Crítica: Lady Christiny – Sesc Tijuca – Teatro em Cena
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Crítica: Lady Christiny – Sesc Tijuca

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Dois refletores, um banquinho e um figurino neutro são os elementos do ator Alexandre Lino (de “O Pastor”) no monólogo “Lady Christiny”, escrito por Daniel Porto (de “O Pastor”) e dirigido por Maria Maya (de “Adorável Garoto”). O espetáculo documental resgata a memória da personagem-título, uma travesti conservadora, defensora dos “valores da família” e cheia de preconceitos homofóbicos. Complexa assim.

(Foto: Janderson Pires )

(Foto: Janderson Pires )

O espetáculo é dividido em três momentos: o primeiro, dedicado à vida de Celso Marques, casado, pai de dois filhos, heterossexual convicto; o segundo para sua transição para Lady Christiny e a construção de sua personalidade; e o terceiro para uma quebra na ficção para que o ator, Alexandre, conte sua relação com Christiny – que ele conheceu quando chegou ao Rio de Janeiro em 1995. O monólogo tem só 60 minutos (suficientes!) e apresenta um bom ritmo, sem que o intérprete precise sequer se levantar do banquinho. De fato, Alexandre constrói o papel todo sentado, com marcações sutis, como posicionamento das pernas e gesticulação das mãos e braços. Tudo muito contido, como prega a travesti. É um bom trabalho do ator, que dispensa artifícios como figurinos e maquiagem para ser convincente.

Celso Marques era casado com Célia, quando ela percebeu primeiro que ele sua paixão por um rapaz. Passaram a viver na mesma casa, então, ele, ela, os filhos e o garotão. Diante da percepção de que seu amado mantinha interesse sexual por mulheres, Celso construiu Lady Christiny e mudou de gênero. Eram os anos 1980, quando a discriminação era muito maior do que hoje, e, para fugir do estigma de prostituta, ela adotou um comportamento “belo, recatado e do lar”. Cristã, religiosa e… homofóbica. A discriminação era tanta que estava instituída na cabeça da própria vítima. Seus pensamentos expressos no espetáculo não diferenciam em nada de discursos de figuras como Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano. Ela diz que “não aceitaria um homossexual na família”, acha um horror “dois homens barbudos se beijando” e é contra demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo em público.

O texto de Daniel Porto, reproduzindo tais declarações de Lady, incomoda. Dá vontade de se levantar e ir embora sem esperar o fim do monólogo: é muito absurdo, retrógrado, um desserviço. Incrivelmente, um espetáculo sobre travesti consegue se afinar mais a conservadores e discriminadores do que com as pessoas LGBT. A direção tampouco imprime qualquer autocrítica, ironia ou sátira ao conteúdo: é aquilo ali mesmo, puro e cru. Dê as falas de Lady Christiny para qualquer discurso público de Bolsonaro: não causaria qualquer estranhamento.

O espetáculo tem produção intimista, enxuta, em sala para 50 espectadores. O figurino é cáqui, com aparência de uniforme de porteiro, e intencionalmente não informa muito. Cenário inexiste. Toda a ambientação é realizada com a bela iluminação de Renato Machado, que faz milagres. Há também videografismo, que reafirma o formato documental e, em dado momento, exibe um discurso da própria Lady Christiny, a verdadeira. Não cativa. Não fica claro porque essa personagem merece um monólogo, com esse discurso tão perigoso em meio a avanços mínimos da luta LGBT por igualdade. Sua fala é de fácil adesão para ouvidos preconceituosos. Para os demais, lamentável.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Janderson Pires )

(Foto: Janderson Pires )

Ficha técnica
Texto: Daniel Porto
Direção: Maria Maya
Elenco: Alexandre Lino
Iluminação: Renato Machado
Direção de Arte: Tatiana Brescia
Programação Visual: Guilherme Lopes Moura
Fotografia: Janderson Pires
Webdesign: Mariana Martins
Videografismo e Assessoria geral: Renato Krueger
Produção Executiva: Equipe Cineteatro Produções
Preparação Vocal: Gina Martins
Realização: SESC
Idealização e Direção de Produção: Alexandre Lino
Um projeto da Documental Cia.

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SERVIÇO: sex a dom, 19h. R$ 8 (ou R$ 2 para associados Sesc). 60 min. Classificação: 16 anos. De 8 até 31 de julho. Teatro Sesc Tijuca – Teatro II – Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca. Tel: 3238-2167.

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