com atuação de Luiza Guimarães (de “Sem Sentido”), eles pausam a trama, dialogando tenuamente com ela, de maneira cômica, informativa e didática. Poderiam ser mais imbuídos na trama – e não somente encaixados – mas sem dúvida divertem, principalmente pelo desempenho da atriz.

Com diversos papéis secundários, entre eles a vlogueira, Luiza Guimarães conquista a plateia com sua comicidade. Interpretando a produtora da novela, ela é incumbida de interagir com a plateia, transformada em elenco de figuração, e o resultado é muito importante para a recepção simpática do público no decorrer do musical. Ela se apropria com muita naturalidade do texto, que já é engraçado. O elenco, no geral, é bom. Elisa Lucinda é muito forte em cena e empresta essa característica para a personagem, poderosa. Renata Celidônio cria cumplicidade com o público através das expectativas e decepções de sua mulher apaixonada em silêncio. Ellen Olérea eleva o nível da parte musical. Gabriela Correa (de “Duas Gotas de Lágrimas no Frasco de Perfume”) é responsável pelo papel mais denso de todo o espetáculo, a militante contra lesbofobia Simone, em processo de autoaceitação e transição para a identidade de homem trans. Ela explora o subtexto com talento. Tainá Baldez (de “Duas Gotas de Lágrimas no Frasco de Perfume”) interpreta Elle, a filha frívola de Rute, criada em Portugal, onde vence um reality show televisivo depois de transar em rede nacional.

A direção de Sérgio Maggio é eficaz na utilização das variações do cenário fixo de Maria Carmen de Souza, impreciso e marcado por diferentes manequins. A cenografia recria um palco em cima do palco, importante para as ficções dentro da ficção, e acentura a aparência de show dos números musicais. No entanto, a direção de movimento (de Ana Paula Bouzas), neste mesmo espaço, mostra-se simplória – um déficit principalmente na apresentação das canções. Os figurinos (de Carol Lobato) são variados (em número, 30 ao todo) e sublinham traços de teatralidade. Por fim, a iluminação de Aurélio de Simoni é notada no tratamento espetacular das canções.

“L, o Musical” é bastante decepcionante com relação ao gênero no qual se enquadrou, mas tem seu mérito pela representatividade. De fato, não me lembro de outro musical protagonizado por lésbicas e focado nesta temática. Ester e Rute são mulheres, negras, lésbicas e ainda artistas: muitas opressões nos mesmos corpos. No fim das contas, o espetáculo consegue passar uma mensagem geral de aceitação e tolerância e, no caso de ruído, a produção entrega uma “cartilha da visibilidade lésbica” para os espectadores na saída do teatro.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Realização e patrocínio: Banco do Brasil
Direção geral e dramaturgia: Sérgio Maggio
Direção musical: Luís Filipe de Lima
Direção de movimento: Ana Paula Bouzas
Diretor assistente e de palco: Jones de Abreu
Artistas-criadoras: Elisa Lucinda, Ellen Oléria, Renata Celidonio, Gabriela Correa, Tainá Baldez e Luiza Guimarães
Instrumentistas: Alana Alberg (baixo), Marlene de Souza Lima (guitarra), Nathália Reinehr (bateria) e Janá Sabino (teclado)
Desenho de Luz: Aurélio de Simoni
Concepção de Figurinos: Carol Lobato
Concepção de cenário: Maria Carmen de Souza
Concepção de visagismo: Luma Le Roy
Concepção de som: Branco Ferreira
Preparação vocal: Sara Mariano
Roteiro musical: Sérgio Maggio e Ellen Oléria
Supervisão de roteiro musical: Luís Filipe de Lima
Supervisão de dramaturgia: Daniela Pereira de Carvalho
Assistentes de dramaturgia: Ellen Oléria e Yuri Fidélis
Fotografia: Diego Bresani e Sérgio Martins
Design gráfico: Chica Magalhães
Coordenação de redes sociais: Rosualdo Rodrigues
Direção de produção: Ana Paula Martins
Concepção e idealização: Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 20. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 17 de dezembro. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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