Crítica: LTDA. – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: LTDA.

A indústria da fake news é o tema do espetáculo “LTDA.”, novo texto de Diogo Liberano (de “Janis”), que ganha direção de Debora Lamm (de “Abacaxi”). Criadas para influenciar comportamentos e manipular a opinião pública, as notícias falsas são o tormento de uns e o trunfo de outros, principalmente em ano de eleição presidencial. Recentemente, por exemplo, a família de Marielle Franco (PSOL-RJ), vereadora brutalmente assassinada, teve que lidar com fake news denegrindo a imagem dela e relativizando o crime de sua morte. Com o consumo rápido de informação resumido a título de matérias na timeline das redes sociais, as pessoas ainda não aprenderam a discernir o que é uma fonte crível ou não. A disseminação de notícias falsas e alarmantes tem sido uma preocupação da imprensa como um todo e das próprias plataformas digitais, que veem seus nomes ruírem associados a tal problemática. Era para ser uma piada, mas o meme “se tá na Internet, então é verdade” vem retratando uma realidade social. A verdade se inventa.

(Foto: Ricardo Borges)

Na peça, um jovem jornalista confiante nos ideais da profissão, precisando trabalhar, faz entrevista para uma vaga de emprego em uma agência de fake news. Os sócios expõem o trabalho para ele – inventar notícias e manipular informações para beneficiar seus clientes – e ele questiona a responsabilidade desse ato e o compromisso com a verdade. Mas o que é verdade? O que importa é a versão mais convincente na era da pós-verdade. O compromisso é com os contratantes, não com a sociedade. Caso ele não concorde com as condições, pode ir embora, porque não terão dificuldade em encontrar outro que faça o mesmo trabalho. Deste modo, mesmo incomodado, ele aceita o emprego e passa a trabalhar ali, na fábrica de factoides mal intencionados.

O texto de Liberano traz boas provocações e insinuações para a plateia. Recheado de ironia, é bastante divertido e político ao deduzir os interesses e os mecanismos que guiam a produção desse conteúdo, que já é um mal do século. Sem didatismo, deixa o alerta para o público não acreditar em tudo que lê. A montagem é uma realização do Coletivo Ponto Zero – o mesmo de “Curral Grande”. O elenco é formado por três atores daquele espetáculo – Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi e Lucas Lacerda – além de Leandro Soares (de “A Importância de Ser Perfeito”) e Orlando Caldeira (de “Boquinha… E Assim Surgiu o Mundo”). Carismático e engraçado, Leandro é o jovem jornalista que cai nesse lugar; Brunna e Lucas são os sócios da empresa, com boa atuação integrada; a ótima Brisa interpreta uma funcionária antiga, que quer ser demitida e abrir seu próprio negócio; e Orlando exerce uma função similar à narração, com alguns momentos de interação com os personagens. O papel dele ajuda a costurar a trama com uma leitura crítica dos fatos apresentados. O elenco domina o tema e suas funções dentro do conjunto.

Na montagem, a palavra desfruta de um lugar muito privilegiado, o que tem a ver com a reflexão proposta. A direção trabalha com um mínimo de cenografia (uma plataforma quadricular de madeira no centro do palco, usada para marcar o poder de fala) o que tem sido recorrente no teatro carioca, carente de recursos para cenografias mais elaboradas e sofisticadas. O cenário, inclusive, é creditado à própria Debora Lamm. Em determinado momento, Orlando abre e fecha partes das arestas e gira o quadrado: impossível prestar atenção em qualquer outra ação além dele ali – um ruído. Os figurinos de Ticiana Passos sintetizam a boa aparência dos disseminadores de mentiras e a cara mais despojada de quem não precisa aparentar verdade. A iluminação de Ana Luiza de Simoni é regular. Esteticamente, entrega-se o básico. Mas o texto é potente e cresce com a atuação do elenco: “LTDA.” é uma boa novidade na programação. Só espero que os próximos espectadores tenham mais sorte: na sessão que fui, houve um problema mal explicado e ela começou com 40 minutos de atraso.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Ricardo Borges)

Ficha técnica
Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção: Debora Lamm
Direção de Produção: Lucas Lacerda
Elenco: Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi, Leandro Soares, Lucas Lacerda e Orlando Caldeira
Direção de Movimento: Denise Stutz
Criação Sonora: Marcelo H
Figurino: Ticiana Passos
Visagismo: Josef Chasilew
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Debora Lamm
Assistente de Direção: Junior Dantas
Assistente de Figurino: Brisa Rodrigues
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos de Divulgação: Ricardo Borges
Making Off: Mika Makino e Tatiana Delgado
Marketing Digital: Eddesign – Maria Alice Edde
Produção Executiva: Geovana Araujo Marques
Assistente de Produção: Julia Kruger e Naomi Savage
Gestão Fnanceira: Carlos Darzé e Lucas Lacerda
Realização: Coletivo Ponto Zero

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h. R$ 40. 70 min. Classificação: 16 anos. Até 26 de maio. Teatro Eva Herz – Livraria Cultura – Rua Senador Dantas, 45 – Centro. Tel: 3916-2600.

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