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Crítica: Mamãe – Espaço Cultural Sergio Porto

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“Mamãe” é, acima de tudo, um momento do ator Álamo Facó (de “Como É Cruel Viver Assim”). Intérprete do monólogo, ele assina o texto, a co-direção, a trilha sonora, a produção e se orgulha de dizer que se intrometeu no cenário, no figurino, na iluminação, no som, tudo. A peça conta a história do câncer terminal de sua mãe, que ficou 100 dias internada entre o diagnóstico, a cirurgia para retirada do tumor no cérebro, o coma e a morte. Em cena, ele adota outro nome, Lázaro, provocando algum distanciamento do conteúdo autobiográfico, mas a encenação, nota-se, é muito pessoal. É enorme o potencial para o desinteresse alheio. Não é um relato de superação, redenção ou algo similar: é uma história de morte, simples assim, e o público sabe disso desde o início. Poderia ser atrativo apenas para familiares e um grupo mais próximo de amigos, mas a homenagem à mãe, Marpe Facó, conquista a plateia e, no fim, é possível ver algumas pessoas emocionadas.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Álamo vivencia tudo com boa dose de humor – a que o tema permite – e a plateia ri de verdade enquanto ele lembra de algumas histórias. “Mamãe” é resultado de um processo que ele chama de “síntese do relevante”, e realmente os desvios da história, com idas e vindas no tempo e mudanças de narrador, são essenciais para tornar palatável o assunto pesado. Não deixa de ser uma peça sobre um processo de morte, um câncer, uma doença que ninguém gosta nem de pensar, mas ela é espirituosa. Não tem uma cena de chororô do ator, por exemplo.

A teatralidade das escolhas cênicas é um ponto positivo. A direção de Álamo e Cesar Augusto (da Cia. dos Atores) propõe uma movimentação diferenciada, por vezes irreal. Álamo interpreta a si mesmo, como Lázaro, dá voz ao que acredita ser o cérebro de sua mãe, e, quando precisa, imita o pai. A maneira como deita, levanta, se locomove e rola no chão colabora no conceito de tratar da doença terminal de uma maneira diferenciada.

No cenário, vê-se as persianas do que seria o quarto do hospital, e nada mais que o identifique. O restante são escolhas conceituais. A cama da mãe é a reunião de três cadeiras, nas quais Álamo se deita quando interpreta a matriarca, e há uma constante fumaça naquele canto, com quadros de cultura pop espalhados pelo ambiente de forma satírica. Tudo é muito escuro, o luto está ali, parece. A iluminação é o que dá a cara do espetáculo. O figurino, por sua vez, resulta aleatório, sem qualquer sofisticação criativa: um jeans sem camisa a maior parte do tempo. Há ainda a trilha sonora, integrada à dramaturgia, e Álamo se arrisca a cantar em alguns momentos, que incompreensivelmente conseguiram passar na síntese do relevante.

(Foto: Divulgação / Ana Alexandrino)

(Foto: Divulgação / Ana Alexandrino)

O saldo é positivo, mas é possível afirmar que a catarse é maior para o ator do que para o público. O encerramento do espetáculo, quando ele fala como Álamo Facó, o ator que vivenciou tudo aquilo de verdade, fica nítido que o impacto é maior para si mesmo, e que ele precisa daquilo para encerrar seu processo de despedida. Para o público, resta a oportunidade de presenciar, de participar, desse momento, que é dele.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica

Texto e atuação: Álamo Facó
Direção: Álamo Facó e Cesar Augusto
Direção de produção: Carlos Grun
Direção de moviment: Luciana Brites
Direção Musical: Rodrigo Marçal
Cenário: Bia Junqueira
Luz: Felipe Lourenço
Trilha Sonora: Álamo Facó e Rodrigo Marçal
Direção Musical do Performer: Lan Lanh
Figurino: Ticiana Passos
Preparação Vocal: Sonia Dumont
Fotos: Julio Andrade, Ana Alexandrino e Miguel Pinheiro
Projeto gráfico: Mary Paz
Produção e Realização: Bem Legal Produções e Álamo Facó
Colaboração Artística: Dandara Guerra, Fernando Eiras, Remo Trajano, Julio Andrade, Tamara Barreto, Lidoka Martuscelli, Andrucha Waddington, Lully Villar, Marina Viana, Victor Garcia Peralta, Cristina Flores e Renato Linhares

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