Em cartaz no Teatro Eva Herz, o espetáculo autoral “Mármore” marca a estreia da Cia. de Bolso. Formada em 2017 pelos atores Fernanda Alice (de “Confissões de Adolescente”) e Vitor Novello (de “Arraial das Lobas”), o diretor Gabriel Rochlin e o músico Pedro Botafogo, a companhia se apresenta ao público com uma reflexão sobre a contemporaneidade: a vida de aparências. Afinal, com as redes sociais e o culto a si mesmo na Internet, a impressão é que todos têm vidas perfeitas e infalivelmente felizes. A vida editada e cheia de filtros é de dar inveja. Na peça, esse comportamento é levado ao extremo e a tristeza é marginalizada, punida e reprimida. Neste contexto absurdo mas nem tanto, um casal se assusta e vê sua vida virar de pernas pro ar quando seu bebê recém-nascido chora. Os pais nem conheciam o que era a lágrima. Todas as crianças já nascem sorrindo. De onde vem essa falha de caráter? Da família dela ou dele? O que fazer? Os vizinhos já estão comentando e vigilando o barulho do choro vindo do apartamento… Qualquer sentimento distante do ideal de felicidade é proibido. Mesmo se você acabou de nascer.

(Foto: Divulgação)

O argumento fala diretamente com a sociedade atual, sobretudo com os jovens. Em 2018, chega à maioridade os nascidos no ano 2000, uma galera que já nasceu online e já cresceu inserida nessa realidade de redes sociais e edição de um “álbum da vida” público. Uma geração inteira ciente do poder do Photoshop. O texto da peça é potente, contudo, não evolui para além de sua ideia originária. Na verdade, “Mármore” é a extensão de um esquete, inspirado em um texto da filósofa Viviane Mosé, e ele guarda esses resquícios de texto aumentado. Resultado de criação coletiva, a peça cria situações – a visita de uma irmã, os telefonemas dos vizinhos, uma ambulância na frente do prédio da frente – mas tudo mais ilustra do que desenvolve o argumento inicial. Fica-se no ponto de partida.

Os atores Fernanda Alice e Vitor Novello, que vivem o casal, são bons e conseguem convencer a plateia da situação absurda – com facilidade. Dão conta das nuances e tentativas de autocontrole dos personagens. Rapidamente, o público compreende que eles estão em uma realidade diferente, “futurística” talvez, mas certamente diferente da nossa. Os figurinos brancos (de Dora de Assis) amparam nesse desenho, com peças fluídas e não-binárias.

Toda a concepção cênica de Gabriel Rochlin colabora neste sentido, potencializando as propostas dramatúrgicas. Marcações do elenco e elementos cenográficos negociam códigos reais e conceituais, aludidos à vida ideal que os personagens tentam mas não conseguem mais sustentar. Desta maneira, uma moldura vazia é tanto uma janela quanto uma tela, quadros que quebram com a naturalidade da intimidade e exigem uma postura x para comunicação com o outro. A cenografia (de Arthur Langer e Rodrigo Trindade) é criativa e curiosa. O bebê do casal, por exemplo, é representado por uma estrutura de lâmpadas, que intensifica a tensão e desespero dos personagens quando piscam associadas à trilha sonora (direção musical de Pedro Botafogo) para representar o choro. O design de luz (de Gabriel Prieto), portanto, trabalha com elementos internos e externos à cena. A direção é despachada, com recursos limitados. Fica a curiosidade para saber o que a Cia. de Bolso trará em seguida.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Reprodução / Cathy Israel)

FICHA TÉCNICA

Direção: Gabriel Rochlin

Direção musical: Pedro Botafogo

Elenco: Fernanda Alice e Vitor Novello

Dramaturgia: Fernanda Alice, Gabriel Rochlin e Vitor Novello

Iluminação: Gabriel Prieto

Cenário: Arthur Langer e Rodrigo Trindade

Figurino: Dora de Assis

Design gráfico: Rodrigo Trindade

Produção: Luciana Duque

Assistência de Produção: Andrezza Abreu

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SERVIÇO: ter e qua, 19h. R$ 40. 60 min. Classificação: livre. Até 5 de setembro. Teatro Eva Herz – Rua Senador Dantas, 45 – Centro. Tel: 3916-2600.

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