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Crítica: Love Story, o Musical – Imperator

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Kacau Gomes (de “Ou Tudo Ou Nada – O Musical”) e Fábio Ventura (de “Rita Lee Mora ao Lado”) são Jenny e Oliver, o casal principal de “Love Story, o Musical”, nova montagem dirigida por Tadeu Aguiar (de “Ou Tudo Ou Nada”). O espetáculo é a última ponta de um projeto multimídia que começou em 1970, com o livro melodramático do americano Erich Segal e o filme homônimo de Arthur Hiller, e chegou aos palcos adaptado para o gênero musical em 2010 na Inglaterra. Seis anos depois, cá estamos no Rio de Janeiro, com a versão brasileira, escrita por Artur Xexéo (também de “Ou Tudo Ou Nada – O Musical”).

(Foto: Gustavo Bakr)

(Foto: Gustavo Bakr)

A história é água com açúcar: estudante milionário se apaixona por artista pobretona e fica contra a família para se casar com ela. A jovem, por sua vez, abre mão do sonho de estudar piano na França (com uma bolsa) para ficar com o marido nos Estados Unidos, enquanto ele cursa a universidade de Direito – induzido pela mesma família que o deserdou. Vivem felizes para sempre até que a morte os separe. Esse argumento insosso foi o suficiente para que o filme recebesse sete indicações ao Oscar, vencendo o de melhor música original, e ganhasse cinco Globos de Ouro (incluindo melhor filme dramático). No West End, o espetáculo fez menos barulho e recebeu três nomeações ao Olivier Award, das quais não venceu nenhuma.

Dá para imaginar a dificuldade da produção para vender esse musical para o público brasileiro. “Musical do West End”, para fins publicitários no Brasil, não tem a mesma força que “musical da Broadway”. Não tem apelo. O filme, por sua vez, não chega a ser nenhum clássico para ser invocado. A história, como se vê, é boba e – talvez não fosse em 1970 – mas hoje em dia não passa de um clichê explorado por argumentos de novelas mexicanas e livros de Nicholas Sparks. A fórmula “amor + obstáculos + morte = chororô” é velha conhecida do público, mas insuficiente para fazer alguém sair de casa e abrir a carteira tem tempos de crise. Tadeu Aguiar, então, teve a ideia de montar o espetáculo com elenco inteiramente negro, encontrando aí seu golpe de marketing: “Love Story só com negros”. Podia ser perfeito.

Atores negros reclamam sempre que só conseguem testes para papeis em que a etnia dos personagens vêm especificada, sendo que poderiam interpretar quaisquer papeis. E é verdade. “Love Story” prova isso. O elenco competente cumpre todas as prerrogativas da história, sem que seja necessário qualquer menção à cor de sua pele, que não importa. Ponto para a produção e para adaptação por não cair nesse equívoco de querer justificar a negritude dramaturgicamente. Por outro lado, há também um mascaramento dessa mesma negritude para enquadramento dos atores em padrões eurocêntricos. Das cinco mulheres do elenco de 11 nomes, quatro aparecem com perucas de cabelos alisados. É uma decisão no mínimo questionável: botar negros em cena, sem abraçar suas características como um todo. Obviamente, cada um faz o que quer do seu cabelo (personagens inclusive), mas a proposta da montagem acaba se perdendo no meio do caminho com isso. Se a ideia é que todos os personagens de “Love Story” podem ser negros, por que mascarar suas características? É como fazer um musical com orientais e disfarçar com maquiagem seus olhos puxados. Chega a ser de mau gosto.

Esse, porém, é só um dos pontos fracos de “Love Story, o Musical”. A sucessão de fatos corridos em cenas sem ânimo não permitem que a plateia se apaixone pelo casal. Nem o amor deles consegue ser crível, pela rapidez com que se constrói. A dramaturgia está longe de ser envolvente, assim como suas pitadas de humor não conseguem ser engraçadas. São piadinhas que ninguém ri. A história é, francamente, maçante e mal estruturada. As canções tampouco salvam. Há números musicais narrativos que parecem não ter fim, com demérito também para as coreografias de Alan Resende, que não passam de marcações. A direção musical de Liliane Secco, seguindo o padrão importado, não possibilita que Kacau Gomes mostre seu potencial. Fica tudo na linha do regular, sem grandes momentos. Kacau Gomes como protagonista era para ser, no mínimo, arrebatador. E ela está apenas bem, dentro do que é proposto, que é muito pouco.

De positivo, destaca-se o cenário de Edward Monteiro. Com rotações na estrutura básica e entrada e saída de poucos itens, ele constrói a pluralidade de ambientações solicitadas pelo texto. O romantismo que embala a trama é percebido em detalhes graciosos, em sintonia com a iluminação de Aurélio di Simoni, que dá a cara do espetáculo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Gustavo Bakr)

(Foto: Gustavo Bakr)

Ficha técnica
Versão brasileira: Artur Xexéo
Direção: Tadeu Aguiar
Elenco: Kacau Gomes, Fabio Ventura, Sergio Menezes, Ronnie Marruda, Flavia Santana, Ester Freitas, Rafaela Fernandes, Suzana Santana, Raí Valadão, Emílio Farias e Caio Giovani
Direção musical: Liliane Secco
Cenário: Edward Monteiro
Figurinos: Ney Madeira e Dani Vidal
Coreografia: Alan Resende
Iluminação: Aurélio di Simoni
Desenho de som: Gabriel D’Ângelo
Diretora assistente: Flavia Rinaldi
Coordenação de produção: Norma Thiré
Produção Geral: Eduardo Bakr

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h; dom, 19h. R$ 60. 90 min. Classificação: 10 anos. Até 31 de julho. Imperator – Rua Dias da Cruz, 170 – Meier. Tel: 2597-3897.

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