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Crítica: Macbeth – Teatro João Caetano

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Um dos principais diretores da Royal Shakespeare Company, em Londres, o brasileiro que passou a atender pelo nome de Ron Daniels voltou ao país para um projeto especial. É o “Repertório Shakespeare”, que põe na mesma temporada duas montagens de uma vez, com “Macbeth” e “Medida Por Medida”, apresentadas em dias alternados. Thiago Lacerda, que já havia sido dirigido por ele em “Hamlet” há três anos, volta ao protagonismo em “Macbeth”, na pele do general que retorna da guerra com sede de se tornar rei.

(Foto: João Caldas)

(Foto: João Caldas)

A história começa com o reino comemorando o triunfo na guerra, na espera da chegada do general. No caminho, ele encontra três criaturas exóticas (bruxas?) que o revelam duas profecias: ele será condecorado como Duque de Cawdor e no futuro será rei. No segundo seguinte, um mensageiro aparece e o informa do título de duque. Falta o de rei… A declaração das bruxas desperta em Macbeth uma ambição enorme pelo trono, exaltada por uma ansiedade ainda maior. Com incentivo da mulher maquiavélica, Lady Macbeth (aqui interpretada por Giulia Gam, de “Pedro e o Lobo”), ele arquiteta o plano de assassinato do rei Duncan, que vai dormir em sua casa como prova de sua gratidão ao serviço prestado na guerra, sem imaginar o que lhe espera. Eles, de fato, matam o rei e culpam outros soldados, igualmente assassinados em seguida. Macbeth assume o trono – consegue o que queria, portanto – mas é atormentado por delírios, uma sensação de culpa muito grande e o pânico de ser desmascarado. Lady, firme em suas decisões e ações, também é afetada e se torna sonâmbula, repetindo noite após noite o diálogo da noite do assassinato.

A dramaturgia de William Shakespeare (1564-1616), datada entre 1603 e 1607, é repleta de solilóquios do protagonista, por vezes repetitivos. Neles, Thiago Lacerda comete deslizes na interpretação, que tende ao mero declame. No elenco, Giulia Gam se sobrepõe ao Macbeth com sua Lady em mais de uma cena, e os figurinos (de Bia Salgado) colaboram com isso. As vestimentas dos 14 atores em cena é escura e acinzentada, e a primeira entrada da atriz é com um vestido vermelho, propositalmente destoante. Com mais méritos, há o trabalho de Marco Antônio Pâmio (de “Consertando Frank”), que consegue se sobressair com as poucas falas do personagem Macduff. Para os demais, não há grandes oportunidades. “Macbeth” é focado, realmente, em Macbeth.

A concepção de Ron Daniels, que já encenou Shakespeare 41 vezes, resulta em uma montagem competente. Ela utiliza a mesma instalação cênica para “Macbeth” e “Medida Por Medida”. A cenografia inespecífica de André Cortez ganha força no desenrolar das cenas, assim como os painéis de Alexandre Orion, na parte superior do palco. A estrutura, de início pouco impressionante, reserva surpresas sutis, mas impactantes – sempre atreladas à força da luz de Fábio Retti. Elas são importantes para dar algum dinamismo à encenação (e prender a atenção do público), que em alguns momentos fica arrastada com os solilóquios não tão envolventes.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

MACBETH_Repertório WS 1 - DNG

Ficha técnica
Texto: William Shakespeare
Tradução: Marcos Daud e Ron Daniels
Concepção e Direção: Ron Daniels
Elenco: Ana Kutner, André Hendges, Fábio Takeo, Felipe Martins, Giulia Gam, Lourival Prudêncio, Lui Vizotto, Luisa Thiré, Marco Antônio Pâmio, Marcos Suchara, Rafael Losso, Stella de Paula, Sylvio Zilber, Thiago Lacerda
Curadoria Artística: Ruy Cortez
Instalação cênica | Painéis: Alexandre Orion
Instalação cênica | Cenografia: André Cortez
Figurinos: Bia Salgado
Desenho de Luz: Fábio Retti
Composição e trilha original: Gregory Slivar
Diretor assistente: Gustavo Wabner
Preparação corporal e direção de movimento: Sueli Guerra
Coordenador de ação: Dirceu Souza
Visagismo: Westerley Dornellas
Preparação vocal: Lui Vizotto
Preparação de luta: Rafael Losso
Cenotécnica: Fernando Brettas | Onozone Studio
Figurinistas assistentes: Alice Salgado e Paulo Barbosa
Indumentária e adereços: Alex Grilli e Ivete Dibo
Costureiras: Francisca Lima Gomes e Marenice Candido de Alcantara
Camareiros: Conceição Telles , Regina Sacramento
Projeto de sonorização: Kako Guirado
Operador de som: Renato Garcia
Operadora de luz: Kuka Batista
Contra-regra: João Pedro Meirelles, Diro Faria
Diretor de palco: Ricardo Bessa
Edição de texto: Valmir Santos
Foto de cena: João Caldas
Foto do processo | Still: Adriano Fagundes
Design Gráfico: 6D
Relações institucionais: Guilherme Marques e Rafael Steinhauser
Administração: Flandia Mattar
Assistente administrativa: Mara Lincoln
Assistência de produção: Claudia Burbulhan, Diego Bittencourt, Marcele Nogueira
Produção Executiva: Luísa Barros
Direção de Produção: Érica Teodoro
Produção: CIT-Ecum, TRL e Pentâmetro
Realização:Sesc, CIT-Ecum, TRL e Pentâmetro

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SERVIÇO: qui e sáb, 19h. R$ 30 (balcão superior) e R$ 60 (plateia e balcão nobre). Classificação: 14 anos. Ate 20 de março. Teatro João Caetano – Praça Tiradentes, s/n – Centro. Tel: 2332-9257.

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