Crítica

Crítica: Mansa

Vítimas e vilões podem trocar de papéis, dependendo de quem vê e de quem conta uma mesma história. Esse é o pilar fundamental do espetáculo “Mansa”, em cartaz na Sede das Cias, na Lapa. Na peça, conta-se o crime brutal de duas filhas ardilosas que mataram o próprio pai, o exemplar pastor da igreja de sua comunidade, e o enterraram semi-vivo no quintal da casa. Ou ainda, na peça, é contada a história de duas irmãs mantidas por anos em cárcere privado pelo pai abusador, até que o matam e, ao invés de finalmente conhecerem a liberdade, são condenadas a anos de prisão. O texto é do dramaturgo André Felipe (de “À Distância” e “Sem Horas”) e ganha montagem com direção de Diogo Liberano (de “O Narrador”).

(Foto: Thais Barros)

Como a equipe criativa, com homens na dramaturgia e na direção, a vida das irmãs também é contada por personagens masculinos na história. O texto é fragmentado e não-linear, fornecendo ao espectador um quebra-cabeça cubista a partir das narrativas de dois vizinhos adolescentes que espiam o casarão, um investigador, um arqueólogo, um corretor e um comprador do terreno “maldito”. Passado, presente e futuro coabitam a trama, conectados pelo mesmo espaço físico – a casa onde tudo aconteceu. Todos os personagens são interpretados por Amanda Mirásci (de “Uma Vida Boa”) e Nina Frosi (de “Grimberg”), o que por si só é um subtexto. O destino das personagens é marcado por uma narrativa machista, historicamente consolidada socialmente. Existiu Justiça para elas? Justiça é para todos? É feminista, a justiça? A escolha do elenco para o espetáculo levanta a questão: “e se a História fosse contada pelas mulheres?”. Esse pensamento fica latente durante toda a encenação. Certamente seria diferente. Na trama, as vítimas-transformadas-em-criminosas não têm voz.

A direção de movimento de Natássia Vello intensifica esse subtexto e comunica o amansamento e o apagamento do feminino, às vezes ironicamente explicitando-o. Amanda Mirasci até simboliza uma égua, que é insistentemente reduzida a um cavalo por outro personagem, ignorando seu gênero. A atuação das atrizes é muito física e energética, notadamente algo valorizado pela direção. Os figurinos (de André Vechi), neutralizadores de tempos verbais e pronomes pessoais, e o cenário, invadido por terra, não fornecem suportes óbvios para a atuação na maior parte do tempo, tornando a atuação mais dura. A iluminação, assinada por Livs Ataíde, suaviza momentos. No geral, é uma estrutura humilde.

“Mansa” resulta um bom espetáculo, ainda que com poréns. A estrutura da dramaturgia, em determinado momento, passa a impressão de andar em círculos, resistente à iminente conclusão. Pelo menos duas vezes, pareceu-me que a peça estava se encerrando, quando não estava, uma falha na comunicação que leva ao desgaste. Por outro lado, quando o espetáculo termina, a sensação é de que faltou algo, inexplicável. Não descobri o que é. Mas ele tem momentos muito fortes e bem construídos, e cumpre a intenção de chamar atenção para a naturalização da violência contra a mulher e da construção de narrativas tendenciosas.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Diogo Liberano)

Ficha técnica
Assistência de Direção: Marcéli Torquato
Atuação: Amanda Mirásci e Nina Frosi
Cenografia e figurino: André Vechi
Direção de Movimento: Natássia Vello
Direção de Produção: Carla Mullulo
Direção Musical: Rodrigo Marçal
Direção: Diogo Liberano
Dramaturgia: André Felipe
Iluminação: Livs Ataíde
Mídias Sociais: Teo Pasquini
Registro Fotográfico: Thaís Barros
Tradução para o Inglês: Lucas Moretzsohn

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h. R$ 30. 70 min. Classificação: 16 anos. Até 30 de julho. Sede da Cias – Escadaria Selarón – Rua Manoel Carneiro, 12 – Lapa. Tel: 2137-1271.

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